sábado, 21 de janeiro de 2017

O Círculo e o Segmento de Reta




"Talvez seja interessante. Mas eu percebo no seu blogue um certo ranço meio antiquado." 
Um grande idealista dos meios de comunicação e leitor crítico de A Tuba.

Às vezes, as simplificações são inevitáveis. Uma maneira de ver o mundo é o eterno retorno. Em poucas palavras, essa teoria afirma que não só a primavera do ano anterior vai se repetir no próximo, como também várias outras coisas. Um esquema para explicar a história, portanto, seria a roda que, ao girar, sempre volta ao mesmo lugar. Essa é a teoria do círculo. A outra maneira de ver o mundo, nós talvez poderíamos chamá-la de progressismo iluminista. Essa cosmovisão afirma que o esquema para explicar a passagem do tempo é o segmento de reta. No entanto, o desenho só está completo se colocamos vários traços perpendiculares indicando as descontinuidades. Para o adepto desse segundo tipo de pensamento, as diferenças entre as eras seriam tais que não haveria possibilidade de a mais atual aprender com a mais antiga. A tradição radical, portanto, seria algo impossível, e o que há antes do começo da linha - a criação - seria inacessível.

Nós não precisamos ter vergonha de aderir ao círculo. Como reconhecia Marcuse, é impossível não levar as próprias convicções para o trabalho científico. Marx talvez diria o mesmo, mas acrescentaria sem dúvida um erro grosseiro: aquele segundo o qual essas ideias pessoais seriam determinadas pela pertença a uma classe econômica. O cidadão básico, porém, é o indivíduo e o que ele pensou e decidiu sobre o bem comum. Umberto Eco sabia disso e muitos outros também, embora nem todos falem em voz alta. A acusação de possuir uma consciência ideológica é sempre uma boa desculpa para tirar só os indesejados do caminho. Embora a verdade não seja essa, o discurso precisa ser contrário a ideologia porque esse é o disfarce perfeito. Ninguém ousa prender o policial.

O pequeno problema aqui, porém, não é ter uma ideologia, mas sim tê-la a meias. Hitler, por exemplo, não só não era um comunista radical, como tampouco era conservador o suficiente. Hitler era um cara normal e se orgulhava disso, o que é imperdoável. Uma boa maneira de aprender a ser conservador é ser conversador dentro de um ambiente onde reina o bom senso. Numa bate-papo entre aqueles que são gênios demais, é possível contestar o óbvio. Porém, num café da manhã tomado bem cedo, numa dessas famílias felizmente insatisfeitas com a própria situação, ninguém duvida que quem não paga o aluguel em dia fica devendo também os juros. Ao atrasado em questão a sociedade castiga e não se arrepende. Sem isso, de fato, tudo correria o risco de virar um caos.

Mas um conservador sabe que a primeira característica das falhas é serem inevitáveis. Há sempre algum nível de caos com o qual é necessário lidar. Sendo a política, por exemplo, a arte de tornar justo que uns se sintam bem a custa dos outros, o máximo que ela conseguiria é que todos se revezem e suportem a mesma quantidade de trabalho. Essa igualdade, no entanto, não é sempre possível, porque alguns são mais aptos. Dentro desses limites, são necessárias a previdência para os mais idosos e as creches para os mais novos. O mesmo acontece no âmbito do mercado. Se um empregado não produz o suficiente numa dada função, talvez o melhor para todos fosse reaplicar o teste vocacional, colocá-lo no lugar adequado e esperar que ele adquirisse a experiência que consuma o talento. No entanto, esse procedimento lento seria compactuar com a incompetência, o que um chefe jamais pode fazer. A empresa não é lugar para filantropia, e o empregado sem resultado tem que ser mandado embora o quanto antes.   

