sábado, 23 de maio de 2015

O Palácio da Mooca

O anti-herói tem mais de de vinte e sete séculos de existência, embora os pedantes achem que, ao escreverem sobre drogados, inventam a roda. Aquiles, por exemplo, ao quebrar a unidade do exército grego, comporta-se com uma vilania, que é o espelho perfeito da malandragem perpetrada por Ulisses no final da guerra. Enquanto o primeiro trai os gregos, dando-lhes de presente o Cavalo de Tróia da sua força física desgovernada, o príncipe de Ítaca faz o mesmo, mas contra o oponente até então imperecível. Odisseu é o homem cuja prudência deu a galardão aos gregos, e a Aquiles o vilão que, tendo matado Heitor, negar-lhe-ia até a sepultura se não Príamo não fosse lhe pedir o corpo. A virtude de Odisseu, no entanto, não se resumia à estratégia militar, mas se a sua terra natal, que ele governava com mão tão doce a ponto de permitir que sua esposa ficasse à frente de todos os seus negócios. A mulher, com efeito, é o melhor amigo do homem na defesa de seu patrimônio, desde que ela não seja a melhor amiga do cartão de crédito.
A maior riqueza de Odisseu, todavia, não eram as suas terras, onde as vinhas cresciam até derramarem abundantemente o vinho nos cálices servidos em dia de festa. Se Penélope tem uma incumbência importante, essa é a tarefa de educar Telêmaco em meio a príncipes que eram tão boa companhia de sua família quanto os parasitas o são de carvalho. A educação, dizem alguns cuja sobrancelha erguida demonstra que fazem mais força para pensar do que o Maguila para esbofetear, é imprescindível ao desenvolvimento do homem. Isso seria verdade se a educação pudesse ser destruída pelos amigos que um filho tem e seria melhor que não tivesse. Odisseu, no entanto, tem, ao lado das piores exemplos, a lição mais preciosa que alguém poderia conquistar nessa vida. Quando Odisseu retorna à ilha, ele não se preocupa com o rosto de Penélope, que as rugas enfeiavam, mas sim com manutenção de sua propriedade, que a desfaçatez dos príncipes havia tornado impossível. Foi isso que o motivou a abandonar a prudência que havia sido a vitória dos gregos para dar vazão a uma ira muito semelhante a que dá início ao entrevero de Aquiles. Ambos tem seus momentos de anti-heroísmo, mas no centro que une as duas estórias está a vitória de um povo e a conciliação do rei vencido com o assassino de seu filho.
A maior riqueza de Ulisses, materialmente, era o solo de Ítaca. Os mercados financeiros da época – que são velhos e gastos como todo o negócio o que faz da bufunfa o seu eixo exclusivo – somente teriam o que trocar se houvesse plantações e colheitas. No entanto, mais do que arremeter contra os príncipes porque eles não tinham cuidado de seus bens, a ira de Ulisses os destrói porque eles achavam que o seu maior seria tão venal quanto o produto do trabalho de seus escravos. O trabalho produz riqueza, mas ela vale tanto quanto valer o trabalhador, e este é o primeiro a reconhecer que as riquezas conseguidas sem esforço são as mais saborosas. Como o ladrão, ele sabe que o fruto é tanto melhor quanto mais proibido for. A diferença é que, enquanto o trabalhador se ocupa disso durante oito horas por dia, o ladrão usa as oito horas da noite.
Essa é a razão por que multiplicar as leis contra corrupção não levaria o Brasil a lugar nenhum. O melhor é deixá-la correr solta, aplaudindo os jornalistas se refestelam a cada descoberta nova de um ovo podre. O fato é que, embora eu admire muito aqueles que não leem jornais porque lá só há os cadáveres da moralidade pública, não consigo deixar de admirar o trabalho do coveiro. Há malandragem por trás do que vem fazendo o Janot, e é das heroicas: se o único indício contra o Eduardo Cunha é o cumprimento de seu dever de parlamentar de investigar os que contratam com o Planalto, então ele só foi acusado porque o contrário seria a dar à propaganda petista o argumento de perseguição política. A denúncia sem fundamento de um opositor do PT é a garantia de imparcialidade da investigação.
Toda malandragem complicada, no entanto, é uma perda de tempo. A única coisa que um malandro ao fim e ao cabo consegue é se livrar de ter a sua reputação manchada. Reputações, no entanto, são vendidas nas bancas de jornais por dois mirréis, e muito gente honesta é incluída no saco da corrupção somente porque estava na hora e no lugar errados. Vários empregados das construtoras, como os soldados do exército grego, sofrem com a traição de Aquiles. No entanto, se um empregado teve relações escusas com o mundo da política, é bem possível que tenha sido somente para garantir à sua Penélope e ao seu Telêmaco um palácio na Mooca.



