quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A Condescendência dos Gigantes

 

Uma turma de arruaceiros vai até o centro da cidade e resolve pichar o prédio público mais importante da cidade. Antes eles chegariam de madrugada e, entre uma risadinha e outra, fariam o humor contra o qual não há resposta porque não é necessária nenhuma. Hoje, felizmente, o anonimato foi deixado de lado, e bastaria que os jornais comentassem o fato para que todos vissem que por trás da piada se escondem os mesmos pedantes de sempre, que identificam liberdade com o assassinato. Se a população de São Paulo não tomar nenhum atitude, a mensagem é clara: o jornalismo também está morto. Se a influência na opinião pública não for possível agora, quando há claramente uma maioria que é a favor dos bebês, é porque a única razão de ser da Folha de São Paulo e do Estadão é uma chatíssima crítica anti-democrática.

A época do periodismo talvez já tenha passado. Foram-se os dias em que o pai, antes de sair para o trabalho, sentava-se para se informar sobre que está acontecendo no mundo através do jornal. Se ainda há quem resista bravamente, saiba que somos um grupo cada vez menor porque a simplicidade tende a tomar conta de tudo. É muito complicado averiguar, dentre os vários colunistas, quem emitiu a opinião certa. No entanto, no debate que ultimamente opõe os dois lados do Brasil, não é difícil encontrar a verdade. Os que dizem que a solução nacional está numa visão pragmática dos problemas claramente deixam a desejar. O sr. Felipe Zanisque, cidadão comum,  não precisa de fato de uma teoria para entender que o melhor não é andar de carro movido a petróleo. O mais produtivo seria trocar o ouro negro pelo combustível feito a base de cana-de-açúcar. Isso seria mais barato, o que é eminentemente uma razão prática. No entanto, esse sendo comum se apóia na tese de que a pobreza é preferível à riqueza, e isso é uma opinião que só faz sentido sentido dentro de uma teoria da família. Em escala nacional, sempre há um gênio que propõe emitir mais moeda para tornar o país mais rico, como se o que interessasse fosse o ouro negro, branco ou amarelo, e não a sua utilidade.

O bravo que seguisse lendo os jornais, todavia, poderia até chegar a essa conclusão, mas o caminho não seria facilitado pela imprensa, que virou uma vitrine onde cada um só se preocupa se a sua opinião é bonitinha. E o mais bonitinho seria não pensar, mas deixar-se levar pelas modas, que, quanto mais científicas, melhor. E a ciência verdadeiramente resiste tenazmente, se não como os solitários adeptos do periodismo, ao menos como uma manada. Dobrar-se ao consenso científico, porém, é como ser um gigante que aceita o desafio de um pigmeu. E o pgimeu em questão, em vez de buscar as origens, preocupa-se antes de mais nada com selecionar os fatos principais da parte que lhe cabe no latifúndio acadêmico. O perigo dessa condescendência é que algumas fazes um anão acredita nas bravatas que lança contra os gigantes.

Uma dessas bravatas é a de que a ciência explica tudo. No entanto, se o fatos não foram bem selecionados, a teoria pode muito bem servir a um propósito prático, mas dificilmente seria capaz de dar conta de toda a experiência, aí incluída também a dos pigmeus e a dos gigantes. O evolucionismo já é tão batido que não vale mais a pena insistir no assunto. Ao invés dele, tomemos como exemplo a ideia bastante difundida de que não existem culturas inferiores e superiores, mas todas seriam pedras preciosas que a Unesco deveria preservar. O principal fato selecionado aí é o pigmeu. Se a coisa é feita por um homem, seja ele quem for, isso basta para receber o carimbo de sacrossanto. Os homens, porém, por mais bravos que sejam, são capazes de erros como o do periodismo ou o de querer superá-lo com uma técnica, que, ao fim e ao cabo, também será caduca.

João e o Gigante

sábado, 17 de outubro de 2015

A Causa do Elefante

 

Alguns amam platonicamente o pensamento, enquanto outros o utilizam. Muitos acham por exemplo que fazer ciência nada mais é do que refutar os consensos da comunidade acadêmica. Mais adiante, todavia, alguém os refutará e assim por diante numa história sem fim. Isso é tão proveitoso quanto brincar de carrossel. Outros, um pouco diferentes, acham que a única utilidade possível é prática. Os marxistas, coitados, acham que as leis de herança são feitas não por uma questão de justiça, mas sim para, na prática, perpetuar as diferenças de classe. Essa sua doutrina tem o mesmo efeito que entrar numa casa e roubar o cofre. A diferença é que, dita por um professor, ela tem os foros da pedanteria, e, realizada por um ladrão, ela é motivo de cadeia.

