sábado, 28 de maio de 2016
O Preço do Gosto
A Arcádia era uma terra muito longínqua, onde os pastores, que nunca precisaram da civilização, moravam. Nela, não havia espadas, nem arado, nem a experiência de qualquer conflito. Todos cuidavam de suas ovelhas. Como, porém, a monotonia delas cansasse algum racionalista de antanho, foi necessário que se inventasse a flauta como distração. Este foi o começo de uma tragédia, porque se antes as relações eram simples - os frutos eram colhidos das árvores e a carne era fornecida pelos animais -, agora o doce instrumento precisava ter um preço. A partir daí surgiu a cidade, em que não há só pessoas, mas também a compensação do comércio. Quem tocou a flauta quis receber um um salário, que, todavia, não é sempre necessário.
No governo, de fato, o princípio da compensação é aplicado de maneira diferente. Se um carpinteiro não produz nada, ele não tem o que compensar. Um presidente, por outro lado, se é prudente, ainda que não faça nada de concreto, merece alguma contrapartida. Além disso, o princípio opera não só na remuneração dos vereadores e quejandos, mas também na sucessão do governo. Ter o poder é algo que, por imitação, todos desejam, mas ele se torna ineficaz se não há quem obedeça. Portanto, o melhor é que todos, em algum momento, ditem os rumos da sociedade. O pré-requisito é que estejam dispostos a sacrificar os seus interesses. Do contrário, a cidade se transformaria numa oligarquia ou mesmo numa tirania.
Nosso poder, no nível animal, manifestava-se na posse de um território dividido entre todos e não mudou muito. O interessante, porém, é que a coisa comum nem sempre é útil. Os macacos, por exemplo, dividem não só a área onde vivem, mas também a árvore onde tacam as pedras, o que talvez seja um hábito hereditário de algum sacrifício pacificador. Esse bode expiatório, que seria simbólico se houvesse referencialidade múltipla, também é uma espécie de compensação, porque vítima igual ao agressor desaparece do plano fático, uma ausência particularmente louvável.
O princípio da compensação, portanto, pode ser definido como a origem do processo de diferenciação do trabalho em várias guildas. Se há um registro público, também é necessário que haja quem o leia e informe algum herói capaz de agir e que haja quem obedeça. Há, no entanto, um ponto em que a analogia, passando pela memória, a vontade e a decisão, não pode ir adiante. O bombeamento do sangue, que distribui oxigênio, não pode ser realizado somente por quem detém o poder. Do contrário, se o espírito soprado desde o Ministério da Educação for um veneno, a unidade pode até existir, mas ela não vale nada. É necessário que haja financiamento privado de fundações para que o totalitarismo não tenha chance e para que a cultura geral, requisito básico para qualquer tarefa que não seja esfregar o chão, seja difundida sem muito viés ideológico.
Até aqui, não há a menor necessidade de dinheiro, já que para fazer um intelectual trabalhar basta uma cerveja. O salário só é indispensável na medida em que a liberdade é possível. Se todos os produtos são iguais, não há por quê ficar perplexo entre um sabonete Dove e um Monange, cujas diferenças reais ninguém sabe. O salário, no entanto, é um meio de evitar a semelhança de desejos que, se muito intensa, gera um certo desconforto. A coisa fica clara ao considerarmos a variação das arquiteturas. Um bem espalhado por toda a sociedade deixa de ser atraente. Surge, então, a necessidade de compensar a sua falta por um algo diferente, o que só é possível se houver a liberdade subcriativa e o correspondente financiamento. O capitalismo é o preço insubstituível do gosto.
domingo, 22 de maio de 2016
Uma Pérola no Chiqueiro
Eu nunca
tinha visto Edmundo, o justo. No entanto, uma pessoa muito brincalhona contou
uma vez que ele, estando no Rio de Janeiro, começou a explicar a arquitetura
das igrejas da Praça Quinze. Edmundo era o guia de uma excursão em que só havia
adolescentes. Depois de fazer doutas distinções em alta voz olhando fixamente
para uma imagem e terminar com uma piada, ele percebeu que ninguém havia rido.