quinta-feira, 21 de maio de 2015

Édipo e a Mulher de César


Em toda a guerra, a primeira coisa a se descobrir é o inimigo. Se a batalha é sobre Palácio do Planalto, o inimigo ou é pobre ou é rico, e está claro que, no momento, o inimigo são aqueles que detêm o que dinheiro nenhum no mundo pode comprar. É possível comprar casas em Parati, carros de luxo e postos de gasolina, mas ninguém é capaz de comprar o que nem todos os bens podem garantir. Uma consequência da riqueza é, sem dúvida, uma aura de prestígio. No entanto, essa aura de prestígio, se parece vir do nada, é muito mais prestigiosa. E é exatamente este o inimigo. A arma que os políticos empunham contra toda a população brasileira é o domínio da retórica cujo fundamento é o mais vazio dos nadas.
A malandragem em questão consiste basicamente em dizer que, como todas as pessoas são livres, os que cometeram crimes durante os governos do PT agiram por iniciativa própria sem contar necessariamente com o aval do partido. Esse argumento, porém, é como a culpa de Édipo. Ele afirma basicamente que o petistas teriam aparecido na política sem terem passado pelas reuniões que cada diretório municipal, estadual e federal faz para decidir quais serão e como serão custeadas as candidaturas. Ou, se passaram, enganaram a todos tão bem que os dirigentes simplesmente não farejariam a picaretagem. De qualquer modo, o partido, como herói tebano, não teria culpa alguma, e a ele só caberiam os méritos das políticas sociais.
 
Sobre essas, teriam o domínio do fato Lula e Dilma ou quem quer seja o candidato nas próximas eleições. Quando, portanto, o assunto são os alimentos distribuídos no Nordeste, não haveria dúvida de que eles saberiam e controlariam toda a engrenagem da máquina pública. No entanto, quando o assunto são os churrascos que Dirceu e companhia faziam com o dinheiro do povo, ninguém teria domínio sobre nada. A coisa não é coerente, mas um erro como esse nunca é percebido no meio da rua, onde os eleitores se afanam para ganhar o pão de cada dia.
A única solução, portanto, seria entrar com um processo judicial contra Dilma. Isso, porém, levaria o país a uma crise institucional, que os melhores veem como desnecessária e os críticos de plantão, cujo principal ocupação é torcer para o circo pegar fogo, veem como um fulgurante espetáculo de democracia. Que o Brasil é um circo, disso não há dúvida. Mas o melhor seria revelar quem são os incendiários pela única via possível: a denúncia calma e tranquila dos crimes cometidos pela propaganda petista, que vão muito além da corrupção pecuniária, e que são nada menos do que os discursos baseados sobre a lei. Segundos estes, as doações feitas por empresários ao Partido dos Trabalhadores seriam lícitas e, portanto, não haveria injustiça alguma. No entanto, é muito possível que por detrás de uma ato legal como uma compra e venda haja uma extorsão, sem a qual o preço não teria sido tão baixo ou alto. O PT vendeu o Brasil de maneira legal, mas isso não torna cada de um de seus membros menos responsável.
O contrário seria como afirmar que o massacre do Carandiru foi culpa do Estado e não dos presos e dos policiais, ou que a causa da queda recente do avião alemão na França é somente o deslize do seu empregador. Em todos esses casos concretos, o que há uma complexidade de erros que terminam numa tragédia. O erro, porém, não é algo inofensivo. Se Clinton não sabia que o complexo químico por ele bombardeado não era uma fábrica terrorista de armas, isso não o exime de ter dado a ordem um tanto desleixadamente. Muito mais grave, porém, é o erro que se transforma em ignorância voluntária, que é a patologia presente não só na queda do avião alemão como também no argumento - que é repetido como a insistência de um vinil arranhado – de que ninguém sabia de nada. Se realmente não sabiam, não haveria problema algum. No entanto, como não desconfiar que mesmo os mais sonhadores dos petistas não seriam feitos do mesmo barro que Fernando Collor de Mello? E, aliás, de um barro um tanto mais sujo, pois vai nele misturado, além da sede de dinheiro, um palavreado estranhíssimo sobre um partido mais imaculado que a mulher de César.
Todavia, Édipo e a digníssima esposa de César são cobaias de um experimento científico que começou no Renascimento. A partir de então, a política deixou de ser objeto de estudo acadêmico e passou a fazer parte do currículo técnico, que se ocupava em fornecer os meios para que qualquer um chegasse ao poder. O tubo de ensaio onde a experiência acontece é a imprensa, que vibra enquanto os ingredientes borbulham. O resultado é conhecido de todos: o que é mais leve boia. No caso, não há dúvidas de que, dentre as diversas propagandas da praça pública, não há nenhuma tão sem peso quanto as explicações petistas sobre os seus desmandos.