Embora o bom senso não recomende a cobiça dos bens alheios, andar de carrossel é uma atitude muito humana. Nenhum outro animal é capaz de se dedicar desinteressadamente ao prazer de encontrar erros nas teorias alheias. O professor Gerardo Furtado, que pratica esse passatempo há décadas, é um exemplo para o resto da humanidade. Recentemente, ele descobriu que a Teoria da Evolução escorregou em algumas de suas afirmações. Isso não é de se admirar, pois toda essa parte da biologia não é mais que um grande casca de banana. Qualquer explicação que coloque tudo na conta do acaso nem chega a ser científica. Se, suponhamos, um elefante aparece na sala do professor Gerardo, ele, depois de um instante de embasbacação ante a beleza do mamífero, perguntar-se-á: “Mas o que trouxe este bicho até aqui?” É uma questão perfeitamente compreensível. Não o é, todavia, a resposta de que o bichano apareceu ali sem causa alguma: ou pelo puro capricho do destino ou pela improvável coincidência matemática, que são o mesmo. Se algum obscuro medieval conjecturasse que o ser que quebra a rotina do professor Gerardo chegou ali por levitação, ele estaria mais próximo da verdade do que o evolucionista que se contenta com o ainda mais aéreo acaso. A teoria mística seria algo que pelo menos poderia ser testado pela experiência.Elefante na Sala 

Cientistas, no entanto, alegram muito mais a vida dos seus alunos do que um elefante que por mero acaso se materializasse sentado no seu sofá. Depois de muito meditar no assunto, alguns chegaram à conclusão de que a diferença específica do homem é a linguagem. Isso já foi dito por Aristóteles, mas um cientista não se baseia na autoridade de ninguém que não seja a dele mesmo ou a de seus pares contemporâneos. O professor Gerardo vai além da teoria dos antigos, chegando inclusive a encontrar a propriedade que, dentro da linguagem, seria a peculiaridade humana: a gramática. É admirável essa eureca! O homem, dentre os outros mamíferos, é o único que segue as regras de sintaxe. Os beija-flores, com efeito, estão pouco se lixando para elas. As regras, todavia, não serviriam para nada se não fosse aquilo que Guimarães Rosa contou sobre Miguilim, o menino que “soprava as mãos num azado de consolo.”

Miguilim buscava em si mesmo um refrigério que aliviasse os incômodos da vida. Seu ato assim é perfeitamente compatível com o o princípio da primazia do prazer, já que levantar as mãos até a altura da boca não é um trabalho maior do que o benefício de ser consolado. No entanto, um urso que coçasse as próprias contas seria capaz do mesmo tipo de cálculo. O que torna Miguilim especial, todavia, é que sua resposta à realidade nem sempre é um reflexo condicionado, típico do ser que vive de regras, sejam elas as inscritas na sua natureza, sejam as da gramática ou as da Constituição Federal. Quando seu pai lhe trata pior do que um cachorro, e Miguilim teria todo o direito de matá-lo, ele se abstém. Ao tomar injustamente uma tunda de seu pai, Miguilim sentiu tanta raiva que sequer chorou. Se ele, nos recônditos de Minas Gerais, seguindo a regra do dente por dente e olho por olho, devolvesse a surra paterna , dificilmente sofreria alguma punição, e as consequências temporais do ato seriam mais positivas do que negativas. Segundo a lógica utilitarista, portanto, a ação valeria a pena. Buscar somente o útil, no entanto, é o único moralismo dos hedonistas. Miguilim não mergulha de cabeça no mal pela simples razão de que há certas coisas que, por mais benefícios que tragam, nunca devem ser feitas. O homem é o único animal capaz de, controlando-se, não cair na esparrela do utilitarismo.

domingo, 23 de agosto de 2015

Um Mestre da Liberdade

 