Um mínimo de velocidade é imprescindível. O mau desempenho retarda não só um, mas todos os trabalhos. Como o tempo não perdoa nunca, os outros também têm contas que vão necessariamente vencer. Assim, o ranço que inspira a Tuba - essa ideologia dita rígida, retrógrada e individualista - é o único capaz de manter o ritmo da história. Se, porém, alguém disser que o melhor é uma espécie de utopia coletiva onde a medicina já não será imprescindível, onde os advogados já não serão úteis, porque não haveria necessidade de curas nem de defesas, onde, enfim, o mal já não existiria, e a verdade brilharia sem a luz da retórica, a única resposta é essa: essa futurologia é um passado chamado de idade de ouro. Nela, os poetas cogitavam que não existiria sequer guerra. E é para esse paraíso que também os progressistas felizes se deixam levar pela mão.


sábado, 7 de janeiro de 2017

Sobrevivendo em Meio às Exigências Necessárias

"A arte da invisibilidade precisa ser aprendida antes da arte da visibilidade. A maioria das pessoas compreende essa lição do jeito mais difícil." Jim Grote e John McGeeney, empresários e autores de Espertos como Serpentes - Manual de Sobrevivência no Mercado de Trabalho.



Não devemos ter raiva de nossas cozinheiras. As coitadas, se são competentes, têm mesmo que parecer muito sérias e exigentes. Elas não admitem que mesmo o melhor dos meninos, aquele que sempre faz bem o dever de casa, seja premiado antes do almoço com uma uva. Sem dúvida, essa afirmação parece tirada do nada. No entanto, ela tem base na teoria do bode expiatório. O seu âmbito é uma crise em que há um bem que não pode ser compartilhado.  O primeiro ponto é que as crianças, ainda que não o saibam, têm um desejo mimético. Dito de outra maneira, se um primeiro prova o fruto da videira, todos os demais vão sentir fome, ainda que não façam jus à recompensa. Não há, como sabemos, uma proporção entre o gosto pela iguaria e a quantidade na bandeja. Como o desejo não deixa de ser sentido como necessário por ser mimético, eles tomariam como uma injustiça o não receberem o suficiente do aperitivo. O desfecho já é um tanto arbitrário. Pode acontecer, então, que as crianças briguem entre si, ou que uma boa cozinheira seja o alvo da indignação pueril. De qualquer maneira, há a possibilidade de uma tragédia quotidiana que, embora fosse um fato, não seria tão verdadeira quanto a melhor ficção.

Além disso, o desejo aumenta se foi proibido. Isso faz com que a espera pela comida a torne mais apetitosa. Assim como essas boas senhoras, as instituições, para sobreviver num mercado competitivo, tem que fazer as suas vítimas. Esse fator, por sua vez, promove que ela seja vista como um modelo da melhor das excelências: a inacessível. É difícil encontrar uma propaganda mais eficaz para conseguir empregados saudáveis e bem dispostos. Portanto, ainda que todas reuniões metafísicas deixassem de falar do sacrifício, ele por isso mesmo estaria mais presente. Para que talvez algum leitor finalmente ache que não é inútil vir até aqui, vão aí algumas dicas sobre como não ser um dos que têm a triste razão de reclamar.

As empresas em geral rejeitam quem tenha um problema teórico com a autoridade. Se você brigou com seu chefe anterior e ainda acha que estava certo, isso não interessa. Se, na prática, você não dá resultado, não adianta se justificar. O melhor é assumir a culpa com uma sugestão objetiva de melhora. Desabafe com um amigo, mas não com um mero colega nem na entrevista do próximo emprego. Aí o jeito é ser sincero e não se desesperar. As boas empresas tampouco admitem quem é muito competente na área técnica, sabe disso e acha, portanto, que estaria apto a um cargo de gerência de pessoas. Em regra, não está, e a exceção muito notória também tende a ser expulsa. O reconhecimento não é uma questão só de mérito.

As bancas de advocacia não aceitam os escrupulosos não positivistas. Se um rapaz é estudioso, mas acredita num direito natural que não é tomista, ele quiçá considere que o divórcio não é defensável nem para os ateus. No entanto, quem não é defensável talvez seja ele. O caminho é desistir de argumentar para o juiz que segue a jurisprudência da maioria, virar padre se houver vocação ou ir atuar junto a Cúria, onde estão os que entendem os pressupostos do assunto.