segunda-feira, 18 de maio de 2015

O Pênalti


Há muitos fatos inquestionáveis nesta vida. Ninguém por exemplo duvida de que Osama bin Laden era um terrorista científico, que fazia da razão um instrumento para o poder político. E, nesse sentido, ele faz melhor do que os intelectuais que acham que pensar é uma atividade em si e sem nenhuma finalidade. O problema, no entanto, é que seu projeto de poder não foi pensado. Se fosse, ele veria que é impossível vencer os Estados Unidos, cujo liberalismo é uma lição de democracia prática. Se o dinheiro é um voto, e o voto é onipotente, então, sendo um dos votos da população americana terminar com o terrorismo a todo custo, isso acontecerá assim que orçamento do Tio Sam o permitir. Há, no entanto, uma miríade de questões cuja resposta é aberta, e uma delas versa sobre a causalidade do mundo. Se, por exemplo, um jogador como o Roberto Silva perde um pênalti, isso significa que esse momento mágico do futebol é um títere nas mãos do acaso. Não haveria nada de certo no mundo, que seria nada mais que um jogo de azar. Ou ainda, se uma furacão se anuncia, no horizonte, e os pássaros, elefantes e leões saem correndo rumo às montanhas para buscar abrigo, isso tampouco seria um ato livre, mas somente a engrenagem do mundo funcionando sobre os seus seres irracionais.
Esse acaso, todavia, não seria meramente um fato, mas também uma lição para o homem, cuja vida decorreria assim de capricho em capricho, cujas decisões seria tão arbitrárias quanto a de um jogador vendido que, na hora crítica da partida, resolve chutar para fora, cuja liberdade, enfim, não teria outro propósito que o de afirmar a si mesma. A tolerância é a resposta que os pedantes dão a esse problema como se essa palavra fosse uma varinha de condão contra toda a corrupção. A solução, é claro, está em descobrir quem é o real culpado pela perda do pênalti, e se o que está em jogo é uma causa espúria como o suborno do juiz ou do jogador, o melhor a se fazer é puni-lo no intuito de que aprenda a se comportar melhor da próxima vez. A tragédia, no entanto, é que muitas vezes essas causas são indecifráveis, e os crimes acabam ficando sem punição. Afirmar, no entanto, que um assassinato é suicídio é negar que o crime teve qualquer causa extrínseca, o que é manifestamente falso. E foi isso, por exemplo, que o maior partidário da Tolerância disse acerca de um crime cujo culpado a razão humana não se atreve a perscrutar: a morte de Jean Calas.
Uma explicação, possível, no entanto, é que Calas se matou porque o mundo era intolerante. Isso, porém, além de ser calúnia de dimensões cosmológicas, não explica, todavia, que muitas outras pessoas vivam nele e não se matem. É muito mais plausível admitir que o crime aconteceu porque alguém permitiu que ele acontecesse, de descuido em descuido, como um jogador que, passando o ano sem praticar, perde o pênalti na final do campeonato. E afirmar que esse jogador merece uma punição, ainda que, na sua ingenuidade, ele ache que não fez nada errado, não é intolerância: é pedagogia. Assim, todos os outros aprenderão a lição de que, sem treino, não há talento algum que sirva.
Este é, aliás, outro erro do supinamente louvado e incompreendido Voltaire. Ele achava que havia uma razão que governava o mundo, a qual, todavia, era distribuída de maneira irregular entre as criaturas. Assim, os que recebiam um pouco mais, seriam seres racionais, e fugiriam dos furacões conscientemente, e àqueles que na partilha coubesse menos seriam os macacos que fogem das catástrofes simplesmente porque veem os outros animais correndo e não conseguem resistir ao impulso de imitá-los. A razão, no entanto, não é algo posto no homem como se uma causa extrínseca fosse a responsável pelo maior ou menor QI das pessoas. Ela é conquistada mediante o pensamento livre, que, aliás, não tem nada a ver com a tolerância segundo a qual os maus jogadores perderiam os pênaltis somente por descuido.
A pomba foi programada para, mesmo diante da mais terrível tempestade, preservar a sua vida, que, no entanto, pode ser tirada pelo caçador que não sabe se divertir de outro modo

