domingo, 22 de maio de 2016

Uma Pérola no Chiqueiro



Eu nunca tinha visto Edmundo, o justo. No entanto, uma pessoa muito brincalhona contou uma vez que ele, estando no Rio de Janeiro, começou a explicar a arquitetura das igrejas da Praça Quinze. Edmundo era o guia de uma excursão em que só havia adolescentes. Depois de fazer doutas distinções em alta voz olhando fixamente para uma imagem e terminar com uma piada, ele percebeu que ninguém havia rido. Ah, pobre justo! Aconteceu de nenhuma gargalhada soar porque nenhum ouvido escutou. A garotada havia ficada parada contemplando, embasbacada, um carro tunado que, todo vermelho, rebaixado e moderno, destoava no meio da tradição do lugar.
Consolar um justo não é tarefa para qualquer um. No entanto, é possível que ele, enquanto voava para o passado, tivesse se esquecido que muitos outros doutos expositores das belezas atemporais também tinham ficado sem público. Ele certamente afirmaria que com ele é diferente porque a sua audiência era selecionada. No entanto, ninguém era tão selecionado quanto a corte do Rio de Janeiro, que, a não muitos passos dali, assistiu ao imperador que declarava ficar nessas terras. E alguém duvida, porém, que, naquele momento histórico, um pedestre estivesse com a cabeça nas nuvens, pensando em algum parente longínquo que o iria visitar ou em algum time esplêndido que foi roubado pelo juiz?
As lembranças, de fato, têm vida própria. Um fantasma que, desmistificado há muitos séculos, teima em voltar é o duende. Mas seu nome mudou, e o nome é tudo. Seu novo apelativo é agora energia, que pode ser atraída por um prisma ou repelida pelo pessimismo que muitas vezes é a realidade sem o eufemismo da retórica.  O imaginário moderno, assim, já não comporta um ser que, no jardim da minha tia, aparecia com a forma de um anão. Os duendes de hoje são algo tão abstrato quanto o ser, mas não tão fidedigno. A última moda é a Ideia.

Alguém que se apresentasse como o salvador da pátria faria uma paródia sem graça. Uma declaração de boas intenções pode muito bem ser uma das daquelas cartas ridículas sem as quais a humanidade não continuaria existindo. No entanto, quando um presidenciável como José Serra aparece na televisão para tranquilizar o povo brasileiro dizendo que, a partir de agora, o princípio pelo qual se pauta a política é a Nação, há algo de errado. Esse discurso soa como uma música solene que envolve em mistério uma coisa muito simples: o governo. Traduzindo em miúdos, José Serra promete deixar-se levar pelo que os técnicos lhe digam que é mais eficaz para a economia do país, sem deixar que seus interesses partidários prejudiquem os investimentos.

O problema com o livre mercado, no entanto, é que ele é de fato uma feira pública, onde jovens incautos deixam-se levar por qualquer produto barato. Se houvesse algo de novo no país, José Serra teria mencionado em que consiste precisamente o rumo a ser tomado. A posição do novo governo sobre os temas fundamentais não foi divulgada, porque ainda esperam por um consenso que nunca existirá. Eu gostaria de estar errado, mas é isso mesmo. No entanto, Edmundo, o justo, insiste em que o ministro merece um voto de confiança, porque, na sua fala, brilha como uma pérola escondida a palavra valor. E que a galera, quando ouve isso, não pensa só no preço de um automóvel.

domingo, 10 de abril de 2016

O Chá de Napoleão Democrata




Há muito papo-furado quando o assunto é o exército. Não há dúvida de que a força, por si só, não é um argumento, mas a estratégia militar se desenvolve nesse nível. Um dos pontos básicos dessa coisa é o de que, quando o soldado inimigo é capturado, não há mais nada a fazer. Napoleão, se não tivesse bem delimitado o que era a guerra, poderia ter destruído todos os camponeses. No entanto, se ele não o fez, é porque entendia que há uma diferença entre o ódio teórico, que é recomendável, e o prático, que convém sempre adiar. Não se deve tocar nem nas crianças nem nas mulheres a não ser para protegê-las. Quando invadidos, os russos, por sua vez, colocaram em prática a opinião metafísica de que a entrega é melhor maneira de se vencer. Se o intelectual põe fogo em tudo o que na sua vida é incompatível com o bem, não há dúvida de que, cedo ou tarde, a vitória será sua. O feminismo é um campo onde essa tática é particularmente eficaz, o que fica claro na história do chá.