Os grandes males produzem grandes bens. Não há dúvida de que o bem é, por sua natureza, difusivo. Quando um escoteiro realiza sua boa ação do dia, ela como que se alonga no tempo pela força do seu exemplo e adquire uma permanência. Que de um ação má, no entanto, decorra algo bom é algo mais difícil de entender. No entanto, a história da Lituânia nos dá uma amostra de que isso não é uma mera possibilidade, mas um fato. No século XIX, a Lituânia já era uma grande potência. Não estava, todavia, sozinha no Olimpo imperial, e a Rússia, o gigante vizinho, dominou-a. Por medo à revoltas, Catarina II decidiu que toda profissão liberal estaria a partir de então proibida. Toda regra, no entanto, tem exceções, e é exatamente nelas que mora o sinal distintivo do imperialismo russo pré-revolucionário. Catarina II permitiu que houvesse sacerdotes na Lituânia, porque, embora o imperialismo russo não admitisse rivais políticos, Catarina II não quis deixar o povo sem a sua liberdade mais fundamental. O pressuposto era de que, sem religião, a cultura popular descambaria de tal modo que a Lituânia, em vez de ser uma conquista, seria somente um peso morto. Desprezar as sabedorias é sempre um tiro no pé.

Encurralada contra a parede, no entanto, a Lituânia, como um urso surpreendido em pleno sono pelo caçador implacável, não se deixou abater, mas reagiu. O governo de Catarina II era pessoal, vale dizer, não era baseado em leis. Embora a língua do país tenha sobrevivido graças ao contrabando de livros, o russo era o idioma da burocracia. Esse absurdo, todavia, não saiu do andar de cima da país, o que franqueou oportunidade para que, além de publicações de maior vulto, fizessem um jornal que atingisse as camadas médias e populares. E toda essa Torre de Babel aconteceu sem que houvesse sequer uma lei sobre o assunto, o que assemelha deveras a Lituânia ao Brasil, onde as leis sobre linguagem nunca prosperam definitivamente. Até aqui, porém, a luta lituana pela liberdade é passiva. Não havia movimentos de emancipação política.

O domínio russo, todavia, foi substituído pelo polonês, cujo caráter era diferente. Já havia a impessoalidade das leis, e a cultura lituana voltava a se fazer sentir. O terreno estava preparado para que surgisse um herói da nação. De um lado, havia um oponente tão hediondo como é uma máquina estatal que não visa o bem comum como algo distinto do individual. De outro, havia um povo que começava a vislumbrar o que é a liberdade, e como ela foi perdida em meio às guerras nacionais. E, acima de tudo, havia uma tampa sob o céu da Lituânia que ameaçava deixá-la completamente no escuro: a revolução russa poderia se espalhar pela região. O perigo, portanto, que faltava à época de Catarina II agora estava presente. O movimento lituano, no entanto, não é uma mera reação ao bolchevique, mas é antes a afirmação de que, se uma sociedade não é livre, ela jamais poderia aprender a fazer o bem. A liberdade então defendida, porém, não é um valor em si, mas sim a expressão jubilosa de que a Lituânia não tem outros inimigos fora o erro materialista. Do lado soviético, o grito pela liberdade tampouco deixou de ser ouvido. Mas a diferença é que a liberdade dentro dos quadrantes marxistas é o medo de tomar decisões duradouras e não um reconhecimento do bem, que leva, por sua vez, a uma difusão universal da bondade. O mestre da liberdade desta época é Dovydaitis, que fundou, além da Revista do Futuro, uma Universidade democrática.

Quando, todavia, o urso quase alcançava a luz que brilhava no exterior da caverna, eis que o caçador investe novamente. A Lituânia já havia passado pelo domínio czarista e polonês, mas ainda lhe restava enfrentar a aliança soviético-alemã. Se nas duas primeiras, a perseguição aos intelectuais fora simplesmente por medo de revoltas, agora o laicismo é quem dá as cartas. As catedrais são transformadas em museus. O ateísmo é ensinado nas escolas. À liberdade de expressão mandam-lhe calar a boca. E o maior herói nacional, o já velho Dovydaitis, é enviado a um campo de concentração onde, depois de contagiar sua alegria a seus companheiros de infortúnio, é fuzilado por ser coerente com a fé de Roma. Peixeira Vermelha - Samico

Nessa época é possível encontrar duas formas de resistências. A primeira era baseada na mera tentativa de administrar a sobrevivência, e só digna de menção porque ela não compactuava com a ditadura comunista. Isso é sempre possível mediante o contrabando de material proibido. Alguns, por exemplo, que cruzavam a fronteira, levavam consigo, em microfilmes, notícias para a mídia ocidental e outros, em idade militar, formavam milícias no interior. A segunda era formada por gente que saía às ruas no aniversário do pacto Ribbentrop – Molotov, assinado em 3 de agosto de 1939 para pedir mais liberdade, arriscando a própria pele. Um desses valentes, Tsys, foi preso por participar num desses motins, e o seu emprego foi para o espaço. Para sustentar a família, ele iniciou o primeiro jornal livre desde a ocupação soviética.