Ah, pobre justo! Aconteceu de nenhuma gargalhada soar porque nenhum ouvido
escutou. A garotada havia ficada parada contemplando, embasbacada, um carro
tunado que, todo vermelho, rebaixado e moderno, destoava no meio da tradição do
lugar.
Consolar um
justo não é tarefa para qualquer um. No entanto, é possível que ele, enquanto voava
para o passado, tivesse se esquecido que muitos outros doutos expositores das
belezas atemporais também tinham ficado sem público. Ele certamente afirmaria
que com ele é diferente porque a sua audiência era selecionada. No entanto,
ninguém era tão selecionado quanto a corte do Rio de Janeiro, que, a não muitos
passos dali, assistiu ao imperador que declarava ficar nessas terras. E alguém
duvida, porém, que, naquele momento histórico, um pedestre estivesse com a
cabeça nas nuvens, pensando em algum parente longínquo que o iria visitar ou em
algum time esplêndido que foi roubado pelo juiz?
As
lembranças, de fato, têm vida própria. Um fantasma que, desmistificado há muitos
séculos, teima em voltar é o duende. Mas seu nome mudou, e o nome é tudo. Seu
novo apelativo é agora energia, que
pode ser atraída por um prisma ou repelida pelo pessimismo que muitas vezes é a
realidade sem o eufemismo da retórica. O
imaginário moderno, assim, já não comporta um ser que, no jardim da minha tia,
aparecia com a forma de um anão. Os duendes de hoje são algo tão abstrato
quanto o ser, mas não tão fidedigno. A última moda é a Ideia.Alguém que se apresentasse como o salvador da pátria faria uma paródia sem graça. Uma declaração de boas intenções pode muito bem ser uma das daquelas cartas ridículas sem as quais a humanidade não continuaria existindo. No entanto, quando um presidenciável como José Serra aparece na televisão para tranquilizar o povo brasileiro dizendo que, a partir de agora, o princípio pelo qual se pauta a política é a Nação, há algo de errado. Esse discurso soa como uma música solene que envolve em mistério uma coisa muito simples: o governo. Traduzindo em miúdos, José Serra promete deixar-se levar pelo que os técnicos lhe digam que é mais eficaz para a economia do país, sem deixar que seus interesses partidários prejudiquem os investimentos.
O problema com o livre mercado, no entanto, é que ele é de fato uma feira pública, onde jovens incautos deixam-se levar por qualquer produto barato. Se houvesse algo de novo no país, José Serra teria mencionado em que consiste precisamente o rumo a ser tomado. A posição do novo governo sobre os temas fundamentais não foi divulgada, porque ainda esperam por um consenso que nunca existirá. Eu gostaria de estar errado, mas é isso mesmo. No entanto, Edmundo, o justo, insiste em que o ministro merece um voto de confiança, porque, na sua fala, brilha como uma pérola escondida a palavra valor. E que a galera, quando ouve isso, não pensa só no preço de um automóvel.
domingo, 10 de abril de 2016
O Chá de Napoleão Democrata
Há muito papo-furado quando o assunto é o exército. Não há dúvida de que a força, por si só, não é um argumento, mas a estratégia militar se desenvolve nesse nível. Um dos pontos básicos dessa coisa é o de que, quando o soldado inimigo é capturado, não há mais nada a fazer. Napoleão, se não tivesse bem delimitado o que era a guerra, poderia ter destruído todos os camponeses. No entanto, se ele não o fez, é porque entendia que há uma diferença entre o ódio teórico, que é recomendável, e o prático, que convém sempre adiar. Não se deve tocar nem nas crianças nem nas mulheres a não ser para protegê-las. Quando invadidos, os russos, por sua vez, colocaram em prática a opinião metafísica de que a entrega é melhor maneira de se vencer. Se o intelectual põe fogo em tudo o que na sua vida é incompatível com o bem, não há dúvida de que, cedo ou tarde, a vitória será sua. O feminismo é um campo onde essa tática é particularmente eficaz, o que fica claro na história do chá.