Antes do século XVI, o chá era desconhecido na Inglaterra. Ele era cultivado na China, onde os homens o provaram e acharam que era leve o suficiente para ser uma bebida nobre. De fato, assim como o fumo, ele é algo que pode ser consumido antes e depois de qualquer refeição sem prejudicar o apetite, o que é conveniente para aqueles cujo ofício é gerenciar o trabalho alheio em reuniões longas. Aqueles que, mais embaixo na pirâmide, passavam a vida ao ar livre não se dignavam a distrair-se com beberagens de pouco valor nutritivo. Uma das primeiras cortes europeias que recebeu o produto oriental foi Portugal, onde, porém, ele foi somente uma moda passageira.

Alguns dizem que alguma resistência foi oposta. Antes mesmo de ser provado, ele chocaria as sensibilidades no seu novo ambiente, por conta de uma associação imaginativa ao ópio, um produto alucinógeno. No entanto, o boato de que ele prejudicaria a consciência só poderia ser aceito por aqueles que nunca ficaram levemente embriagados. Qualquer um que já sentiu a alegria do vinho sabe que é perfeitamente possível identificar uma alteração das percepções. Se, portanto, ao factoide da lombra do chá fosse acrescentado o juízo de que ninguém poderia saber se sonhava ou estava acordado, prová-lo seria uma temeridade. No entanto, não consta que o pessoal fosse ao mesmo tempo tão inimigo do álcool e tão crente no platonismo de quinta categoria segundo o qual o mundo é representação total.  Talvez fosse assim, mas seria preciso averiguar com mais cuidado antes de se divulgar uma opinião tão problemática. Platão ensinava que o mundo inteiro é uma representação somente enquanto dormimos.

O mais provável é que a demora para que o costume pegasse se devesse à novidade. No entanto, como foi adotado pela dieta dos grandes, o exemplo fez com que o chá se espalhasse. Catarina II de Portugal havia se casado com Carlos II da Inglaterra e levara consigo o hábito de bebericar o líquido para os palácios frequentados por seu marido. Uma questão interessante é por que a acolhida no país de Nelson foi maior do que na terra de Cabral. Talvez tenha sido que, no segundo, não havia uma bebida que fosse tão típica quanto o vinho no primeiro. Na Inglaterra, o chá preencheu um vácuo gastronômico que não existia em outras regiões.

No século XVIII, várias famílias bretãs alcançavam um melhor nível de vida com casas onde se vendia o requisito essencial para o chá das cinco. Entre os homens, porém, o costume de se reunir ao redor de um bule não era tão forte quanto entre as mulheres. De fato, quem já tinha a cerveja não precisava do néctar do oriente. As senhoritas, por outro lado, além do gosto, tinham uma razão ideológica para se reunir. As sufragistas, buscando que o direito de voto também se estendesse às saias, maquinavam as suas ações afirmativas entre um gole e outro. O chá era um símbolo da emancipação feminina. No entanto, ele não se resumia a isso, mas também era a ocasião de descanso em meio ao trabalho. No século XIX, de fato, reza a lenda que os empregadores da Inglaterra eram obrigados a conceder a todos os seus subordinados uma pausa diária para a conversa em meio aos aromas que um dia haviam sido estranhos e agora perfumavam os escritórios e as fábricas. 

Nesses intervalos e em outros, é muito possível que questão da finalidade do estado tenha surgido. Este ente imaginário, no entanto, não tem função alguma, mas serve somente para esconder quem detém o poder. O trabalho sujo de se meter nesses assuntos partidários tinha sempre cabido ao homem. No entanto, se as mulheres queriam dividir com eles ambos os fardos, não havia problema teórico algum. E mais: se, com esses novos deveres femininos, o cuidado da casa não ficava tão bem atendido quanto antes, o governo ganhava uma voz doce sobre um problema que a própria entrada das mulheres na vida pública havia criado: a educação dos filhos teria que ser terceirizada a particulares ou ao creches públicas. A hierarquia, no entanto, é ao contrário.
Vamos supor que exista uma república do chá. A aristocracia dessa cidade hipotética cuida para que não haja nenhum praga ou invasão inimiga que destrua as plantações e tenta melhorar a qualidade dos grãos. Abaixo deles estão os donos das terras onde o principal produto econômico é produzido. Eles, no entanto, não são em número suficiente para arar a terra, plantar as sementes e colhê-las. É imprescindível, então, que haja também empregados que façam esse e outros trabalhos. Todas essas funções são específicas e desempenhadas por homens. No entanto, nada impede que as mulheres sejam fortes o bastante. O que, porém, a modernidade fluida decreta do alto de suas cátedras é que não existe especialização dos papéis sociais, o que acabaria com qualquer feminismo. 

