domingo, 27 de março de 2016

A Soberania Impossível do Alface e de Outras Irrelevâncias


Trazer à baila a repetição de um argumento ao longo de toda a história mostra que vários tiveram uma mesma convicção inabalável. Ao contrário do que julga o Evolucionista Ideal, não se trata de um preconceito psicológico comum,  mas sim de um juízo indispensável à natureza da cidade. Por outro lado, há opiniões inovadoras como a de que o acaso é a força que provê a matéria da seleção. O elemento comum entre o boato corriqueiro e a descoberta científica não é outra coisa que o mistério das incertezas. Porém, desde que a matemática tomou o lugar das humanidades, nenhuma segurança é possível fora da economia, o que destrói o orçamento do Ministério da Educação. De fato, não há dúvida de que investir na infraestrutura necessária às indústrias é algo mais promissor do que atribuir recursos à busca desinteressada pela verdade.

Uma certeza, no entanto, é sempre incompatível com as demais. O boxe, a propósito, é fundado nesse princípio. E, ao mesmo tempo, é uma demonstração de que ele é a glória da regra. Há várias maneiras espetaculares de derrubar o adversário. Dar-lhe, no entanto, uma cotovelada enquanto ele está caído no chão seria um crime. Uma sociedade, todavia, em que o progresso científico é a única verdade não permite nenhum esporte saudável. Qualquer objeção baseada na filosofia aristotélica é vista como algo retrógrado, que, ao invés de levar adiante, empurra para trás. O acúmulo de dados físicos é o primeiro passo para a burrice, ainda que elas sejam atestadas por Pasteur e outros nomes não tão respeitáveis. O segundo é delegar o pensamento ao consenso. O terceiro é querer refutar Descartes no seu extremamente ordenado campo de batalha.

Depois desse Filósofo, o progresso nada mais é do que um acúmulo de contas concretas, o que não traz consigo necessariamente o lapidar imprescindível da imaginação. O homem ou é um ser deslocado no mundo como um extraterrestre ou é um imperador cuja púrpura foi surrupiada. As duas concepções são bem parecidas, com a diferença de que, na segunda, há um delito primordial. A teoria da antropogênese do efeito estufa é compatível com ambas as hipóteses. O seu silêncio quanto ao furto, no entanto, embora falso, é uma cotovelada indevida, porque coloca o João da Esquina na posição de réu por um delito que ele não cometeu. Sempre é possível dizer que o Evolucionista Ideal não é o culpado pelo aquecimento global, embora o seja pela morte de uma multidão de vegetais indefesos. Isso, porém, seria pressupor uma consciência que, cientificamente, tem tanta entidade quanto a estratégia bélica de Chamberlain.

A felicidade do vegetarianismo depende da metafísica rigorosa segundo a qual a responsabilização é exclusivamente individual. O fato óbvio, porém, é que, se é impossível fazer um omelete sem quebrar um ovo, quanto menos um banquete. É impraticável adaptar-se sem dominar o meio, e isso faz com que seja imprescindível carregar pedras, esforço para o qual o alface não provê a quantidade indispensável de calorias. Sem dúvida, o avião que passa como um pombo da paz sobre milhões de cabeças indefesas teria sido inventado mesmo se as sinapses de Santos Dumont fossem estimuladas somente por alfafa. O que, porém, ele comia ou deixava de comer não é importante, porque são atos particulares.

Isso é um desvio político que qualquer cidadão tem o dever de denunciar.  Se os discursos parlamentares visam mais às leis sobre questiúnculas do que à soberania, o país está fadado ao fracasso. Há, no entanto, algo que é ainda mais urgente do que a autonomia. Se alcançasse o palanque um grupo que, por falta de uma palavreado decente, apelasse para as baixarias do baixo ventre, os amigos de Fernando Haddad teriam a reputação ilibada da toga. Como isso não convence ninguém, o próximo meio é usar a violência, expediente em que os senhores do baixo clero não insistem mais porque o alto clero ainda têm paciência o suficiente para dedicar-lhes a imprescindível conversa fiada. O liberalismo desenfreado, de fato, é a causa do terror. E se, por acaso, alguém ainda achar que tratar de procriação é um privilégio inexistente dos fiscais de alcova, aí vai mais uma razão gráfica.