Antes do século XVI, o chá era desconhecido na Inglaterra. Ele era cultivado na China, onde os homens o provaram e acharam que era leve o suficiente para ser uma bebida nobre. De fato, assim como o fumo, ele é algo que pode ser consumido antes e depois de qualquer refeição sem prejudicar o apetite, o que é conveniente para aqueles cujo ofício é gerenciar o trabalho alheio em reuniões longas. Aqueles que, mais embaixo na pirâmide, passavam a vida ao ar livre não se dignavam a distrair-se com beberagens de pouco valor nutritivo. Uma das primeiras cortes europeias que recebeu o produto oriental foi Portugal, onde, porém, ele foi somente uma moda passageira.
Alguns dizem que alguma resistência foi oposta. Antes mesmo de ser provado, ele chocaria as sensibilidades no seu novo ambiente, por conta de uma associação imaginativa ao ópio, um produto alucinógeno. No entanto, o boato de que ele prejudicaria a consciência só poderia ser aceito por aqueles que nunca ficaram levemente embriagados. Qualquer um que já sentiu a alegria do vinho sabe que é perfeitamente possível identificar uma alteração das percepções. Se, portanto, ao factoide da lombra do chá fosse acrescentado o juízo de que ninguém poderia saber se sonhava ou estava acordado, prová-lo seria uma temeridade. No entanto, não consta que o pessoal fosse ao mesmo tempo tão inimigo do álcool e tão crente no platonismo de quinta categoria segundo o qual o mundo é representação total. Talvez fosse assim, mas seria preciso averiguar com mais cuidado antes de se divulgar uma opinião tão problemática. Platão ensinava que o mundo inteiro é uma representação somente enquanto dormimos.
O mais provável é que a demora para que o costume pegasse se devesse à novidade. No entanto, como foi adotado pela dieta dos grandes, o exemplo fez com que o chá se espalhasse. Catarina II de Portugal havia se casado com Carlos II da Inglaterra e levara consigo o hábito de bebericar o líquido para os palácios frequentados por seu marido. Uma questão interessante é por que a acolhida no país de Nelson foi maior do que na terra de Cabral. Talvez tenha sido que, no segundo, não havia uma bebida que fosse tão típica quanto o vinho no primeiro. Na Inglaterra, o chá preencheu um vácuo gastronômico que não existia em outras regiões.
No século XVIII, várias famílias bretãs alcançavam um melhor nível de vida com casas onde se vendia o requisito essencial para o chá das cinco. Entre os homens, porém, o costume de se reunir ao redor de um bule não era tão forte quanto entre as mulheres. De fato, quem já tinha a cerveja não precisava do néctar do oriente. As senhoritas, por outro lado, além do gosto, tinham uma razão ideológica para se reunir. As sufragistas, buscando que o direito de voto também se estendesse às saias, maquinavam as suas ações afirmativas entre um gole e outro. O chá era um símbolo da emancipação feminina. No entanto, ele não se resumia a isso, mas também era a ocasião de descanso em meio ao trabalho. No século XIX, de fato, reza a lenda que os empregadores da Inglaterra eram obrigados a conceder a todos os seus subordinados uma pausa diária para a conversa em meio aos aromas que um dia haviam sido estranhos e agora perfumavam os escritórios e as fábricas.
Nesses intervalos e em outros, é muito possível que questão da finalidade do estado tenha surgido. Este ente imaginário, no entanto, não tem função alguma, mas serve somente para esconder quem detém o poder. O trabalho sujo de se meter nesses assuntos partidários tinha sempre cabido ao homem. No entanto, se as mulheres queriam dividir com eles ambos os fardos, não havia problema teórico algum. E mais: se, com esses novos deveres femininos, o cuidado da casa não ficava tão bem atendido quanto antes, o governo ganhava uma voz doce sobre um problema que a própria entrada das mulheres na vida pública havia criado: a educação dos filhos teria que ser terceirizada a particulares ou ao creches públicas. A hierarquia, no entanto, é ao contrário.