Como se não bastasse esse despropósito, a ideologia do gênero elimina a única coisa concreta digna do apreço geral: o bom senso aprendido através da mãe. Está aberta a porta para a tecnocracia, onde, embora se produzam muitas bebidas aguadas, ninguém mais trama revolução alguma contra os crimes legalizados. Seria, de fato, uma experiência interessante - e não só para o Sr. Fachin do STF– se cada município tivesse a liberdade para ser radical a favor da vida e da família. Isso, na longa fila das infinitas e justas reclamações femininas, é anterior ao direito ao voto. O estado é o lugar onde Napoleão se sente em casa, mas a mulher dele, com certeza, teria preferido passar a vida toda em Santa Helena.

sábado, 2 de abril de 2016

Falácia da Parabólica



O presidente da república tem foro privilegiado no STF se o crime for comum e no Senado se for de responsabilidade. Em 1992, houve uma tentativa frustrada de submeter os altos dignatários acusados de homicídios e roubos também ao Senado Federal. Dentre os sempre diversos pareceres sobre tema, no entanto, a opinião mais douta era a de que os delitos eventualmente cometidos pelo chefe do poder executivo continuavam sendo de duas naturezas: comum ou de responsabilidade. O chefe da nação também tem vida privada. E é assim até hoje. Matar, portanto, não explicaria juridicamente o impedimento. A diferença entre os dois tipos está no elemento político. Tirar a vida de alguém é um crime comum, que não necessariamente interessa ao rumo geral da nação, e não deve assim também ser julgado pelo poder de Sarney e companhia.

Que o juízo de admissibilidade dependa do legislativo mostra que a política deliberativa  é superior à técnica dos advogados, e que, portanto, Aristóteles estava correto. A instauração de qualquer processo requer, de fato,  dois terços da câmara dos deputados. No entanto, como não há diferença entre os dois tipos de processos, por crime comum ou por crime de responsabilidade, a bipartição das naturezas fica comprometida. Essa diferença legal, no entanto, também se submete a uma razão política. Se o presidente da república tivesse cometido um crime jurídico em nome do bem comum, não haveria como condená-lo. Com efeito, Maquiavel, que não era bobo, dizia que, se a república está em jogo, os fins justificam os meios. No entanto, nem sempre é assim.

Há bens que tem razão de fim. Toda a sociedade está ordenada a produção de riquezas. Não há dúvida de que, economicamente, é melhor o consumo do que a estagnação. No entanto, há várias coisas que não tem preço, a primeira das quais, numa democracia, é a honra do povo. Estar submetido a um chefe de governo disposto a negociar o Brasil em troca de mais parabólicas é inadmissível.

domingo, 27 de março de 2016

A Soberania Impossível do Alface e de Outras Irrelevâncias


Trazer à baila a repetição de um argumento ao longo de toda a história mostra que vários tiveram uma mesma convicção inabalável. Ao contrário do que julga o Evolucionista Ideal, não se trata de um preconceito psicológico comum,  mas sim de um juízo indispensável à natureza da cidade. Por outro lado, há opiniões inovadoras como a de que o acaso é a força que provê a matéria da seleção. O elemento comum entre o boato corriqueiro e a descoberta científica não é outra coisa que o mistério das incertezas. Porém, desde que a matemática tomou o lugar das humanidades, nenhuma segurança é possível fora da economia, o que destrói o orçamento do Ministério da Educação. De fato, não há dúvida de que investir na infraestrutura necessária às indústrias é algo mais promissor do que atribuir recursos à busca desinteressada pela verdade.