O bem realizado por Dovydaiitis e outros não podia, assim, ser desfeito. Ele conferiu à população lituana uma identidade que não só sobreviveu à hegemonia política soviética como também logrou destruí-la como um rio que, passando por cima das pedras do seu leito, desgasta-as pouco a pouco. Na década de 90, os lituanos pressionaram pela perestroica, e, depois de uma breve incursão soviética a que o povo resistiu, celebraram a liberdade cantando e dançando. Alguém, é claro, duvidará que Doyvidaitis tem alguma a ver com a emancipação que aconteceu depois de seu falecimento. No entanto, assim como um taco de sinuca é a causa da dança de várias bolas do outro lado da mesa, da mesma maneira um primeiro impulso rumo à liberdade pessoal de centenas de indivíduos é o que leva, mais adiante, à autodeterminação de uma país inteiro. Ainda que ainda quebrem o taco, o movimento iniciado por ele não tem fim.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Manifesto do Ecologista Feliz

Borboleta Degustando com os Pés

A esquerda se autodestruiu. O gatilho foi o a ideia que identifica no Brasil, como sistema econômico dominante, o patrimonialismo, que significa não o capitalismo industrial, mas sim a mera plutocracia que não produz bens, mas vive de rendas. Eis o alvo! Se no entanto o seu ódio fosse coerente, a esquerda teria se mantido longe dos patrimonialistas, que estavam no poder. Mas não! Influenciados por Antônio Gramsci, eles tomaram a cultura e destruíram a moral com uma mentira deslavada atrás da outra. Não há, porém, vácuo que não seja imediatamente preenchido de ar, e eles tomaram para si mesmos a autoridade moral que haviam destruídos nos outros. Chegando ao poder, ou eles destruíam a economia implantando o socialismo ou se aliavam aos grandes empresários, cujo único cliente rentável é o estado. Optaram estratagicamente pela segunda via sem abrir mão da primeira e decretaram para si mesmos que roubar é lícito desde que seja por um ideal. Essa é a tese de Olavo de Carvalho sobre os últimos anos da política tupiniquim. Isso, porém, não é a essência do problema.

Nos anos sessenta, a juventude brasileira descobriu que a liberdade é auto-determinação para o bem. O bem é algo que antes de mais nada está no intelecto do que na vontade. Pensando em círculo, eles descobriram que o leva o país para frente é a aristocracia da cultura, cujo principal nome, quando o assunto é brasilidade, é Sérgio Buarque de Holanda. A definição de brasileiro que encontraram lá é a do homem cordial, aquele que não sabe dizer não quando o negócio é bom para os dois lados, ainda que não seja estritamente legal. Chegando ao poder, eles tentaram se moldar a esse ideal, e assim aceitaram barganhas que depois seriam a sua derrota. O fracasso do PT é a uma provocação para que se redefina a brasilidade. O brasileiro, no entanto, não está completamente perdido, porque como  cordialidade não é teimosia, sempre há tempo de voltar atrás e retomar o caminho da verdade como expressa na fábula do leão. O rei dos bichanos havia capturado um cervo, que ele, então, não quis dividir com os outros animais, seus companheiros de selva. Ele, por uma privilégio da natureza, era mais forte que todos, e acabou traçando o prato sozinho. Passaram-se os anos, no entanto, e o rei das selvas se viu dominado pela velhice: moribundo, até a raposa ria dele. O leão agonizante é a esquerda, e a raposa boba de alegre é a direita.