A questão, portanto, é essa: ou um artilheiro perde o pênalti porque quis ou porque porque foi movido por forças misteriosas que o levam a precipitar o seu time na sarjeta da opinião pública como a depressão daquele piloto alemão fez os seus passageiros se precipitarem contra um rocha. Essa força misteriosa seria a mesma presente naquilo que os biólogos chamam de mutações aleatórias. É, porém, muito mais difícil acreditar nisso do que numa causa, seja ela física como o churrasco que artilheiro vendido compraria com o dinheiro da propina, seja metafísica como o propósito que o jogador fiel faz de, ao acertar o ângulo, dar à torcida uma alegria que o mundo não conhece.




domingo, 19 de abril de 2015

Loucura Científica

Quando um autor resolve tratar de um tema de maneira científica, a primeira pergunta que alguém em sã consciência se faz é se ele tem o instrumental filosófico adequado. Quando Pasteur decidiu, por exemplo, estudar os micróbios, ele não tinha um fato. Mas ele tinha uma hipótese filosoficamente apropriada, cujo postulado básico era: um rato não pode derivar de um lixo porque ele é muito mais complexo do que restos de comida. Isso não quer dizer que a ciência não trata de fatos. No entanto, fatos por si só não passam de obviedades, e se a ciência fosse só isso, ela não seria muita coisa.

Há mistérios no mundo, que compete a ciência desvendar. Um mistério é sempre uma coisa religiosa, embora nem sempre a explicação seja uma questão de fé. Não é necessário ter fé para refutar a teoria da abiogênese. Basta um pouco de bom senso. Em todo bom senso todavia há a constatação, comum a todas as pessoas saudáveis, de que existem fatos óbvios, espaços de claridade, intermitências de luz, mesmo no problema mais espinhoso. E que a percepção destes fatos não é patrimônio exclusivo da geração atual, como se nossos antepassados fossem o lixo do qual nós, ratos modernos, derivamos. Quando, portanto, um cientista do gabarito do Prof. Gerardo Furtado afirma que um conceito da teoria da evolução tão central como é o da hierarquia natural não tem fundamento, há aí um grave erro filosófico. Falta-lhe o mais simples bom senso de reconhecer que os homens são o topo de cadeia alimentar.

O argumento principal é: as ações humanas são movidas por instintos; o que é movido por instinto é um animal; logo, as ações humanas são animalescas. Se, no entanto, o professor Gerardo dobra uma rua e vê que donzela está sendo assaltada por um meliante, há, nesse instante, um fato que derruba a premissa de seu raciocínio. Porque, neste momento, ele é livre para seguir o seu instinto de preservação da própria pele e fingir que não viu, ou ele pode se aventurar num ato heroico. Um animal, porém, está programado para fazer sempre a mesma coisa, e se é difícil ensiná-lo a ser altruísta para com os da sua própria espécie, é praticamente impossível fazê-lo acudir as necessidades de uma outra espécie, como fazem alguns homens. Isso, porém, é óbvio. É, portanto, mais um mistério da existência que o Prof. Gerardo Furtado não o compreenda e saia por aí afirmando que à ciência falta este tipo de bom senso.