Uma certeza, no entanto, é sempre incompatível com as demais. O boxe, a propósito, é fundado nesse princípio. E, ao mesmo tempo, é uma demonstração de que ele é a glória da regra. Há várias maneiras espetaculares de derrubar o adversário. Dar-lhe, no entanto, uma cotovelada enquanto ele está caído no chão seria um crime. Uma sociedade, todavia, em que o progresso científico é a única verdade não permite nenhum esporte saudável. Qualquer objeção baseada na filosofia aristotélica é vista como algo retrógrado, que, ao invés de levar adiante, empurra para trás. O acúmulo de dados físicos é o primeiro passo para a burrice, ainda que elas sejam atestadas por Pasteur e outros nomes não tão respeitáveis. O segundo é delegar o pensamento ao consenso. O terceiro é querer refutar Descartes no seu extremamente ordenado campo de batalha.

Depois desse Filósofo, o progresso nada mais é do que um acúmulo de contas concretas, o que não traz consigo necessariamente o lapidar imprescindível da imaginação. O homem ou é um ser deslocado no mundo como um extraterrestre ou é um imperador cuja púrpura foi surrupiada. As duas concepções são bem parecidas, com a diferença de que, na segunda, há um delito primordial. A teoria da antropogênese do efeito estufa é compatível com ambas as hipóteses. O seu silêncio quanto ao furto, no entanto, embora falso, é uma cotovelada indevida, porque coloca o João da Esquina na posição de réu por um delito que ele não cometeu. Sempre é possível dizer que o Evolucionista Ideal não é o culpado pelo aquecimento global, embora o seja pela morte de uma multidão de vegetais indefesos. Isso, porém, seria pressupor uma consciência que, cientificamente, tem tanta entidade quanto a estratégia bélica de Chamberlain.

A felicidade do vegetarianismo depende da metafísica rigorosa segundo a qual a responsabilização é exclusivamente individual. O fato óbvio, porém, é que, se é impossível fazer um omelete sem quebrar um ovo, quanto menos um banquete. É impraticável adaptar-se sem dominar o meio, e isso faz com que seja imprescindível carregar pedras, esforço para o qual o alface não provê a quantidade indispensável de calorias. Sem dúvida, o avião que passa como um pombo da paz sobre milhões de cabeças indefesas teria sido inventado mesmo se as sinapses de Santos Dumont fossem estimuladas somente por alfafa. O que, porém, ele comia ou deixava de comer não é importante, porque são atos particulares.

Isso é um desvio político que qualquer cidadão tem o dever de denunciar.  Se os discursos parlamentares visam mais às leis sobre questiúnculas do que à soberania, o país está fadado ao fracasso. Há, no entanto, algo que é ainda mais urgente do que a autonomia. Se alcançasse o palanque um grupo que, por falta de uma palavreado decente, apelasse para as baixarias do baixo ventre, os amigos de Fernando Haddad teriam a reputação ilibada da toga. Como isso não convence ninguém, o próximo meio é usar a violência, expediente em que os senhores do baixo clero não insistem mais porque o alto clero ainda têm paciência o suficiente para dedicar-lhes a imprescindível conversa fiada. O liberalismo desenfreado, de fato, é a causa do terror. E se, por acaso, alguém ainda achar que tratar de procriação é um privilégio inexistente dos fiscais de alcova, aí vai mais uma razão gráfica.

Camões, como se não bastasse ser poeta, era também um herói militar, isto é, alguém que arriscava a vida pela pátria. Mesmo, no entanto, sendo um exemplo de civismo, ele arrumava tempo para cantar as loas de de uma musa que poderia muito bem estar presente por seus passeios públicos por Lisboa. Ele, no entanto, deixava-a em casa cozinhando e se retirava para alçar a sua lira às alturas épicas. E reclamava como poucos do mundo inteiro, que estava entre ele e sua amada. Ainda que seja muito belo, isso não é discurso parlamentar. Se os hábitos privados são esfriados pela sua exposição pública, a infecundidade toma o lugar das famílias. O próximo não é um sonho, mas sim um pesadelo já planejado e executado. As armas tomam o lugar da retórica, e a paz é derrubada junto com as torres da liberdade.