Camões, como se não bastasse ser poeta, era também um herói militar, isto é, alguém que arriscava a vida pela pátria. Mesmo, no entanto, sendo um exemplo de civismo, ele arrumava tempo para cantar as loas de de uma musa que poderia muito bem estar presente por seus passeios públicos por Lisboa. Ele, no entanto, deixava-a em casa cozinhando e se retirava para alçar a sua lira às alturas épicas. E reclamava como poucos do mundo inteiro, que estava entre ele e sua amada. Ainda que seja muito belo, isso não é discurso parlamentar. Se os hábitos privados são esfriados pela sua exposição pública, a infecundidade toma o lugar das famílias. O próximo não é um sonho, mas sim um pesadelo já planejado e executado. As armas tomam o lugar da retórica, e a paz é derrubada junto com as torres da liberdade.

domingo, 20 de março de 2016

O Milagre do Trem

O Professor Gerardo Furtado  tem duas opiniões acerca desse costume imemorial que é a conversa fiada. A primeira é que ela apenas manifesta o quão precário sempre foi o raciocínio humano. A segunda é que, como um bate-papo não admite argumentos de autoridade, o seu aumento à medida que o tempo passa levaria a uma maior confusão, que por sua vez traria consigo o emburrecimento de trocar o fato pelo achismo, e esse efeito se acumularia de geração em geração. É um ponto de vista um pouco estrábico. No entanto, valendo-se do poder do criador sobre as criaturas, ele interpreta as suas palavras e se adianta a dizer que seus dois olhos visam mesmo a um só foco. Assim, cabe a nós entender a unidade do oráculo gerardiano e desvendar o mistério de como a conversa fiada não deixa e talvez deixe a galera mais estúpida. Para Otto Lara Resende, um infatigável praticante do esporte na modalidade epistolar, jogar conversa fora era uma forma de literatura. De fato, um de seus destinatários atestava: “os amigos que tiveram o privilégio de receber as suas cartas julgam que o melhor do Otto estava na incontinência do espírito do missivista tanto quanto no fulgor da palavra e na comunicação direta desse que foi quem melhor soube conversar no país e no seu tempo.” Não que se propusesse isso como um fim imediato, mas a coisa se desenvolvia de tal modo que, para dizer o que queria, ele utilizava recursos que a musa só franqueia aos valentes que, assim, são alçados quase a contragosto ao estado da arte. O ponto decisivo, assim, é saber se a literatura - isto é, a experiência transformada em ficção - não contribui para o descobrimento de verdades tão verdadeiras quanto aquelas que o Prof. Gerardo descobre no seu Pasteur e quejandos. A evolução, embora doutos julguem ser uma dessas iluminações, é um disparate mais inverificável que todas as estórias de fantasmas juntas e, portanto, não pode ser a pedra-de-toque da questão. Da mesma maneira, a infinitude do universo é uma elucubração tão gigantesca que tampouco serve. Resta-nos ficar com algo que ninguém duvida ser muito científico e averiguar se ele tem alguma relação com a literatura: o método. Essa mania acadêmica, sem a qual qualquer cientista passaria muito má impressão, nada mais é do que uma tentativa ordenada de verificar uma hipótese. Dessa maneira, se alguém dentre os antigos tivesse a ousadia de não fazer nada e conjecturar que a terra é esférica, ele poderia sair por aí divulgando a sua informação e exigindo que as pessoas acreditassem na sua autoridade. Alguém, porém, sempre pode duvidar. Então, ele poderia mostrar, na lua, o corte arredondado. Se o que produzia a imagem era o nosso planeta, não haveria incertezas de que a razão estava com ele. O método ou caminho que o levou a tese poderia ser replicado por qualquer um, o que daria foros de consenso à sua opinião. Tudo isso, todavia, depende da suspicácia, uma faculdade que Otto, como bom mineiro, trazia do berço. Ciência, com efeito, é uma certa observação ativa do real. E para que dê algum resultado é necessário que se proponha a responder a uma pergunta bem delimitada. Isso, porém, não é possível se o que predomina é a ingenuidade de achar que tudo é assim ou assado porque é o que parece. Suspeitar, no entanto, que as aparências enganam é um expediente da imaginação. Otto, por exemplo, estando hospedado numa pensão belga, desconfiou que o líquido vendido dentro de uma garrafa de água mineral potável fosse, na verdade, tirada de um bica improvisada que, por um momento, só existiu na sua cabeça. Ele, então, marcou o frasco para verificar se, da próxima vez, seria o mesmo. Assim a pulga atrás da orelha seria confirmada, e surgiria a segurança de que o dono do estabelecimento ganharia dinheiro à força de passar a perna nos clientes. Se isso não é, exatamente, o que um biólogo faz em seu laboratório, há uma semelhança inegável. Ambos, munidos de um palpite, tem que arrumar um meio de constatar a sua procedência. Existe, todavia, algo que é superior à ciência, embora não tenha o atributo divino da verificação laboratorial. Quando, num acidente ferroviário que aconteceu próximo de Barra do Piraí, vários passageiros morreram, mas Otto sobreviveu, ele não diz expressamente que isso foi por milagre. Os mineiros, por um excesso de prudência campesina, desconfiam que o acaso também possa existir. No entanto, ele deixa consignado que invocou a Virgem Maria. Que a vida humana não dependa de Deus, mas só da precariedade de invenções como esses e outros sistemas de transporte é algo tão exageradamente trágico que qualquer um afirmaria ser essa hipótese tão real quanto um sonho ruim. No entanto, alguns adoradores cegos da Nature imaginam isso e acham estar com a verdade só porque não estudaram filosofia o suficiente para discernir onde começa e termina a autoridade dos colegas do Professor Gerardo. Ela começa e termina no trem descarrilhado, e é tão certa e segura quanto uma caveira.