Talvez, porém, seja porque ele, afinal de contas, é um defensor da humildade contra uma certa tendência moderna de colocar o homem no centro de tudo. Nesta sua batalha, ele estaria certo. Mas, ah!, não é por aí que se começa o conserto deste mundo. Não é rebaixando o homem e elevando a ciência que as coisas vão se reequilibrar, porque a ciência é algo humano. É antes buscando o que de verdade há nos conceitos que as academias propõe hoje e propuseram ontem. E um desses, que frequentemente merece ser alvo da fúria refutativa do Prof. Gerardo, é o da hierarquia natural. Uma das interpretações da ideia é que o homem, sendo o topo da cadeia alimentar, é o mais forte de todos os animais. Isso, porém, seria falso. O homem não é o mais forte, mas sim o mais fraco dos animais. Um urso não precisa fazer lã para se aquecer no inverno. Um peixe não precisa de um tubo de ar para nadar no oceano. Um pássaro não precisa entrar dentro de um avião para voar. O homem, todavia, já encontrou remédio para todas essas carências. E isso aconteceria se ele fosse somente capaz de seguir cegamente o seu instinto?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Identidade


Embora seja muito recomendado, não é preciso assistir ao Homem Que Não Vendeu a sua Alma para descobrir que o proverbial tudo tem um preço não passa de um eco, que, a cada repetição, torna-se mais fraco. Tudo que vale a pena, de fato, exige sacrifício. Mas é impossível colar um etiqueta dizendo qual é o valor de tudo. A identidade, por exemplo, é algo que os economistas jamais conseguirão determinar quanto vale. Francenildo, o porteiro que denunciou não faz muito as reuniões escusas de Antônio Palocci, cresceu sem saber quem era seu pai. Não há dinheiro algum que pague a falta de resposta para esse tipo de pergunta. Mas de certo modo, não são só aqueles que nasceram e foram abandonados os que buscam uma  auto-denifição. Todos, de um modo ou de outro, querem saber quem, afinal de contas, são. Toda a fortuna do mundo seria incapaz de dar cabo nesta pergunta.

O rei Lear de Shakespeare pergunta ao mordomo de sua filha Goneril, bromeando, quem ele, o rei, é. Toda brincadeira tem um fundo de verdade, e é bem possível que o ancião que depois elouquecerá completamente já aí denunciava  a desordem que lhe ia dentro. O achar que o mundo inteiro conspira contra ele – não só as filhas, mas também a chuva e os raios e os trovões – seria o sinal de que ele se tornou um mentecapto. Mas antes mesmo disso, ao rejeitar a declaração simples de Cordelia, que tinha a língua mais curta que o amor, e preferir a retórica das outras filhas, o rei cuja ira subiria aos céus manifesta o sintoma fatal: ele ousa revogar um ditame da natureza – o ser pai de Cordelia. Aqui se faz, aqui se paga. Se a indetidade da filha honesta é posta em cheque, a dele também será.

Teorias da conspiração, no entanto, nem sempre são paronóias. Outro dia, um amigo simplesmente não acretitava que poderia haver um conluio entre feministas e fundamentalistas islâmicos. De fato, são duas filosofias de vida completamente diferentes. Uma é a revolta contra as regras que privilegiam os homens. A outra é uma rebeldia contra todos os que não obedecem à regras. No entanto, ambos têm um inimigo em comum, que é a identidade ocidental. Não é que haja uma afinidade teórica entre os dois movimentos, mas simplesmente um pacto prático. O mesmo acontece com os muçulmanos moderados e radicais: não há entre eles afinidade de doutrina, mas existe uma cumplicidade que, se não fosse negada a cada ataque terrorista, seria tomada como um fato.