Vamos supor que exista uma república do chá. A aristocracia dessa cidade hipotética cuida para que não haja nenhum praga ou invasão inimiga que destrua as plantações e tenta melhorar a qualidade dos grãos. Abaixo deles estão os donos das terras onde o principal produto econômico é produzido. Eles, no entanto, não são em número suficiente para arar a terra, plantar as sementes e colhê-las. É imprescindível, então, que haja também empregados que façam esse e outros trabalhos. Todas essas funções são específicas e desempenhadas por homens. No entanto, nada impede que as mulheres sejam fortes o bastante. O que, porém, a modernidade fluida decreta do alto de suas cátedras é que não existe especialização dos papéis sociais, o que acabaria com qualquer feminismo.
Como se não bastasse esse despropósito, a ideologia do gênero elimina a única coisa concreta digna do apreço geral: o bom senso aprendido através da mãe. Está aberta a porta para a tecnocracia, onde, embora se produzam muitas bebidas aguadas, ninguém mais trama revolução alguma contra os crimes legalizados. Seria, de fato, uma experiência interessante - e não só para o Sr. Fachin do STF– se cada município tivesse a liberdade para ser radical a favor da vida e da família. Isso, na longa fila das infinitas e justas reclamações femininas, é anterior ao direito ao voto. O estado é o lugar onde Napoleão se sente em casa, mas a mulher dele, com certeza, teria preferido passar a vida toda em Santa Helena.
sábado, 2 de abril de 2016
Falácia da Parabólica
O presidente da república tem foro privilegiado no STF se o crime for comum e no Senado se for de responsabilidade. Em 1992, houve uma tentativa frustrada de submeter os altos dignatários acusados de homicídios e roubos também ao Senado Federal. Dentre os sempre diversos pareceres sobre tema, no entanto, a opinião mais douta era a de que os delitos eventualmente cometidos pelo chefe do poder executivo continuavam sendo de duas naturezas: comum ou de responsabilidade. O chefe da nação também tem vida privada. E é assim até hoje. Matar, portanto, não explicaria juridicamente o impedimento. A diferença entre os dois tipos está no elemento político. Tirar a vida de alguém é um crime comum, que não necessariamente interessa ao rumo geral da nação, e não deve assim também ser julgado pelo poder de Sarney e companhia.
Que o juízo de admissibilidade dependa do legislativo mostra que a política deliberativa é superior à técnica dos advogados, e que, portanto, Aristóteles estava correto. A instauração de qualquer processo requer, de fato, dois terços da câmara dos deputados. No entanto, como não há diferença entre os dois tipos de processos, por crime comum ou por crime de responsabilidade, a bipartição das naturezas fica comprometida. Essa diferença legal, no entanto, também se submete a uma razão política. Se o presidente da república tivesse cometido um crime jurídico em nome do bem comum, não haveria como condená-lo. Com efeito, Maquiavel, que não era bobo, dizia que, se a república está em jogo, os fins justificam os meios. No entanto, nem sempre é assim.
Há bens que tem razão de fim. Toda a sociedade está ordenada a produção de riquezas. Não há dúvida de que, economicamente, é melhor o consumo do que a estagnação. No entanto, há várias coisas que não tem preço, a primeira das quais, numa democracia, é a honra do povo. Estar submetido a um chefe de governo disposto a negociar o Brasil em troca de mais parabólicas é inadmissível.
domingo, 27 de março de 2016
A Soberania Impossível do Alface e de Outras Irrelevâncias
Trazer à baila a repetição de um argumento ao longo de toda a
história mostra que vários tiveram uma mesma convicção inabalável. Ao contrário
do que julga o Evolucionista Ideal, não se trata de um preconceito psicológico
comum, mas sim de um juízo indispensável à natureza da cidade. Por outro
lado, há opiniões inovadoras como a de que o acaso é a força que provê a
matéria da seleção. O elemento comum entre o boato corriqueiro e a descoberta
científica não é outra coisa que o mistério das incertezas. Porém, desde que a
matemática tomou o lugar das humanidades, nenhuma segurança é possível fora da
economia, o que destrói o orçamento do Ministério da Educação. De fato, não há
dúvida de que investir na infraestrutura necessária às indústrias é algo mais
promissor do que atribuir recursos à busca desinteressada pela verdade.