domingo, 20 de março de 2016

O Milagre do Trem

O Professor Gerardo Furtado  tem duas opiniões acerca desse costume imemorial que é a conversa fiada. A primeira é que ela apenas manifesta o quão precário sempre foi o raciocínio humano. A segunda é que, como um bate-papo não admite argumentos de autoridade, o seu aumento à medida que o tempo passa levaria a uma maior confusão, que por sua vez traria consigo o emburrecimento de trocar o fato pelo achismo, e esse efeito se acumularia de geração em geração. É um ponto de vista um pouco estrábico. No entanto, valendo-se do poder do criador sobre as criaturas, ele interpreta as suas palavras e se adianta a dizer que seus dois olhos visam mesmo a um só foco. Assim, cabe a nós entender a unidade do oráculo gerardiano e desvendar o mistério de como a conversa fiada não deixa e talvez deixe a galera mais estúpida. Para Otto Lara Resende, um infatigável praticante do esporte na modalidade epistolar, jogar conversa fora era uma forma de literatura. De fato, um de seus destinatários atestava: “os amigos que tiveram o privilégio de receber as suas cartas julgam que o melhor do Otto estava na incontinência do espírito do missivista tanto quanto no fulgor da palavra e na comunicação direta desse que foi quem melhor soube conversar no país e no seu tempo.” Não que se propusesse isso como um fim imediato, mas a coisa se desenvolvia de tal modo que, para dizer o que queria, ele utilizava recursos que a musa só franqueia aos valentes que, assim, são alçados quase a contragosto ao estado da arte. O ponto decisivo, assim, é saber se a literatura - isto é, a experiência transformada em ficção - não contribui para o descobrimento de verdades tão verdadeiras quanto aquelas que o Prof. Gerardo descobre no seu Pasteur e quejandos. A evolução, embora doutos julguem ser uma dessas iluminações, é um disparate mais inverificável que todas as estórias de fantasmas juntas e, portanto, não pode ser a pedra-de-toque da questão. Da mesma maneira, a infinitude do universo é uma elucubração tão gigantesca que tampouco serve. Resta-nos ficar com algo que ninguém duvida ser muito científico e averiguar se ele tem alguma relação com a literatura: o método. Essa mania acadêmica, sem a qual qualquer cientista passaria muito má impressão, nada mais é do que uma tentativa ordenada de verificar uma hipótese. Dessa maneira, se alguém dentre os antigos tivesse a ousadia de não fazer nada e conjecturar que a terra é esférica, ele poderia sair por aí divulgando a sua informação e exigindo que as pessoas acreditassem na sua autoridade. Alguém, porém, sempre pode duvidar. Então, ele poderia mostrar, na lua, o corte arredondado. Se o que produzia a imagem era o nosso planeta, não haveria incertezas de que a razão estava com ele. O método ou caminho que o levou a tese poderia ser replicado por qualquer um, o que daria foros de consenso à sua opinião. Tudo isso, todavia, depende da suspicácia, uma faculdade que Otto, como bom mineiro, trazia do berço. Ciência, com efeito, é uma certa observação ativa do real. E para que dê algum resultado é necessário que se proponha a responder a uma pergunta bem delimitada. Isso, porém, não é possível se o que predomina é a ingenuidade de achar que tudo é assim ou assado porque é o que parece. Suspeitar, no entanto, que as aparências enganam é um expediente da imaginação. Otto, por exemplo, estando hospedado numa pensão belga, desconfiou que o líquido vendido dentro de uma garrafa de água mineral potável fosse, na verdade, tirada de um bica improvisada que, por um momento, só existiu na sua cabeça. Ele, então, marcou o frasco para verificar se, da próxima vez, seria o mesmo. Assim a pulga atrás da orelha seria confirmada, e surgiria a segurança de que o dono do estabelecimento ganharia dinheiro à força de passar a perna nos clientes. Se isso não é, exatamente, o que um biólogo faz em seu laboratório, há uma semelhança inegável. Ambos, munidos de um palpite, tem que arrumar um meio de constatar a sua procedência. Existe, todavia, algo que é superior à ciência, embora não tenha o atributo divino da verificação laboratorial. Quando, num acidente ferroviário que aconteceu próximo de Barra do Piraí, vários passageiros morreram, mas Otto sobreviveu, ele não diz expressamente que isso foi por milagre. Os mineiros, por um excesso de prudência campesina, desconfiam que o acaso também possa existir. No entanto, ele deixa consignado que invocou a Virgem Maria. Que a vida humana não dependa de Deus, mas só da precariedade de invenções como esses e outros sistemas de transporte é algo tão exageradamente trágico que qualquer um afirmaria ser essa hipótese tão real quanto um sonho ruim. No entanto, alguns adoradores cegos da Nature imaginam isso e acham estar com a verdade só porque não estudaram filosofia o suficiente para discernir onde começa e termina a autoridade dos colegas do Professor Gerardo. Ela começa e termina no trem descarrilhado, e é tão certa e segura quanto uma caveira.