Entre nós, um personagem parecido ao rei Lear é um ex-funcionário do governo. Sua tarefa, na época no escândalo do Francenildo, foi divulgar o extrato que a Caixa Econômica Federal, sabe Deus em troca de quê, resolveu ceder ao ministro da economia.  É de admirar, portanto, que este mesmo senhor, um fiel servidor do partido que está no poder, um homem que não vê problema em enlamear uma reputação desde que essa seja a ordem que venha de cima, elogie o regime militar brasileiro. Não se trata, porém, de Lear. Não é a ingratidão que o leva a loucura de servir a um projeto de poder e ao mesmo tempo cantar loas a seu oposto. Ele segue a falsa lógica dos fins que justificam os meios. Se a caserna levou a economia do país para frente à custa da democracia, o resultado seria tão bom que faria esquecer qual foi o caminho percorrido até ele. Do mesmo modo, se o que está em jogo é o seu emprego, para conseguir isso ele não hesita em colaborar na difamação de um inocente.

Alguns afirmam, no entanto, que seria impossível determinar qual seja a identidade ocidental, uma vez que um de suas traços é a pluralidade. Há nela lugar para todas as visões de mundo: desde o xiita que adora Alá até o ateu militante, passando por todas as filosofias práticas, segundo as quais os assuntos metafísicos não passariam de uma criancice, de um estágio inicial da razão, de questões cujas respostas são arbitrárias como os caprichos do Joãozinho. A existência de Deus, no entanto, é um ponto incontroverso tanto na grande filosofia como na grande literatura. Os ateus até poderiam afirmar que não há sistemas metafísicos idênticos, mas seria um exagero afirmar que não há um mínimo de consenso, que, por sua vez, é capaz de fundamentar todas as diferenças que existam entre as religiões. No seu canto de cisne, Lear, reconciliado com Cordelia, diz que ela e  ele gastarão o resto da vida espionando os mistérios das coisas.  Isso só é possível se houver uma luz que os ilumine. E não é, como dizem os pigmeus, procurar, numa sala escura, um gato preto que não está lá. A imagem é antes a de um espião, cuja missão não pode ser cumprida se ele brada a sua identidade aos quatro ventos. Mas ele sabe quem é.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Evidências

A biologia evolutiva não goza hoje do mesmo prestígio de alguns anos atrás. Um dos argumentos que lançam contra ela, porém, não merece sequer dois minutos de consideração. É uma dessas reclamações que mais provém de uma indisposição fisiológica do que de uma busca calma e tranquila pela verdade. Um duelo científico é sempre um duelo de teorias sobre fatos de que ninguém discorda. E muitos dos que atacam a evolução hoje simplesmente não propõe nada para substituí-la, e se limitam a afirmar que a evolução nunca foi reproduzida em laboratório. Ela, de fato, não foi nem nunca será simplesmente porque é uma tentativa de entender o mundo como ele é, e não como seria possível forjá-lo mediante a técnica. Contra isso os biólogos militantes esgrimem com sucesso o argumento de que evolução preserva duas evidências: há várias espécies no mundo, e há uma hierarquia entre elas.

O que, porém, torna a teoria particularmente antipática é a definição moderna segundo a qual a evolução não seria nada mais do que uma mudança aleatória do código genético. Além do defeito mais grave dessa definição – nomeadamente, ela não mostra a atualização de uma nota diferencial dentro de um gênero -, ela não é falseável. Em outras palavras, ela sai do campo da ciência e entra no da filosofia, sem antes ter dado conta da finalidade do mundo natural. Uma mudança aleatória é um empreendimento de risco da natureza, como se nela não houvesse uma finalidade, como se as alterações substanciais no ser fossem mera coincidência. Quando Júlio César, às margens do Rubicão, disse que tudo daí por diante seria aleatório, o que ele afirmava é que a guerra civil é uma aventura em que tudo pode acontecer. No entanto, isso não passa de uma frase de efeito, porque é claro que o mais forte, numa guerra civil, sempre esmaga desgraçadamente o mais fraco. Não há aleatoriedade porque mesmo as coincidências são o encontro fortuito entre duas finalidades. E, sem isso, a complexidade maior de uma mosca em relação a uma pedra não seria explicada. Ou seja, uma teoria da evolução que busque abarcar todas as evidências, e não somente as genéticas, ou resolve o problema da finalidade, ou então reconheça que se trata de um ato de fé.