Uma certeza, no entanto, é sempre incompatível com as demais. O
boxe, a propósito, é fundado nesse princípio. E, ao mesmo tempo, é uma
demonstração de que ele é a glória da regra. Há várias maneiras espetaculares
de derrubar o adversário. Dar-lhe, no entanto, uma cotovelada enquanto ele está
caído no chão seria um crime. Uma sociedade, todavia, em que o progresso
científico é a única verdade não permite nenhum esporte saudável. Qualquer objeção baseada na filosofia aristotélica é vista
como algo retrógrado, que, ao invés de levar adiante, empurra para trás. O
acúmulo de dados físicos é o primeiro passo para a burrice, ainda que elas
sejam atestadas por Pasteur e outros nomes não tão respeitáveis. O segundo é
delegar o pensamento ao consenso. O terceiro é querer refutar Descartes no seu
extremamente ordenado campo de batalha.
Depois desse Filósofo, o progresso nada mais é do que um acúmulo
de contas concretas, o que não traz consigo necessariamente o lapidar
imprescindível da imaginação. O homem ou é um ser deslocado no mundo como um extraterrestre
ou é um imperador cuja púrpura foi surrupiada. As duas concepções são bem parecidas,
com a diferença de que, na segunda, há um delito primordial. A teoria da
antropogênese do efeito estufa é compatível com ambas as hipóteses. O seu silêncio quanto ao furto, no entanto, embora falso,
é uma cotovelada indevida, porque coloca o João da Esquina na posição de réu
por um delito que ele não cometeu. Sempre é possível dizer que o Evolucionista
Ideal não é o culpado pelo aquecimento global, embora o seja pela morte de uma
multidão de vegetais indefesos. Isso, porém, seria pressupor uma consciência
que, cientificamente, tem tanta entidade quanto a estratégia bélica de
Chamberlain.
A felicidade do vegetarianismo depende da metafísica rigorosa
segundo a qual a responsabilização é exclusivamente individual. O fato óbvio,
porém, é que, se é impossível fazer um omelete sem quebrar um ovo, quanto menos
um banquete. É impraticável adaptar-se sem dominar o meio, e isso faz com que
seja imprescindível carregar pedras, esforço para o qual o alface não provê a
quantidade indispensável de calorias. Sem dúvida, o avião que passa como um
pombo da paz sobre milhões de cabeças indefesas teria sido inventado mesmo se
as sinapses de Santos Dumont fossem estimuladas somente por alfafa. O que, porém, ele comia ou deixava de comer não é importante, porque são atos particulares.
Isso é um desvio político que qualquer cidadão tem o dever de
denunciar. Se os
discursos parlamentares visam mais às leis sobre questiúnculas do que à soberania, o país está
fadado ao fracasso. Há, no entanto, algo que é ainda mais urgente do que a
autonomia. Se alcançasse o palanque um grupo que, por falta de uma palavreado
decente, apelasse para as baixarias do baixo ventre, os amigos de Fernando Haddad
teriam a reputação ilibada da toga. Como isso não convence ninguém, o próximo
meio é usar a violência, expediente em que os senhores do baixo clero não
insistem mais porque o alto clero ainda têm paciência o suficiente para
dedicar-lhes a imprescindível conversa fiada. O liberalismo
desenfreado, de fato, é a causa do terror. E se, por acaso, alguém ainda achar que
tratar de procriação é um privilégio inexistente dos fiscais de alcova, aí vai
mais uma razão gráfica.