As universidades são um problema mais delicado. Antes de mais nada, vamos distinguir as humanidades do resto, que eu não conheço nem de ouvir falar. Naquelas, se há uma metodologia própria do departamento, não adianta ter como referência um intelectual favorito se ele for ignorado.
Não importa, a rigor, se as suas ideias não foram logicamente refutadas. Ademais, não convém no começo fazer uma pesquisa com mistura de vários assuntos. Isso, em alguns círculos fechados, não é sequer concebível. A interdisciplinariedade é o topo da pirâmide, o que significa que pode até ser feita, mas seus praticantes tem que ser em número muito reduzido. A cruz da consciência, porém, está na ideologia, sem a qual é impossível viver. Não ter vergonha de alardeá-la, por mais fundada no senso comum que seja, é abrir o flanco para uma acusação de instrumentalizar o que para alguns é o sindicato mais imprescindível. Ou o estudante abre mão de suas convicções pessoais, ou abrirão mão dele, por mais genial que seja. Dar a vida pelas palavras certas, no entanto, ainda é dar um exemplo de honestidade. René Girard agiu assim, teve que responder com diretas a indiretas e depois entrou numa glória que não é só do outro mundo.

A Academia de Letras não acolhe quem não tenha feito do seu meio de vida a escrita e não seja o Sarney ou o Ivo Pitanguy. Parece improvável começar um profissional liberal e, quando chegar a aposentadoria, ainda ter o tempo para se tornar um mestre do estilo. Desde algum tempo no Brasil, cultura de fato é uma profissão. No entanto, também nessas plagas sucesso ainda é uma soma de talento e sorte. Ao mesmo tempo, não adianta só ler e imitar o que há de mais belo sem ter uma visão própria a levar ao grande diálogo. Só macaqueação não é arte ou, como diria um amigo meu, a musa não tá só na praia. Ela habita também o escritório.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Uma Barroquice



Na segunda-feira, um de nossos fantásticos colaboradores não apareceu na redação. Feitas algumas ligações, que no momento foram tidas como urgentes, foi descoberto o seu paradeiro. No domingo, ele tinha cantado uma serenata em frente a casa de uma mulher negra, pela qual havia se apaixonado num samba de periferia. Na manhã seguinte, teve que ficar na cama. Ela, porém, estava resolvida a não abandonar a sua solidão por nada desse mundo.  Desencantado mas tranquilo, ele então lamentou a dor dela da seguinte maneira.

A rainha de Sabá hoje mora
acompanhada só de seus felinos,
lá bem longe, onde esse sino que dobra
já perdeu o que tinha de sombrio.

Como a alba, que pouco se demora
e cede passo logo à luz de estio,
o que há de belo nela desmorona,
em flagrante contraste com o Rio.

A cidade, intacta, permanece,
enquanto ela dentro se desloca
- como a rosa que vive e fenece-
Entre a vida e a morte que não choca.

O calor de tudo sempre arrefece:
da rainha, da flor ou da aurora.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um Pedaço da Memória de G. K. Chesterton








O desejo mimético mostra que ao tentar destruir o outro, o que queremos é impedir que ele conquiste o bem cuja beleza nos encantou. Não se trataria, portanto, de uma má ação, mas sim de um meio imprescindível para a eficácia. Há, porém, uma maneira de falar mal que é como música. E uma dessas canções oníricas, que termina bem depois de um início estranho, é a que canta Chesterton quando diz que os americanos são antiquados. Empunhando a espada da ironia, ele assim corta os seus leitores em dois: só aqueles que entendem que o próprio Chesterton defende causas tão veneráveis quanto o começo do mundo riem. Ser antigo é absolutamente necessário. É uma delícia olhar para trás e rememorar a época em que a atenção da mídia estava voltada para um só ponto. E aí estava justamente o próprio Chesterton, o que mostra não ter ele cedido à falsa humildade de não falar de si mesmo em público. Ao contrário do que alguns acham, Chesterton é tão extrovertido quanto Mr. Micawber.
 
Mas esse passado, como a origem girardiana, é violento. Nele o autor do relato se lembra de um empregado de um jornal americano cujo estilo era diferente do seu. Segundo Chesterton - o duplo que é ao mesmo tempo narrador - a América é a terra da propaganda, e isso influenciaria a redação dos periódicos. Alguns acham que isso deveria ter sido dito literalmente, mas a letra não importa. Sem nenhuma dúvida, ele identifica os americanos com os chineses, uma vítima antiga do Império Britânico. Surge, porém, uma saída para a crise mimética. Chesterton admira Nathaniel Hawthorne pela sua técnica e Walt Whitman pela sua força e sinceridade. Eles, porém, não são conhecidos pelo jornalista cogitado, cujo modelo é antes algum autor famoso de comerciais televisivos. Se a mediação externa não é comum, os duplos se aproximam... e o combate começa.