Mas a verdade da fábula não é só esta. As categorias de direita e esquerda são grunhidos animalescos com os quais o leitor de jornal tenta identificar nas propostas dos candidatos qual é a mais condizente com o seu temperamento. Se ele é do tipo desconfiado, que consegue descobrir o delito por trás do discurso sobre inovações sociais, vota à direita. Caso seja jovem e ache que o mundo só pode melhorar, vota à esquerda. O progresso, no entanto, não é a invenção de novas sociedades, mas sim o fazer dessa poluição toda um lugar mais habitável. A sustentabilidade é o único modo de faze do planeta um lugar melhor, onde nem a raposa ri da desgraça do leão, nem o leão toma todo o bem que consegue só para si. Ambos caminham juntos em meio ao verde, que é de todos por não ser de ninguém.

Acontece o mesmo com o quintal de uma casa, onde todos brincam e a responsabilidade pela ordem do recinto não é bem-definida.  A origem da família, porém, não está na horda, que é um agrupamento desregrado cuja finalidade é a diversão inconsequente, mas sim a comunidade que os antropólogos chamam de clã e são a primaiada cujos laços remontam a um ancestral comum. A família como comunidade, assim, tem um princípio único. E isso, que é verdade para o clã, também o é para a união entre o homem e a mulher da vida moderna. Embora seja comunitário, o amor entre os esposos não é uma instituição totalmente objetiva, que tem a impessoalidade como marca. Ele, dentro de si mesmo, possui uma hierarquia, que na maior parte das vezes cabe ao marido, mas talvez nem sempre seja assim. A mangueira do quintal pode ficar enrolada ou no meio do caminho, toda  furada, irrigando a grama. Enfim, essa hierarquia entre esposo e esposa não é rígida, mas, se não houver, a comunidade familiar se transformaria numa anarquia, o que significa ser preciso que um dos dois aceite as ideias do outro e ceda. O homem e mulher, antes de educarem os os filhos, educam a si mesmos. A razão de ser de toda pedagogia familiar são, todavia, sempre as crianças. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Tragédia da Teoria

É sempre uma posição a ingrata a do árbitro autonomeado. Se, num jogo de futebol, o juiz, designado por alguém imparcial, já padece sob as calúnias infundadas sobre a honestidade de sua mãe, aquele que quisesse apitar o jogo por vontade própria, com mais razão seria vítima da pouca caridade alheia. No entanto, um empresário, por exemplo, que resolvesse investigar as relações familiares de seus empregados, buscando aí um vício que prejudicaria o o trabalho dele, ainda estaria no âmbito no profissionalismo. E é exatamente aí onde muitos homens de negócios erram e burocratas acertam. Porque, se na sociedade não houvesse um certo intrometimento na vida alheia, sempre haveria uma desculpa para que a tolerância fosse posta de lado. Não haveria tolerência, mas somente indiferença. Quando, então, o governo proíbe o jogo do bicho, isso não é uma intervenção indevida. É, antes, aplicação prática de uma teoria da qual ninguém discorda: se a riqueza é produto do mero acaso, ela também fortuitamente pode sair de uma mão e ir para outra. E a fortuna, que dá hoje a um o que antes era do outro, não passa de uma ladra que sempre comete o crime perfeito.

Fortuna

No debate público brasileiro, há hoje dois partidos: o dos que acham que mercado é quem premia e castiga e o dos que acham que a fortuna pode ser reduzida à vontade humana. O mercado, todavia, é algo muito parecida com a fortuna. Paulo Coelho, por exemplo, é um literato muito inferior a Diogo Mainardi. E, no entanto, vende muito mais livros. Do mesmo modo, os médicos são muito mais úteis à sociedade do que alguns magnatas que estão por trás de grandes empreendimentos ingovernáveis. A conciliação entre essas duas partes só é possível a partir dos fatos, que nínguém, salvo os idealistas, contestam. E, no entanto, é exatamente aí que os idealistas estão certos e os homens práticos divididos em partidos estão errados. Um dos axiomas desses filósofos herdeiros de Descartes é que a descrição da sociedade é tão mais precisa quanto mais matemática for. A matemática, porém, não é tudo. Quanto vale um homem? Diogo Mainardi vale mais que Paulo Coelho, porque um pobre vale muito mais do que um homem rico. E Paulo Coelho vale mais que Diogo Mainaridi porque um literato não vale nada se não houver alguém a para lê-lo A lição, porém, que ninguém nunca aprenderá por completo é que a realidade, antes de aprendida por alguém, foi caprichosamente moldada por um sucessão incontável mas finita de causas.