domingo, 20 de março de 2016
O Milagre do Trem
O Professor Gerardo Furtado tem duas opiniões acerca desse costume imemorial que é a conversa fiada. A primeira é que ela apenas manifesta o quão precário sempre foi o raciocínio humano. A segunda é que, como um bate-papo não admite argumentos de autoridade, o seu aumento à medida que o tempo passa levaria a uma maior confusão, que por sua vez traria consigo o emburrecimento de trocar o fato pelo achismo, e esse efeito se acumularia de geração em geração. É um ponto de vista um pouco estrábico. No entanto, valendo-se do poder do criador sobre as criaturas, ele interpreta as suas palavras e se adianta a dizer que seus dois olhos visam mesmo a um só foco. Assim, cabe a nós entender a unidade do oráculo gerardiano e desvendar o mistério de como a conversa fiada não deixa e talvez deixe a galera mais estúpida.
Para Otto Lara Resende, um infatigável praticante do esporte na modalidade epistolar, jogar conversa fora era uma forma de literatura. De fato, um de seus destinatários atestava: “os amigos que tiveram o privilégio de receber as suas cartas julgam que o melhor do Otto estava na incontinência do espírito do missivista tanto quanto no fulgor da palavra e na comunicação direta desse que foi quem melhor soube conversar no país e no seu tempo.” Não que se propusesse isso como um fim imediato, mas a coisa se desenvolvia de tal modo que, para dizer o que queria, ele utilizava recursos que a musa só franqueia aos valentes que, assim, são alçados quase a contragosto ao estado da arte.
O ponto decisivo, assim, é saber se a literatura - isto é, a experiência transformada em ficção - não contribui para o descobrimento de verdades tão verdadeiras quanto aquelas que o Prof. Gerardo descobre no seu Pasteur e quejandos. A evolução, embora doutos julguem ser uma dessas iluminações, é um disparate mais inverificável que todas as estórias de fantasmas juntas e, portanto, não pode ser a pedra-de-toque da questão. Da mesma maneira, a infinitude do universo é uma elucubração tão gigantesca que tampouco serve. Resta-nos ficar com algo que ninguém duvida ser muito científico e averiguar se ele tem alguma relação com a literatura: o método.
Essa mania acadêmica, sem a qual qualquer cientista passaria muito má impressão, nada mais é do que uma tentativa ordenada de verificar uma hipótese. Dessa maneira, se alguém dentre os antigos tivesse a ousadia de não fazer nada e conjecturar que a terra é esférica, ele poderia sair por aí divulgando a sua informação e exigindo que as pessoas acreditassem na sua autoridade. Alguém, porém, sempre pode duvidar. Então, ele poderia mostrar, na lua, o corte arredondado. Se o que produzia a imagem era o nosso planeta, não haveria incertezas de que a razão estava com ele. O método ou caminho que o levou a tese poderia ser replicado por qualquer um, o que daria foros de consenso à sua opinião. Tudo isso, todavia, depende da suspicácia, uma faculdade que Otto, como bom mineiro, trazia do berço.
Ciência, com efeito, é uma certa observação ativa do real. E para que dê algum resultado é necessário que se proponha a responder a uma pergunta bem delimitada. Isso, porém, não é possível se o que predomina é a ingenuidade de achar que tudo é assim ou assado porque é o que parece. Suspeitar, no entanto, que as aparências enganam é um expediente da imaginação. Otto, por exemplo, estando hospedado numa pensão belga, desconfiou que o líquido vendido dentro de uma garrafa de água mineral potável fosse, na verdade, tirada de um bica improvisada que, por um momento, só existiu na sua cabeça. Ele, então, marcou o frasco para verificar se, da próxima vez, seria o mesmo. Assim a pulga atrás da orelha seria confirmada, e surgiria a segurança de que o dono do estabelecimento ganharia dinheiro à força de passar a perna nos clientes. Se isso não é, exatamente, o que um biólogo faz em seu laboratório, há uma semelhança inegável. Ambos, munidos de um palpite, tem que arrumar um meio de constatar a sua procedência.