Contra as ideias contidas nos jornais, Chesterton afirma que o homem é livre e que toda a futurologia é uma inversão da prudência e uma selvageria. Isso é evidente, mas alguns se preocupam com a previsão do PIB, cuja cientificidade é atestada pela precisão numérica. Eu também me preocupo com isso, já que menos dinheiro pode significar menos lazer e menos cultura. E a precisão matemática, que é o prêmio da disputa, cresce até ocupar todo o campo da visão. A ciência não é infalível, mas algumas vezes ela posa como se fosse. E, para conseguir uma aparência de credibilidade, ela se adorna com o atributo da quantidade exata. Não importa qual é a diferença específica de um átomo de carbono, uma questão sobre a qual é impossível falar por mais de um minuto. O que importa é quantos elétrons ele pode ter, e isso qualquer pessoa prática entende. Essa precisão, no entanto, pode ser desviada para fins sinuosos, como quando se tira uma estatística da manga para provar que o número de ateus tem crescido. Isso, obviamente, não leva em conta a tendência indígena ao drama e a portuguesa ao fado. Que Deus tenha morrido é algo triste e belo, e confere uma aura de Fernando Henrique Cardoso a Jair Bolsonaro.

Toda essa batalha, no entanto, pode ser vazia e terminar numa festa. De fato, Chesterton não tem certeza sobre a verdade do relato do jornalista. O objeto da discórdia, porém, existe. Ele percebe e o diz com toda a clareza: não há identidade entre o que ele sabe que a ciência é desde há muito tempo e o que vai impresso com as letras do prestígio desde outro dia, quando Gutenberg inventou a imprensa. No entanto, é essa imagem falsa que se espalha, e a democracia pode ser enganada. Chesterton termina com elegância e faz com que o clima volte à tranquilidade. Ele já tinha feito algo parecido ao forjar um adversário hipotético como quem não deseja entrar em conflito com nada que seja mais que um pesadelo. Agora, o seu toque de mestre é se identificar com a sua vítima de tal maneira que ele se torna o seu modelo através da maioridade do desejo. Ele também prevê um futuro - não só, porém,  como quem faz ciência, mas sim com toda a intensidade de quem enuncia uma profecia terrível. Todavia, por trás da seriedade de uma maldição, lateja sempre um afeto.

"Eu acredito que a terra gira em torno do sol; mas eu não mais acreditarei se Thomas Edison afirmar que aço e concreto girarão em torno da terra. Se você nega o que os homens sabem à luz do que eles não sabem, eles simplesmente resistirão à ciência de uma vez por todas; e a grande obra do século XIX será perdida por séculos."

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

As Duas Democracias



Os matemáticos são pessoas tão focadas que perdem a capacidade de ir de um conceito para o vizinho. Nas ciências humanas, porém, dançar entre a etimologia e o significado é uma habilidade sempre a ser conquistada. O termo democracia, por si só, não diz mais que o governo da maioria. A maior parte do movimento democrático atual, porém, sonha como uma espécie de técnica social que substituiria o significado de poder do povo pela garantia de que os grupos diversos não se aniquilem uns aos outros, mas acabem com qualquer maioria.

De fato, ninguém apela para o critério quantitativo, que ganha vida nas assembleias dos cidadãos, onde a posição que contava com mais votos, fosse ela qual fosse, seria a aceita. E o Olavo de Carvalho também não o faz porque ele não é bobo. E também, imagino, porque a verdade é que há muitas razões para abandonar a ditadura da superioridade numérica. Talvez as melhores são para que as diferenças, que não são más em si mesmas, sejam respeitadas e para que a sociedade seja preservada como um espaço de convivência que não se reduza à mera concordância. Alguém precisa escrever ou me indicar um estudo liberal sobre esses fatores. Uma opinião, no entanto, é impossível. Se a conclusão mostrar que de fato a maioria é uma opção superior à tecnocracia, quase ninguém das humanidades o levará a sério.  E a razão da turminha eu já dou aqui, porque é tão fácil quanto qualquer tautologia: um governo não científico, gente, não é científico.

domingo, 2 de outubro de 2016

O Enigma dos Anões




“Os talentos desse ‘caleidoscópio da vida’ 
devem se adaptar à evolução do mercado e do mundo.”
Biólogo Evolucionista
(Disfarçado de Administrador de Empresas)