terça-feira, 15 de março de 2016

A Beleza do Faustão


A festa da democracia ainda nem começou, mas os preparativos são promissores. O ex-presidente Lula disse que só saía de sua casa algemado, como qualquer outro meliante. Como, porém, esse tipo de passeio não orna a reputação de ninguém, alguns poucos petistas foram às ruas para demonstrar a sua adesão inquebrantável ao anjo caído. E, numa de suas investidas, invadiram uma propriedade da família Marinho que está no nome de um estrangeiro. Eles teriam, mais uma vez, desmascarado a Rede Globo. Não haveria diferença entre conglomerado televisivo e aquele que, como economista, é um bom metalúrgico. Isso, obviamente, é papo-furado. A empresa carioca, no entanto, tampouco é uma vítima inocente.

Ela mesmo admite já ter feito das suas ao apoiar o regime militar. No entanto, o delito cometido pela Rede Globo não é o ter defenestrado os marxistas e afins, mas sim o mesmo em que incidem, quotidianamente, milhares de brasileiros. Um membro dessa preciosa raça acontece de tossir ao ar livre, no meio da rua, num dia em que o vento é impetuoso. Ninguém o recrimina de nada, mas, se alguém ameaça fazer cara feia, ele pede desculpas. Quando, porém, essas delicadezas passam a ser demasiado oficiosas, algo maior não vai bem. Se a Rede Globo sente muito por ter apoiado a revolução de 1964, o melhor seria esclarecer que, naquela conjuntura, não podia fazer mais. Não é uma bela ação, mas seria pior ainda a omissão. A grande confusão seria achar que, por alguém ter pedido desculpas por algo inocente, ele deveria estar arrependido do ato em si. Pedir desculpas por tossir, porém, não chega a ser um delito, mas somente uma má-compreensão da etiqueta. O crime da família Marinho é o que está por detrás dessa aparente questão menor.

Assim como acontece com a casa invadida, parte do apartamento usado por Lula tem como proprietário um terceiro. Isso, por si só, significa uma simulação, que, no entanto, é inócua tanto quando realizada pelo líder petista como quando feita pelos barões de Jacarepaguá. Porém, ao contrário do que acontece na esfera privada, a simulação governista é um indício de que o dinheiro para comprar as propriedades vieram de algum meio que seria politicamente incorreto admitir. É bastante diferente do que acontece com a TV Globo. Os petistas gostariam de passar uma imagem de honestidade, e a empresa midiática, há já alguns anos, esforça-se para ser conhecida pela sua sem-vergonhice. Há algo mais indecoroso do que vender a intimidade de uns coitados cujo único talento é a mediocridade de não ter nada para oferecer ao público além da indecência? O ato nefando da TV Globo é este: ela inverteu o pudor. É vergonhoso lucrar com a privacidade alheia, mas ninguém em sã consciência se envergonharia de possibilitar a festa que a ditadura do proletariado teria impedido.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Contabilidade Capilar