Existe, todavia, algo que é superior à ciência, embora não tenha o atributo divino da verificação laboratorial. Quando, num acidente ferroviário que aconteceu próximo de Barra do Piraí, vários passageiros morreram, mas Otto sobreviveu, ele não diz expressamente que isso foi por milagre. Os mineiros, por um excesso de prudência campesina, desconfiam que o acaso também possa existir. No entanto, ele deixa consignado que invocou a Virgem Maria. Que a vida humana não dependa de Deus, mas só da precariedade de invenções como esses e outros sistemas de transporte é algo tão exageradamente trágico que qualquer um afirmaria ser essa hipótese tão real quanto um sonho ruim. No entanto, alguns adoradores cegos da Nature imaginam isso e acham estar com a verdade só porque não estudaram filosofia o suficiente para discernir onde começa e termina a autoridade dos colegas do Professor Gerardo. Ela começa e termina no trem descarrilhado, e é tão certa e segura quanto uma caveira.
terça-feira, 15 de março de 2016
A Beleza do Faustão
A festa da democracia ainda nem começou, mas os preparativos são promissores. O ex-presidente Lula disse que só saía de sua casa algemado, como qualquer outro meliante. Como, porém, esse tipo de passeio não orna a reputação de ninguém, alguns poucos petistas foram às ruas para demonstrar a sua adesão inquebrantável ao anjo caído. E, numa de suas investidas, invadiram uma propriedade da família Marinho que está no nome de um estrangeiro. Eles teriam, mais uma vez, desmascarado a Rede Globo. Não haveria diferença entre conglomerado televisivo e aquele que, como economista, é um bom metalúrgico. Isso, obviamente, é papo-furado. A empresa carioca, no entanto, tampouco é uma vítima inocente.
Ela mesmo admite já ter feito das suas ao apoiar o regime militar. No entanto, o delito cometido pela Rede Globo não é o ter defenestrado os marxistas e afins, mas sim o mesmo em que incidem, quotidianamente, milhares de brasileiros. Um membro dessa preciosa raça acontece de tossir ao ar livre, no meio da rua, num dia em que o vento é impetuoso. Ninguém o recrimina de nada, mas, se alguém ameaça fazer cara feia, ele pede desculpas. Quando, porém, essas delicadezas passam a ser demasiado oficiosas, algo maior não vai bem. Se a Rede Globo sente muito por ter apoiado a revolução de 1964, o melhor seria esclarecer que, naquela conjuntura, não podia fazer mais. Não é uma bela ação, mas seria pior ainda a omissão. A grande confusão seria achar que, por alguém ter pedido desculpas por algo inocente, ele deveria estar arrependido do ato em si. Pedir desculpas por tossir, porém, não chega a ser um delito, mas somente uma má-compreensão da etiqueta. O crime da família Marinho é o que está por detrás dessa aparente questão menor.
Assim como acontece com a casa invadida, parte do apartamento usado por Lula tem como proprietário um terceiro. Isso, por si só, significa uma simulação, que, no entanto, é inócua tanto quando realizada pelo líder petista como quando feita pelos barões de Jacarepaguá. Porém, ao contrário do que acontece na esfera privada, a simulação governista é um indício de que o dinheiro para comprar as propriedades vieram de algum meio que seria politicamente incorreto admitir. É bastante diferente do que acontece com a TV Globo. Os petistas gostariam de passar uma imagem de honestidade, e a empresa midiática, há já alguns anos, esforça-se para ser conhecida pela sua sem-vergonhice. Há algo mais indecoroso do que vender a intimidade de uns coitados cujo único talento é a mediocridade de não ter nada para oferecer ao público além da indecência? O ato nefando da TV Globo é este: ela inverteu o pudor. É vergonhoso lucrar com a privacidade alheia, mas ninguém em sã consciência se envergonharia de possibilitar a festa que a ditadura do proletariado teria impedido.
Assinar:
Postagens
(
Atom
)