Onde o talento é um anão,
A autoestima é um gigante.
Seu Lunga
(depois de aprender na FFLCH como dar indiretas)


Na prática, a comunidade nem sempre deixa o trabalho intelectual ser possível. Mas o principal defeito do pragmatismo é, diante da primeira aporia, jogar a toalha, como se toda a história da ciência fosse uma sucessão de contradições, e a única solução fosse descobrir o consenso da galera. Uma ideia sempre tem algo a ensinar, ainda que não seja uma explicação perfeita. A discriminação, por exemplo, que teria sido refutada pelos estoicos, ainda contém uma lição indiscutível. É, portanto, inaceitável a afirmação de que a situação da Colômbia é complexa demais para ser entendida. Alguns bandidos querem o direito de ser cidadãos e, no entanto, eles merecem no máximo a tolerância de não serem presos. Se a maioria da população quiser sacrificar a sua tranquilidade em troca de inclusão, trata-se de um ato heroico de liberalidade, próprio de um rei.

E qualquer um que teve um pai sabe quem é o rei da floresta.  Há, no entanto, várias maneiras de entender o significado disso. É possível, a partir daí, afirmar que o leão tem o domínio sobre os demais animais de dois modos. Ou - o que seria falso - ele impera pelo medo, ou, como aconteceu com as formiguinhas lá de casa, ele tem o reconhecimento dos demais. Da mesma maneira, quando alguém, adulterando a séria tradição das fábulas, diz que não é a juba o ápice a criação, há também algo vago que precisa ser definido. Se não é ele, é a turba. Ninguém, no entanto, sabe quem ela é, e o máximo que eu posso fazer aqui é identificá-la como a tal da opinião pública.

No entanto, nem todos são como Thomas Bastos e buscam convencer com as palavras. Há outros que, como Marcola, ameaçam arrasar com as armas. A hierarquia é clara entre esses dois modos de ir pela vida, já que a violência é inferior mesmo à mais baixa das retóricas. De qualquer maneira, entre essas duas maneiras de ser há algo em comum. Ambos, de certo modo, tentam fazer com que a interesse de um certo grupo prevaleça. Existe, no entanto, um âmbito que é mais conturbado do que o do causídico e o do seu cliente: o da medicina. Aí pode haver uma conflito interessante entre o doce paciente e o seu doutor.

E é precisamente aí também que reside o argumento da diferença, uma realidade que, silenciada pela ideologia do gênero, tem causado algum estrago. De fato, poucas vítimas têm sofrido tanto na mão da opinião pública quanto a discriminação, esse hábito terrível de perceber que um picareta é um picareta e que nem todo trabalho marretado é acochambrado. No entanto, seja-me permitido um anacronismo para explicar a coisa. Se, quando o Brasil sequer existia, um índio defendesse que a melhor dieta para um colega de tribo era uma erva de gosto amargo, ele estaria em maus lençóis. Se, por acaso, ele ousasse  dizer que era necessário torturar o paladar de alguém que já estava doente, a turba talvez ficasse escandalizada com tamanha desfaçatez em propagandear o mal. No entanto, se a erva amarga fosse um remédio, a discriminação salvaria uma vida. Essa fábula, no entanto, eu temo não ser só um anacronismo, mas também uma falsidade atual.

Tratar todos como iguais, assim,  é viver no tempo dos aborígenes. Outra discriminação imperiosa se dá quando o tema é a saudade, um dos sentimentos mais caros aos fãs do fado.  Quando um marinheiro deixava o Tejo para se divertir na América, ele deixava nos olhos lacrimejantes das mães a marca de uma ausência. Nunca existiram, porém, duas nostalgias idênticas, porque as presenças tinham sido distintas. E isso é óbvio porque, embora o mesmo fado seja cantado por duas senhoritas, as verdades por detrás de qualquer poesia não são as mesmas. De fato, não existem duas pessoas iguais, alegres ou tristes. Assim, da próxima vez em que alguém citar Tolstoi para dizer que cada família é triste à sua maneira, o melhor a fazer é lembrá-lo que qualquer ser pessoal, sorridente ou choroso, só é se for do seu jeito.

