segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Contabilidade Capilar

Ai dos doentes! Porque a medicina sozinha não pode salvá-los!! Antes de mais nada, o maior problema é achar o mundo sério como uma aporia. Os médicos, porém, também são pacientes porque padecem de uma grave falta de bom-senso. É errado achar que o o homem precisa, como um computador, de energia para funcionar. Um médico de um prestigioso hospital, que fica ao lado do Palácio da Mooca, é magro como um palito. Ele não tem tempo para jogar conversa fora porque todo ele se concentra num só traço vertical, sem possibilidade de se expandir como um horizonte onde o sol se põe. Para ele, tudo é uma longa noite,  em que só brilha, lá longe, a luz da saúde. Todos estão doentes até que se prove contrário. Nesse estado de espírito, ele vai até o quarto do senhor Marcelo Bezerra e Bezerra, e o seguinte diálogo acontece:
- Olá, seu Marcelo!! Tenho o palpite de que você tem muita dor na perna. Acertei?
- Doutor, eu já lhe disse que estou bem, pronto para ir embora.
- Mas e os rins: funcionam direito?
- Sim, nenhum problema.
- Mas o senhor deve pelo menos ter tossido bastante…
- Meus pulmões estão ótimos.
- E por quê, então, o senhor está com a cara feia?
- Muito simples, doutor: desde que cheguei aqui, a minha única atividade tem sido contar, quando acordo, os fios de cabelo que ficam no travesseiro. Eu não aceito isso!! E mais:  se estou entediado, a culpa é do hospital, que não me libera!
O médico, desconfiado de que o paciente tenta engabelá-lo, vai embora e não lhe dá alta. Bezerra-e-Bezerra é declarado doente porque ainda não descobriram a sua doença. Embora não seja perito na disciplina de Esculápio, ouso afirmar ser  fato que a perturbação do nosso amigo se deve à língua presa quando o assunto é a dor.  No entanto, o médico não compreende algo que os manuais da faculdade deixaram de ensinar.  Ele está doente porque há dias não conversa sobre nada que não seja a própria ruína, e ele precisa de outros temas como a malícia dos políticos.  Se ele saísse, ficaria melhor. Há, de fato,  algo simplório sobre a personalidade de Marcelo Bezerra e Bezerra que os doutores teimam em não aceitar. Ele não quer enganar ninguém, nem se nega a receber o tratamento. Ele só gostaria de exercitar  aquela arte que anda esquecida desde que a piada foi tornada oficial e, portanto, chata. Ele quer reclamar.

Sim, desde que os cabelos começaram a se despedir da cabeça de Bezerra e Bezerra, ele não está para ditos engraçadinhos. Ele gosta de posar de sério e não deixa de elaborar um discurso em consonância com a sua tragédia capilar. “A salvação do mundo depende de uma melhora do nível de moralidade, que está abaixo como estava a represa de Guarapiranga e não há chuva que dê jeito!”, ele repete para si mesmo e para quem é temerário o suficiente para cruzar o seu caminho. Ao mesmo tempo, porém, ele tem uma particular afeição pela injustiça dos outros, porque,  sem ela, ele não seria a vítima cósmica. Ele poderia até se vingar, mas diz para si mesmo que isso seria grosseiro.  Em última instância, porém, a visão predominante é a de que os deuses o invejam porque ele se mantém incólume no meio de um mar de iniquidade. E nada, de fato,  é tão belo quanto um homem pelagiano, sem culpa, que atrai sobre si a ira do mundo inteiro.  Bezerra e Bezerra é um trágico que, ah!!, chegou atrasado!

Ele, porém, ainda não assumiu a sua calvície, sem a qual a sua querida desgraça não teria começado. A Tuba – cuja função social é tornar feliz qualquer imprudente que resolva perder tempo com ela, seja ele quem for - fornece um remédio pagão para uma doença pagã. A arte da tragédia nada mais é do que saber esperar passar o triste canto das sereias.  A propaganda em questão é o blá-blá-blá segundo o qual as pessoas se importariam mais com a juba do que com quem Bezerra e Bezerra é. Nessa matéria, não há ninguém tão hábil quanto Ulisses. O herói homérico foi cantado não só pelos gregos, mas também por um surfista carioca muito tranquilo, que é um discípulo moderno de Alberto Caeiro. De posse de um manuscrito que lhe chegou numa das ondas, ele verteu livremente para sua língua a tristeza moderada de Ulisses, que o levou não à loucura de agir, mas, muito pelo contrário, a ficar parado por algum tempo na rota traçada antes que a fúria dos elementos despencasse sobre a embarcação indefesa.