A metafísica dos acidentes de trânsitos é um exemplo vivo de que a especulação sobre as causas finitas é infinita. Todo acidente nada mais é do que uma coincidência de finalidades. A coincidência, no entanto, é uma sorte, que é o apelido que os otimistas dão à fortuna. Nela há o encontro de duas verdades práticas conflitantes. É assim que um Hamlet, dirigindo pelas ruas de São Paulo, descobre que a via necessária para sua missão é aquela que está imediatamente à sua direita. Ele, porém, ao ter esta eureca, estava, como de costume, meditando sobre a vida da maneira menos prática impossível: entre uma faixa e outra. Entre ele o seu desiderato, havia um ônibus que só não carregava Paulo Coelho porque o mercado – e não há nada de errado nisto - lhe deu dinheiro suficiente para só andar de táxi. Se, no entanto, ele estivesse lá, pagando ao trocador a sua passagem, a freada do ônibus teria feito com que ele caísse e quebrasse a mão. Essa mão, que não vale nada nem para mim nem para ninguém, é muito apreciada pelo Paulo Coelho, que então seria tomado de uma ira justa contra Hamlet. Ambos, dentro de sua própria cabeça, estariam certos. A diferença é que Hamlet, sendo um herói, teria parado o carro e pensado sobre a sucessão finita de causas do acidente: a bondade de cumprir a própria missão, a pressa do motorista para chegar à garagem e a imprudência do passageiro, que, podendo estar sentado, estava de pé.  E Paulo Coelho só escreveria um livro pseudomístico sobre os poderes inefáveis da mão quebrada de um mago.

A circunspecção é o que salva Hamlet e Paulo Coelho. É preciso olhar para o todo antes de fazer o particular. Se, no debate público brasileiro, o todo, nas suas infintas formas, fosse levado em conta, ninguém se espantaria de descobrir na regulação da sociedade uma verdade prática inegável. E essa é a de que a garagem não é um fim último do homem, e que Paulo Coelho, Diogo Mainardi e os inúmeros Hamlets brasileiros se beneficiam muito de uma fortuna que, em vez de cometer o crime perfeito, provoca as melhores coincidências dando aos pobres o que é deles e aos meditabundos a possibilidade meditar na vida dentro de um táxi para que não atrapalhem os outros. Isso, porém, seria o ideal, que a prática talvez contradiga.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A Única Saída


Cerco que se fecha
Mônica Bérgamo conta o que depoimento de Júlio Camargo na Lava-Jato é devastador. Trata-se de um recado enviado ao Congresso. O depoimento comprometeria Eduardo Cunha, que portanto deveria tentar alguma troca de favores com Dilma para que ela intervenha. Isso, porém, é praticamente impossível, porque o Sérgio Moro é bastante independente. A única solução seria trocar o Rodrigo Janot por outro procurador que fizesse vistas grossas quanto aos desmandos dos poderes executivo e legislativo.

As contas da Dilma serão julgadas em breve pelo TCU. O presidente do Tribunal é Aroldo Cedraz, que recebeu propina de Ricardo Pessoa. Além disso, seu filho advoga junto ao tribunal, o que pode lhe render vantagens indescritíveis e ilícitas. Aroldo pai buscava esconder o seu nome, usando o dinheiro extorquido através de uma empresa que constituiu com sua mãe.

O discurso da pilantragem é dizer que não sabia de nada. Não sabiam que pedir dinheiro para uma empresa que tem contratos milionários com eles é uma espécie de esmola forçada. É, por exemplo, o que disse José Cardozo em seu depoimento à CPI da Petrobrás: a presidente da República não saberia que a origem do dinheiro era ilícita. A ciência, de fato, do ladrão não é a mesma ciência do cidadão.
O cidadão oriundo da Revolução Francesa sabia que algo era ilícito porque o código lhe dizia. Neste sentido, Dilma, sendo economista e nunca tendo pegado num Código Penal, pode se dizer ignorante da proibição de roubar. Isso é a ciência do direito positivo, que é muito parecida com a ciência do Professor Gerardo Furtado. Ela parte do axioma e manda às cucuias todo o bom senso. O axioma é que só existe a lei positiva. O bom senso, todavia, é que o crime não compensa. E isso ninguém ignora.