No entanto, a discriminação não está presente só na distinção que separa a saúde da doença e a lembrança da vaga ideia de que algo foi perdido. Há empresas e universidades que se acham no direito de julgar a disciplina dos outros. E o parâmetro do juízo algumas vezes não é - sinto informar aos ingênuos - a moral universal. Pelo contrário, o critério para saber se um funcionário é bom ou não é o interesse da própria coletividade, que tem a força de um imperativo categórico. Assim, aplica-se a esse tipo de situação o que Nietzsche dizia acerca da fonte da ética. Para ele, a moral sempre diz de si mesma que ser a única origem do certo e do errado. A moral, portanto, louva-se a si mesma como causa incausada, o que seria estranho.

Isso, no entanto, não chega a ser uma aporia, porque só é possível saber que a moral deveria ser condenada porque ela mesmo nos deu, antes, o argumento a favor da humildade, uma amostra clara de falta de amor próprio.  Além disso, muitas vezes as pessoas aceitam que avaliem o seu desempenho. A autocrítica não é possível na situação atual da humanidade, quando o interesse na própria imagem é forte demais. E a solução é, portanto, que o chefe exija algumas melhoras antes de mandar o emprego passear, porque, enfim, assim talvez o que não nunca deverá ter acontecido não aconteça. No entanto, convém que esses milhares de pequenos empreendimentos não se destruam a si mesmos confundindo a dificuldade de conhecimento próprio com o atrativo de ser besta.

Ser besta é bom porque se o próprio funcionário fala mal de si mesmo, não é necessário mais nada  para negar um aumento salarial. No entanto, o obstáculo da autoavaliação é duplo: ele não só impede o reconhecimento dos próprios defeitos, mas também torna mais complicada a apreciação dos próprios méritos. E, se nem o chefe percebe isso, um funcionário que seria ótimo em outro lugar vai embora. Quando Maquiavel afirma ser a república superior à monarquia, este é o seu assunto. A flexibilidade do primeiro tipo de estado permite que o problema não seja resolvido somente de uma maneira, mas sim de várias. O príncipe, porém, é incapaz de aceitar que outro toque no leme da embarcação.
Uma vez devidamente morto o déspota, é um erro achar que, no regime que o sucede, todos querem governar. Ter um cargo de governo é viver de correria em correria, algo bárbaro. Quando a Pandora - protótipo do Spotify, e ninguém se lembra dela - cresceu, alguns dos fundadores debandaram. Eles não aceitavam ditar a vida de outras pessoas. A vontade de permanecer pequeno e não escalar na pirâmide social é algo mais radical do que ser besta. Enquanto esta acha que é só desagradável dizer não às pessoas quando elas já não são interessantes, o desejo dos anões simplesmente não admite sequer estar na posição de ter que fazer isso. A aporia dessa questão, no entanto, é tão grande que ela se transforma num enigma. É impossível saber se os pequenos desprezam o ato de governar os outros porque eles temem ser descobertos como príncipes ou porque eles simplesmente teriam uma tarefa diferente para realizar. Portanto, da próxima vez em que você quiser ter um bom sentimento e sentir pena de um marquês em traje de plebeu, é bom estar alerta: há certos erros que foram planejados.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Uma Vitória Passageira dos Bárbaros


Nós começamos com os bárbaros e vamos acabar com eles. No entanto, ainda não foi dessa vez. André Baco, um dos colaboradores da Tuba, achando-se douto o suficiente para se tornar um, digamos, mestre quando o assunto é a originalidade em Plauto, como ninguém lhe havia dito nada em sentido contrário, foi em frente e desafiou a Maior Autoridade para um debate de alto nível. Ele, de fato, havia dito na banca de qualificação que havia dois elementos da comédia plautina. O primeiro é grego, e o outro é romano. Como, no entanto, é impossível ter certeza física sobre de onde saiu cada um dos versos, o jeito era analisar o estilo e, principalmente, as referências. Se, por exemplo, há uma menção à justiça, é bastante razoável que a coisa seja romana, já que os gregos tanto não tinham preocupação com a equidade que não produziram nada parecido com o direito romano. O mesmo acontece se há uma menção às saturnálias, uma festa religiosa do Lácio. Que essas e outras romanices destoavam do ideal da arte grega não é algo a ser desprezado.