Os Cabelos Que Ficaram Para Trás 
A linha entre o ser feio e ser gozado
É uma diferença bem pequena
Que eu descobri uma vez, já cansado,
Nas doces areias de Saquarema.

O grande esforço, já extenuado,
De pescadores sem nenhum problema
Que não se resolva pelo que é dado
Pelo mar, sem carência de esquema,

Encontrou um tesouro na areia
Como um prêmio-extra por seu trabalho:
Eram jóias… que o tempo tornou feias.

- Há algo belo que seja perdoado?-
Perguntei. E o vento, na minha orelha:
- Ítaca! Onde a calvície é passado.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A Frieza das Mulheres

A cordialidade brasileira não é sentimentalismo. Ela é antes de mais nada a capacidade de dialogar mesmo quando o navio está a ponto de naufragar, e um brasileiro de verdade não deixa de ceder o seu lugar no bote que salvaria a sua vida por conta do medo de que o resgaste não iria chegar. O verde da bandeira tupiniquim é a sua esperança, que só morre quando o dinheiro fala mais alto. É a triste história de Lula, que deixou de servir aos pobres quando o verde dos dólares da Odebrecht subornaram a sua consciência. O segundo fundamento da honestidade é não se achar o honesto, porque o primeiro é a razão, coisa que está em falta mesmo em figuras ilustres como os professores da Botucatóvisque, aquela faculdade que, entre nós, é dona do prestígio que foi de fato perdido na noite dos tempos. 
Um de seus professores um dia me confidenciou que o sentimentalismo o deixava apavorado. O medo, obviamente, é pior do que o próprio sentimentalismo. A melhor reação contra essa doce falha não é encolher-se, mas sim desbragadamente assumi-la. Sentimento é bom, e eu gosto. Isso é subjetivamente verdadeiro porque foi um fato que a consciência manifesta com a clareza que permitia a Narciso estranhar a sua face no lago. A diferença entre homens e mulheres é que os primeiros se apaixonam pela imagem, enquanto as segundas não se apaixonam por nada. A sociabilidade é algo comum entre os dois sexos, mas a proverbial fragilidade feminina é uma máscara que esconde o seu coração de gelo ou, na gíria filosófica, a sua diferença específica. 
Tomarei da vida um exemplo politicamente incorreto, mas sincero. Nem o mineiro, nem o carioca, nem o paulista, nem ninguém é tão macho quanto o cearense, esse bravo que suporta a seca com um estoicismo mais forte que o de Zenão. Isso é sinal de varonilidade porque é próprio do homem se empolgar com a própria força. Não há dúvida, porém, de que o melhor para o cearense é deixar de ser cearense e ir, como uma mulherzinha, a Brasília implorar que, em vez de planos mirabolantes como a transposição do São Francisco, recorram à simplicidade da água das cisternas. Ou seja, a dor da seca só é vencida se se faz uma gritaria em torno dela. Mas, para isso, é necessário uma paixão transparente e equilibrada como num soneto de Camões.  
Mulheres, pelo contrário, quase não escrevem poemas de amor. Essa frieza é ao mesmo tempo a sua glória e sua ruína. Se as amadas respondessem às cartas dos amantes, não só as epístolas deixariam de ser ridículas como o próprio sentimento desapareceria. O amor feminino não é a contrapartida do masculino porque as mulheres são mais racionais do que os homens. Se Helena fosse uma mulher de carne e osso, ela não seria capaz de ter atraído Menelau. Foi só quando ela se apaixonou pela própria imagem que Troia ruiu. Uma mulher de verdade é como um beija-flor que paira acima dos sentimentos vulgares não porque tenha medo deles, mas sim porque a sua razão lhe diz que a transformação da beleza ordinária na permanência do casamento só ocorre se os homens forem também suficientemente calculistas para reconhecerem que o frio na barriga do primeiro encontro não dura senão à força de comprar muitas flores e descobrir outros meios menos óbvios.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Pangaré Alado e Sua Audição do Estudo em Si Menor de Fernando Sor



Há várias maneiras de tocar violão. Uma delas é displicentemente pegar o instrumento nos dias de pagode para acompanhar algum cantor amador que quis desenferrujar o gogó. Outra é estudá-lo para dominar a técnica de tal maneira que, quando o artista dá a graça de uma canja, todos ficam embasbacados com o movimento rápido de seus dedos, e se esquecem da música. E tudo oscilaria entre o improviso do serviço e a vaidade do brilho se não houvesse quem colocasse o talento a serviço da harmonia até, depois de muitos ensaios, deixar que ela encha todo o ambiente de serenidade. Isso é o que faz com destreza o médico piauiense Marcos Leal, já radicado há quatro anos no Rio de Janeiro, com um simples e muito belo estudo em Si menor de Fernando Sor. Ele não é um profissional da música, mas a precisão cirúrgica aprendida na faculdade não foi em vão. Ela faz com que o instrumento planja de tal maneira que qualquer um que tenha sido mandado embora do emprego e ficado sem rumo, andando para lá e para cá por uns dias, sinta-se identificado com o vai-e-vem da melodia.