Isso só não ocorre por conta da crença de que para ser científico é necessário ser cético. Isso, alguém douto diria, é uma implicação necessária. No entanto, a ciência nada mais é do que uma tentaviva obstinada de explicar todas aparências sensíveis porque elas são verdadeiras. A ciência está no polo oposto do ceticismo, da indocilidade ao real, da teimosia de se aferrar a teorias furadas ou incompletas que destorcem o fatos e chegam ao absurdo de afirmar que não há diferença específica entre um homem e um macaco. Quem enganou a humanidade nesse ponto foi Platão, e por isso é compreensível a muito alta conta em que as teorias são tidas ainda hoje.

A hierarquia natural, porém, é algo observável não somente em seres humanos, mas também em outros animais. A matéria, à medida que se organiza, torna-se não mais complexa. A contribuição moderna para a biologia é a negação da geração espontânea, isto é, a afirmação de que as mudanças não acontecem por acaso ou por inércia, mas sim que há uma finalidade no processo evolutivo. Uma mosca foi o suficiente para convencer Redi da inanidade de uma opinião comum de seu tempo, mas sociedades inteiras de abelhas e formigas não são o bastante para persuadir os fundamentalistas da evolução.

sábado, 22 de novembro de 2014

A Genialidade do Jumento Alado

Há poucas coisas tão chatas quanto os gênios incompreendidos. A razão, é claro, não é a sua alta sabedoria, mas sim a a repetição quase infinita dos lugares-comuns da genialidade. Um dos prediletos até de jornais populares como a Folha de São Paulo é a legalização. Há mais de dois mil anos os políticos debatem o que é bom e ruim e decidem muitas vezes, à revelia dos interessados, obrigar todos a seguirem a sua opinião. No entanto, por mais que se proibisse a avareza, sempre aparece um Euclião, que, no fim das contas, só desiste do seu amor ao ouro quando a sua indústria fracassa. A modernidade vai no sentido oposto, mas cai exatamente no mesmo erro. As drogas são ruins. No entanto, como proibi-las até agora não foi capaz de extinguir o problema, o melhor seria legalizá-las. Uma lei como essa, no entanto, não é o meio para fazer a revolução. Como dizia o inesquecível filósofo Márcio Diniz, a partir do momento em que um governo abre mão do bom senso, ele desanda para a ditadura.

Em poucos lugares essa bondade inerente ao senso comum foi expressada com tanta simplicidade como na Idade Média. O lugar comum da genialidade, nesse caso, é dizer que foi uma época de trevas. Há, no entanto, dois tipos de trevas: as que servem como uma moldura para um luz tão intensa que se ocupasse todo o quadro todo cegaria, e a da alta genialidade. Na Idade Média, a luz que brilha é acomodada aos olhos humanos. O jumento alado é um dos animais míticos que povoava a imaginação daqueles seres subdesenvolvidos. Ele é, por exemplo, o que salva o duque português quando este se encontra no duro transe de, para fugir de seus inimigos, ter que cruzar uma ponte que, pasmai, está prestes a ser implodida. Não é preciso dizer o que o adorável animal simboliza. O que a Tuba, sim, precisa anunciar é a substituição do fetiche do sobrenatural pelo fetiche do estado. A lei não resolverá o problema!

A solução, eu proponho, é encará-lo com naturalidade. Os brasileiros são um exemplo na arte de lidar com problemas insolúveis. Os nossos índios tinham o hábito duvidoso de comer os seus inimigos. Os políticos portugueses não teriam resolvido o problema se somente propusessem uma lei contra o canibalismo. O núncio real que fosse comunicar o seu conteúdo seria, é claro, devorado pelos índios e o manuscrito seria um tempero. O português, com sua lógica do bom senso, misturou-se ao aborígenes com tanta espontaneidade que lhe fez ver que carne humana não seria a mais adequada para sua dieta. Trocando em miúdos, o problema das drogas não exige a extravagância de dizer que algo péssimo é bom, mas sim a afirmação prosaica de que, se alguém acha que será feliz entorpecendo o seu entendimento, ele é tão subdesenvolvido quanto um camponês da Idade Média. A diferença é que nenhum jumento alado virá em seu socorro.