No entanto, isso, além de ser a opinião de Fraenkel - uma Maior Autoridade Internacional já falecida - é o que não poderia ser: senso comum. Durante a banca de qualificação, de fato, o professor Alexandre Hasegawa - que, embora não tenha nada de sagrado, tampouco tem algo de vaca - avisou ao nosso amigo que a Academia não tinha nada a ver com senso comum, e que, portanto,  a referência dos conceitos deveria ser expressa. Isso faria, por exemplo, com que se soubesse se a imitação era platônica ou aristotélica. Como, todavia, não há diferença entre Aristóteles e Platão dentro do senso comum, o contribuinte da Tuba não seguiu essa recomendação, concentrando-se na análise da discurso. O professor Alexandre havia dito que as figuras de linguagem são importantes, ainda que sejam mera retórica. Portanto, foi necessário mostrar que a peça não é muito diferente de um argumento jurídico criativo, algo que o pessoal do filme Getúlio tentou em vão fazer. A diferença entre o fórum e o teatro é que, diante da plateia, não há a necessidade de base legal, e diante do juiz há um dever de clareza que não está presente na ficção. Uma alegoria, por exemplo, não cai bem no discurso de um advogado que quer se fazer entender, mas é a única saída para um dramaturgo que não podia se manifestar de outra maneira.

A Maior Autoridade, cujo nome não somos dignos de enunciar, não tinha nenhuma objeção contra o senso comum. Pelo contrário, tendo, desde o começo de sua carreira, evitado qualquer atrito com os seus colegas de Academia à força de acompanhar as modas metodológicas, ela sempre seguiu a platitude de que ficção é ficção, e qualquer relação com a realidade seria mera coincidência. Porque, uai, ninguém pode saber com certeza que Plauto entendia o que era verossimilhança. Assim, não haveria lugar para um estudo sobre um autor que, pasmem!, ousasse misturar história de Roma à arte dramática romana. No entanto, talvez a Maior Autoridade tolerantemente aceitasse essa interdisciplinariedade se não fossem algumas outras ousadias.

André, no entanto, não deseja a misericórdia da tolerância, mas sim a reciprocidade da justiça. Se ele, quando concordou com o que a Maior Autoridade dizia, não deixou de louvá-la por escrito, por que ela também não faz o mesmo? Pelo contrário, ela teima em se fazer de desentendida mesmo diante das maiores obviedades. O contribuinte da Tuba diz também que uma tradução deveria ser completamente fiel ao original quanto ao gênero e deveria diferir dele sempre que fosse necessário para tornar o que era claro ontem claro hoje. Se a Maior Autoridade tivesse falado contra isso e não contra algumas notas de rodapé ou a falta de ordem alfabética na bibliografia, André estaria satisfeito. Mas a tempestade fatal, que deixou o barco do André navegando sem rumo nesse mar sem margens da sabedoria, foi a objeção da cientificidade. Seria impossível conjecturar um possível erro na edição da Harvard. Emitir as próprias impressões, enfim, seria um crime segundo a concepção moderna de um mestrado bem feito.

E uma das impressões que não foi reconhecida como verdadeira era de que a Maior Autoridade está errada ao não aceitar como científico algo que, embora fora de moda, não foi refutado: a ideia simples, enunciada pelos próprios latinos contra seu interesse, de que os gregos, vencidos, venceram os romanos. O relativismo não permite aceitar ingenuamente a superioridade objetiva de outra civilização. É necessário ser crítico, desde que não seja contra o estado atual das humanidades. A Maior Autoridade reúne, pois, os atributos da vaca sagrada: a lentidão para entender um argumento novo e a consideração de sua pessoa como algo intocável. Ninguém, de fato, pode encostar um dedo em nenhum bem do ser humano, mas André, salvo engano, tem um bom cúmplice nesse delito contra a fama: o Cristo  que, quando mencionaram outro rei, chamou-o impetuosamente de uma raposa. De fato, não há nada tão desagradável quanto ver o seu povo à mercê dos sofistas. André quase chega a dar razão aos versos dionisíacos de Camões:

"Este povo que é meu, por quem derramo
 As lágrimas que em vão caídas vejo,
 Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
 Sendo tu* tanto contra meu desejo!
 Por ele a ti rogando choro e bramo,
 E contra minha dita enfim pelejo.
 Ora pois, porque o amo é mal tratado,
 Quero-lhe querer mal... será guardado."

* O "tu", no texto original, refere-se a Júpiter. Podemos sem dúvida entendê-lo como uma mediação externa que se tornou interna.