A única solução, portanto, é que os políticos apoiem a investigação e digam tudo o que sabem. Os cínicos sem dúvida a chamam de utopia. Há mais ingenuidade, porém, em achar que toda a roupa suja será lavada por meio de argumentações legais, que ninguém do povo entende, do que em posar de vilão arrependido. Tosltói, nesse ponto, quase enganou a humanidade. O arrependimento não é a causa do suicídio de Anna Kareninna, mas sim a loucura de não olhar para trás e ver que o que poderia ter sido diferente ainda pode.




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Raposas e Fiscais


Contam que uma raposa um dia caminhava pela Paulista e viu o seu reflexo numa vitrine. Ela havia conseguido, na parte de trás de um restaurante chique, o seu almoço. Caminhando lentamente pela Paulista mastigando o resto de rosbife, ela olha para o lado e vê, numa vitrine, uma raposa muito mais bonita, e com ainda outra diferença. Ela estava mastigando não um rosbife mais apetitoso, que de repente cai no chão. Era a própria raposa que, tentando abocanhar o da vitrine, perdera o seu pedaço de carne pisado por um pedestre apressado.
Fiscal no Espelho
Ver o seu reflexo na realidade é próprio do fiscal. Longe de mim criticar uma profissão tão necessária à sociedade. Ela, no entanto, desvia-se frequentemente para mera burocracia como aconteceu recentemente com ofuncionário do MEC que resolveu pedir a lista de bibliografia produzida por uma faculdade de Filosofia. Isso é como pedir a Platão que colocasse por escrito os seus ensinamentos. Ainda que ele não os tivesse, ele não seria menos filósofo por conta disso.  A atividade fiscalizadora, no entanto, não é exercida somente por funcionários públicos. Lindbergh Farias também é fiscal ao fazer política interna no PSDB. Apesar de político, ele não deixa de ser um camarada virtuoso. Na sua coleção de méritos, todos os outros se escondem sob o da discrição. Quando ele soube que a Petrobrás tinha virado espólio, ele fechou a boca. Uma vez, um jornalista lhe perguntou se ele sabia alguma coisa sobre a possibilidade de impedimento da presidente da República, e ele, como de costume, desconversou dizendo que a pizza já estava no forno e que ninguém queria que a apuração terminasse. É impossível ver no discurso de Lindbergh algo mais do que palavras lançadas ao vento com a displicência de um homem simples, consciente de que a atividade política é um trabalho tão longo quanto o de Sísifo.

O mesmo, porém, não acontece com a delação de Paulo Roberto da Costa contra Lindbergh. Sua fala foi motivada ou pelo ressentimento  contra um esquema de corrupção que lhe rendia pouco ou pela sede de justiça. Se foi o primeiro, trata-se de uma mentira contra a reputação de Lindbergh, que partiria o bolo pegando o maior pedaço para si. Se foi a segunda, trata-se de uma verdade e Lindbergh Farias faz de tudo para escamotear a corrupção na Petrobrás, sendo ele mesmo o membro do PSDB que quer abafar a investigação. Um abafamento, no entanto, consiste  o cargo e os estipêndios dos detetives. Isso, porém, é improvável que aconteça porque a mídia está de olho.

Mas e se Lindbergh é um herói? Ele seria a vítima da mentira deslavada de um delator que, pasmem, inventou uma história maluca somente para se ver livre da cadeia. Um amigo meu cultiva essa teoria. Isso, porém, é conto de fadas de quinta categoria. Se os delatores, além de terem vários indícios contra si, mentissem ao juiz, eles atrairiam para si a ira justa do povo. Essa opinião é como acreditar que a raposa, tendo visto a carne jogado no lixo, tivesse procurado o cliente de regime para lhe dar seus agradecimentos. Há raposas que viram gente, mas esse parece ser o antes o caso do Michel Temer. Seu discurso sobre a tranquilidade institucional da democracia brasileira é um sopro de poesia em meio à aridez das notícias de corrupção. O ponto, todavia, é que a justiça das instituições é cega, e seria capaz de condenar inocentes e livrar culpados. E não há poesia que substitua uma visão clara sobre o que realmente atrapalha a vida dos brasileiros. Não é a falta do dinheiro surrupiado na Petrobrás. É o medo de serem enganados por políticos que chamam de democracia a agenda das minorias cuja pseudo-filosofia é que não haveria verdade alguma.