Serenidade de fato é só o fim. O que esse conjunto de sons provoca é a leveza instável de andar de barco no meio do mar, com o vento forte levantando as ondas, rumo a uma ilha paradisíaca e inexplorada. Quando então o barco chega, não há ancoradouro, e ele tem que rodear a costa em busca de um local seguro. Eis aí a síntese de movimento e repetição que a música traz consigo. O trajeto do barco se aproxima e se distancia da orla, perscrutando suas paisagens desiguais para em vão completar o círculo. Mas sobe e desce sempre no mesmo ritmo. Depois de dar uma volta inteira e não encontrar nada, o destino parece ser, quando a melodia é mais terna, o fracasso de retornar à praia de origem. No entanto, eis que de repente tudo é calma, e a paciência conquista seu prêmio. O barco lançou âncora, os tripulantes desceram, e seus pés tocaram a terra firme sob o azul diáfano de um céu sem limites.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Peleguismo e Outras Maravilhas

Chuva, Vapor e Velocidade - Turner
Viver no Brasil é constantemente ser lembrado do que julgo ser um uma opinião plausível: o poder é como a barba. Assim como esses pelos que teimam em crescer ainda que sejam sempre raspados mostram que a natureza humana é caprichosa e tenaz, assim também algum governo nunca deixa de ser exercido, ainda que contra todos os jornais. Como a barba, o poder é um privilégio que nem todos têm mas todos respeitam. Há gente, no entanto, que se acha capaz de dizer ao povo quem é a autoridade, como se ele fosse um dândi que precisasse de um espelho. Nessas últimas manifestações, algumas mídias virtuais afirmavam que sicrano, legitimamente posto no seu cargo, não manda nada. A natureza, no entanto, não tem a obsessão pela unidade. É possível que haja, ao mesmo tempo, vários caciques para o mesmo assunto, e improvisar um tribunal para decidir quem manda e quem tem juízo é mera retórica.  Ockam diria que não convém complicar o que pode ser simples. A democracia, porém, é necessariamente múltipla e diversa.

Uma forma mais sutil de minar o poder é alardear que o seu discurso é desconexo. Se dom João era realmente a figura que pintam, ele devia frequentemente não falar coisa com coisa. A maior parte dos desentendimentos, no entanto, acontecem mais por deficiência do ouvinte do que por loucura do falante. É verdade que a arte moderna tem se esforçado para contradizer isso, mas o máximo que ela consegue provar é que uma representação da própria singularidade requer uma apreciação um tanto singular. Outro fator de incompreensões, mais grave, é o desprezo por um dos axiomas do bom senso: o de que tudo tem a ver com tudo.

A capacidade de autocrítica, por exemplo, está relacionada com a política. Bill Clinton, um nome que foi democraticamente enterrado e sepultado, era uma espécie de gênio da reputação. A fama, de fato, é algo muito volátil, mas gente como ele tem a malandragem necessária para se sair bem mesmo quando comete um erro. Quando alguns de seus subordinados errou o alvo e, em vez de uma fábrica de armamentos químicos, acertou uma indústria farmacêutica, não houve nisso nada mais do que uma cochilada profissional que a técnica se incumbiu de agigantar.  Alguém deveria estar atento, mas o corre-corre do quotidiano traz consigo essa possibilidade terrível. A rigor, portanto, Bill Clinton não cometeu nenhum crime, mas mesmo assim, descobrindo no fracasso uma oportunidade eleitoral, mostrou-se profundamente humilde e pediu desculpas.