Ai dos doentes! Porque a medicina sozinha não pode salvá-los!! Antes de mais nada, o maior problema é achar o mundo sério como uma aporia. Os médicos, porém, também são pacientes porque padecem de uma grave falta de bom-senso. É errado achar que o o homem precisa, como um computador, de energia para funcionar. Um médico de um prestigioso hospital, que fica ao lado do Palácio da Mooca, é magro como um palito. Ele não tem tempo para jogar conversa fora porque todo ele se concentra num só traço vertical, sem possibilidade de se expandir como um horizonte onde o sol se põe. Para ele, tudo é uma longa noite,  em que só brilha, lá longe, a luz da saúde. Todos estão doentes até que se prove contrário. Nesse estado de espírito, ele vai até o quarto do senhor Marcelo Bezerra e Bezerra, e o seguinte diálogo acontece:
- Olá, seu Marcelo!! Tenho o palpite de que você tem muita dor na perna. Acertei?
- Doutor, eu já lhe disse que estou bem, pronto para ir embora.
- Mas e os rins: funcionam direito?
- Sim, nenhum problema.
- Mas o senhor deve pelo menos ter tossido bastante…
- Meus pulmões estão ótimos.
- E por quê, então, o senhor está com a cara feia?
- Muito simples, doutor: desde que cheguei aqui, a minha única atividade tem sido contar, quando acordo, os fios de cabelo que ficam no travesseiro. Eu não aceito isso!! E mais:  se estou entediado, a culpa é do hospital, que não me libera!
O médico, desconfiado de que o paciente tenta engabelá-lo, vai embora e não lhe dá alta. Bezerra-e-Bezerra é declarado doente porque ainda não descobriram a sua doença. Embora não seja perito na disciplina de Esculápio, ouso afirmar ser  fato que a perturbação do nosso amigo se deve à língua presa quando o assunto é a dor.  No entanto, o médico não compreende algo que os manuais da faculdade deixaram de ensinar.  Ele está doente porque há dias não conversa sobre nada que não seja a própria ruína, e ele precisa de outros temas como a malícia dos políticos.  Se ele saísse, ficaria melhor. Há, de fato,  algo simplório sobre a personalidade de Marcelo Bezerra e Bezerra que os doutores teimam em não aceitar. Ele não quer enganar ninguém, nem se nega a receber o tratamento. Ele só gostaria de exercitar  aquela arte que anda esquecida desde que a piada foi tornada oficial e, portanto, chata. Ele quer reclamar.

Sim, desde que os cabelos começaram a se despedir da cabeça de Bezerra e Bezerra, ele não está para ditos engraçadinhos. Ele gosta de posar de sério e não deixa de elaborar um discurso em consonância com a sua tragédia capilar. “A salvação do mundo depende de uma melhora do nível de moralidade, que está abaixo como estava a represa de Guarapiranga e não há chuva que dê jeito!”, ele repete para si mesmo e para quem é temerário o suficiente para cruzar o seu caminho. Ao mesmo tempo, porém, ele tem uma particular afeição pela injustiça dos outros, porque,  sem ela, ele não seria a vítima cósmica. Ele poderia até se vingar, mas diz para si mesmo que isso seria grosseiro.  Em última instância, porém, a visão predominante é a de que os deuses o invejam porque ele se mantém incólume no meio de um mar de iniquidade. E nada, de fato,  é tão belo quanto um homem pelagiano, sem culpa, que atrai sobre si a ira do mundo inteiro.  Bezerra e Bezerra é um trágico que, ah!!, chegou atrasado!

Ele, porém, ainda não assumiu a sua calvície, sem a qual a sua querida desgraça não teria começado. A Tuba – cuja função social é tornar feliz qualquer imprudente que resolva perder tempo com ela, seja ele quem for - fornece um remédio pagão para uma doença pagã. A arte da tragédia nada mais é do que saber esperar passar o triste canto das sereias.  A propaganda em questão é o blá-blá-blá segundo o qual as pessoas se importariam mais com a juba do que com quem Bezerra e Bezerra é. Nessa matéria, não há ninguém tão hábil quanto Ulisses. O herói homérico foi cantado não só pelos gregos, mas também por um surfista carioca muito tranquilo, que é um discípulo moderno de Alberto Caeiro. De posse de um manuscrito que lhe chegou numa das ondas, ele verteu livremente para sua língua a tristeza moderada de Ulisses, que o levou não à loucura de agir, mas, muito pelo contrário, a ficar parado por algum tempo na rota traçada antes que a fúria dos elementos despencasse sobre a embarcação indefesa.


Os Cabelos Que Ficaram Para Trás 
A linha entre o ser feio e ser gozado
É uma diferença bem pequena
Que eu descobri uma vez, já cansado,
Nas doces areias de Saquarema.

O grande esforço, já extenuado,
De pescadores sem nenhum problema
Que não se resolva pelo que é dado
Pelo mar, sem carência de esquema,

Encontrou um tesouro na areia
Como um prêmio-extra por seu trabalho:
Eram jóias… que o tempo tornou feias.

- Há algo belo que seja perdoado?-
Perguntei. E o vento, na minha orelha:
- Ítaca! Onde a calvície é passado.