O sobe-e-desce da democracia, por sua vez, está ligado com a imitação. Os adoráveis ingênuos diriam que Bill Clinton assumiu seu erro porque tinha a intenção de tomar sobre si a culpa dos outros e ser um bode expiatório voluntário.  Eles provavelmente estão certos, mas a fria prudência recomenda considerar a hipótese de Bill Clinton ser tão vaidoso quanto esses atores de cinema que compensam a falta de sentimento com um penteado bacana. E a única maravilha que esses obcecados pelo holofote aceitam é o próprio umbigo. Consta, porém, que isso estará de moda por algum tempo ainda, porque não é difícil extinguir o assaz decalcado discurso politicamente correto, algo tão próprio da humanidade, essa raça de macacos com um sentido mais refinado de imitação.  Embora a língua não tenha sido feita para a retórica, isso infelizmente não traz consigo que os que abusam dela sejam linchados. Mas até nisso há algo de bom. É tão natural quanto o poder e a barba que o atual governo brasileiro às vezes acerte sem saber por quê. É o caso, por exemplo, das verbas que ele destina aos cientistas políticos e comentaristas pelegos. O profissionalismo com que eles defendem o indefensável, jogando a culpa de alguns num inexistente sistema neoliberal, não deixa de ser verdadeiro. As faltas não deixam de ser coletivas porque alguém, solitário como qualquer minoria, resolveu, num dia cheio de raios e tormentas, dar ouvidos a uma serpente.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A Condescendência dos Gigantes

 

Uma turma de arruaceiros vai até o centro da cidade e resolve pichar o prédio público mais importante da cidade. Antes eles chegariam de madrugada e, entre uma risadinha e outra, fariam o humor contra o qual não há resposta porque não é necessária nenhuma. Hoje, felizmente, o anonimato foi deixado de lado, e bastaria que os jornais comentassem o fato para que todos vissem que por trás da piada se escondem os mesmos pedantes de sempre, que identificam liberdade com o assassinato. Se a população de São Paulo não tomar nenhum atitude, a mensagem é clara: o jornalismo também está morto. Se a influência na opinião pública não for possível agora, quando há claramente uma maioria que é a favor dos bebês, é porque a única razão de ser da Folha de São Paulo e do Estadão é uma chatíssima crítica anti-democrática.

A época do periodismo talvez já tenha passado. Foram-se os dias em que o pai, antes de sair para o trabalho, sentava-se para se informar sobre que está acontecendo no mundo através do jornal. Se ainda há quem resista bravamente, saiba que somos um grupo cada vez menor porque a simplicidade tende a tomar conta de tudo. É muito complicado averiguar, dentre os vários colunistas, quem emitiu a opinião certa. No entanto, no debate que ultimamente opõe os dois lados do Brasil, não é difícil encontrar a verdade. Os que dizem que a solução nacional está numa visão pragmática dos problemas claramente deixam a desejar. O sr. Felipe Zanisque, cidadão comum,  não precisa de fato de uma teoria para entender que o melhor não é andar de carro movido a petróleo. O mais produtivo seria trocar o ouro negro pelo combustível feito a base de cana-de-açúcar. Isso seria mais barato, o que é eminentemente uma razão prática. No entanto, esse sendo comum se apóia na tese de que a pobreza é preferível à riqueza, e isso é uma opinião que só faz sentido sentido dentro de uma teoria da família. Em escala nacional, sempre há um gênio que propõe emitir mais moeda para tornar o país mais rico, como se o que interessasse fosse o ouro negro, branco ou amarelo, e não a sua utilidade.

O bravo que seguisse lendo os jornais, todavia, poderia até chegar a essa conclusão, mas o caminho não seria facilitado pela imprensa, que virou uma vitrine onde cada um só se preocupa se a sua opinião é bonitinha. E o mais bonitinho seria não pensar, mas deixar-se levar pelas modas, que, quanto mais científicas, melhor. E a ciência verdadeiramente resiste tenazmente, se não como os solitários adeptos do periodismo, ao menos como uma manada. Dobrar-se ao consenso científico, porém, é como ser um gigante que aceita o desafio de um pigmeu. E o pgimeu em questão, em vez de buscar as origens, preocupa-se antes de mais nada com selecionar os fatos principais da parte que lhe cabe no latifúndio acadêmico. O perigo dessa condescendência é que algumas fazes um anão acredita nas bravatas que lança contra os gigantes.

Uma dessas bravatas é a de que a ciência explica tudo. No entanto, se o fatos não foram bem selecionados, a teoria pode muito bem servir a um propósito prático, mas dificilmente seria capaz de dar conta de toda a experiência, aí incluída também a dos pigmeus e a dos gigantes. O evolucionismo já é tão batido que não vale mais a pena insistir no assunto. Ao invés dele, tomemos como exemplo a ideia bastante difundida de que não existem culturas inferiores e superiores, mas todas seriam pedras preciosas que a Unesco deveria preservar. O principal fato selecionado aí é o pigmeu. Se a coisa é feita por um homem, seja ele quem for, isso basta para receber o carimbo de sacrossanto. Os homens, porém, por mais bravos que sejam, são capazes de erros como o do periodismo ou o de querer superá-lo com uma técnica, que, ao fim e ao cabo, também será caduca.

João e o Gigante

sábado, 17 de outubro de 2015

A Causa do Elefante

 

Alguns amam platonicamente o pensamento, enquanto outros o utilizam. Muitos acham por exemplo que fazer ciência nada mais é do que refutar os consensos da comunidade acadêmica. Mais adiante, todavia, alguém os refutará e assim por diante numa história sem fim. Isso é tão proveitoso quanto brincar de carrossel. Outros, um pouco diferentes, acham que a única utilidade possível é prática. Os marxistas, coitados, acham que as leis de herança são feitas não por uma questão de justiça, mas sim para, na prática, perpetuar as diferenças de classe. Essa sua doutrina tem o mesmo efeito que entrar numa casa e roubar o cofre. A diferença é que, dita por um professor, ela tem os foros da pedanteria, e, realizada por um ladrão, ela é motivo de cadeia.

Embora o bom senso não recomende a cobiça dos bens alheios, andar de carrossel é uma atitude muito humana. Nenhum outro animal é capaz de se dedicar desinteressadamente ao prazer de encontrar erros nas teorias alheias. O professor Gerardo Furtado, que pratica esse passatempo há décadas, é um exemplo para o resto da humanidade. Recentemente, ele descobriu que a Teoria da Evolução escorregou em algumas de suas afirmações. Isso não é de se admirar, pois toda essa parte da biologia não é mais que um grande casca de banana. Qualquer explicação que coloque tudo na conta do acaso nem chega a ser científica. Se, suponhamos, um elefante aparece na sala do professor Gerardo, ele, depois de um instante de embasbacação ante a beleza do mamífero, perguntar-se-á: “Mas o que trouxe este bicho até aqui?” É uma questão perfeitamente compreensível. Não o é, todavia, a resposta de que o bichano apareceu ali sem causa alguma: ou pelo puro capricho do destino ou pela improvável coincidência matemática, que são o mesmo. Se algum obscuro medieval conjecturasse que o ser que quebra a rotina do professor Gerardo chegou ali por levitação, ele estaria mais próximo da verdade do que o evolucionista que se contenta com o ainda mais aéreo acaso. A teoria mística seria algo que pelo menos poderia ser testado pela experiência.Elefante na Sala 

Cientistas, no entanto, alegram muito mais a vida dos seus alunos do que um elefante que por mero acaso se materializasse sentado no seu sofá. Depois de muito meditar no assunto, alguns chegaram à conclusão de que a diferença específica do homem é a linguagem. Isso já foi dito por Aristóteles, mas um cientista não se baseia na autoridade de ninguém que não seja a dele mesmo ou a de seus pares contemporâneos. O professor Gerardo vai além da teoria dos antigos, chegando inclusive a encontrar a propriedade que, dentro da linguagem, seria a peculiaridade humana: a gramática. É admirável essa eureca! O homem, dentre os outros mamíferos, é o único que segue as regras de sintaxe. Os beija-flores, com efeito, estão pouco se lixando para elas. As regras, todavia, não serviriam para nada se não fosse aquilo que Guimarães Rosa contou sobre Miguilim, o menino que “soprava as mãos num azado de consolo.”

Miguilim buscava em si mesmo um refrigério que aliviasse os incômodos da vida. Seu ato assim é perfeitamente compatível com o o princípio da primazia do prazer, já que levantar as mãos até a altura da boca não é um trabalho maior do que o benefício de ser consolado. No entanto, um urso que coçasse as próprias contas seria capaz do mesmo tipo de cálculo. O que torna Miguilim especial, todavia, é que sua resposta à realidade nem sempre é um reflexo condicionado, típico do ser que vive de regras, sejam elas as inscritas na sua natureza, sejam as da gramática ou as da Constituição Federal. Quando seu pai lhe trata pior do que um cachorro, e Miguilim teria todo o direito de matá-lo, ele se abstém. Ao tomar injustamente uma tunda de seu pai, Miguilim sentiu tanta raiva que sequer chorou. Se ele, nos recônditos de Minas Gerais, seguindo a regra do dente por dente e olho por olho, devolvesse a surra paterna , dificilmente sofreria alguma punição, e as consequências temporais do ato seriam mais positivas do que negativas. Segundo a lógica utilitarista, portanto, a ação valeria a pena. Buscar somente o útil, no entanto, é o único moralismo dos hedonistas. Miguilim não mergulha de cabeça no mal pela simples razão de que há certas coisas que, por mais benefícios que tragam, nunca devem ser feitas. O homem é o único animal capaz de, controlando-se, não cair na esparrela do utilitarismo.