terça-feira, 15 de março de 2016

A Beleza do Faustão


A festa da democracia ainda nem começou, mas os preparativos são promissores. O ex-presidente Lula disse que só saía de sua casa algemado, como qualquer outro meliante. Como, porém, esse tipo de passeio não orna a reputação de ninguém, alguns poucos petistas foram às ruas para demonstrar a sua adesão inquebrantável ao anjo caído. E, numa de suas investidas, invadiram uma propriedade da família Marinho que está no nome de um estrangeiro. Eles teriam, mais uma vez, desmascarado a Rede Globo. Não haveria diferença entre conglomerado televisivo e aquele que, como economista, é um bom metalúrgico. Isso, obviamente, é papo-furado. A empresa carioca, no entanto, tampouco é uma vítima inocente.

Ela mesmo admite já ter feito das suas ao apoiar o regime militar. No entanto, o delito cometido pela Rede Globo não é o ter defenestrado os marxistas e afins, mas sim o mesmo em que incidem, quotidianamente, milhares de brasileiros. Um membro dessa preciosa raça acontece de tossir ao ar livre, no meio da rua, num dia em que o vento é impetuoso. Ninguém o recrimina de nada, mas, se alguém ameaça fazer cara feia, ele pede desculpas. Quando, porém, essas delicadezas passam a ser demasiado oficiosas, algo maior não vai bem. Se a Rede Globo sente muito por ter apoiado a revolução de 1964, o melhor seria esclarecer que, naquela conjuntura, não podia fazer mais. Não é uma bela ação, mas seria pior ainda a omissão. A grande confusão seria achar que, por alguém ter pedido desculpas por algo inocente, ele deveria estar arrependido do ato em si. Pedir desculpas por tossir, porém, não chega a ser um delito, mas somente uma má-compreensão da etiqueta. O crime da família Marinho é o que está por detrás dessa aparente questão menor.

Assim como acontece com a casa invadida, parte do apartamento usado por Lula tem como proprietário um terceiro. Isso, por si só, significa uma simulação, que, no entanto, é inócua tanto quando realizada pelo líder petista como quando feita pelos barões de Jacarepaguá. Porém, ao contrário do que acontece na esfera privada, a simulação governista é um indício de que o dinheiro para comprar as propriedades vieram de algum meio que seria politicamente incorreto admitir. É bastante diferente do que acontece com a TV Globo. Os petistas gostariam de passar uma imagem de honestidade, e a empresa midiática, há já alguns anos, esforça-se para ser conhecida pela sua sem-vergonhice. Há algo mais indecoroso do que vender a intimidade de uns coitados cujo único talento é a mediocridade de não ter nada para oferecer ao público além da indecência? O ato nefando da TV Globo é este: ela inverteu o pudor. É vergonhoso lucrar com a privacidade alheia, mas ninguém em sã consciência se envergonharia de possibilitar a festa que a ditadura do proletariado teria impedido.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Contabilidade Capilar

Ai dos doentes! Porque a medicina sozinha não pode salvá-los!! Antes de mais nada, o maior problema é achar o mundo sério como uma aporia. Os médicos, porém, também são pacientes porque padecem de uma grave falta de bom-senso. É errado achar que o o homem precisa, como um computador, de energia para funcionar. Um médico de um prestigioso hospital, que fica ao lado do Palácio da Mooca, é magro como um palito. Ele não tem tempo para jogar conversa fora porque todo ele se concentra num só traço vertical, sem possibilidade de se expandir como um horizonte onde o sol se põe. Para ele, tudo é uma longa noite,  em que só brilha, lá longe, a luz da saúde. Todos estão doentes até que se prove contrário. Nesse estado de espírito, ele vai até o quarto do senhor Marcelo Bezerra e Bezerra, e o seguinte diálogo acontece:
- Olá, seu Marcelo!! Tenho o palpite de que você tem muita dor na perna. Acertei?
- Doutor, eu já lhe disse que estou bem, pronto para ir embora.
- Mas e os rins: funcionam direito?
- Sim, nenhum problema.
- Mas o senhor deve pelo menos ter tossido bastante…
- Meus pulmões estão ótimos.
- E por quê, então, o senhor está com a cara feia?
- Muito simples, doutor: desde que cheguei aqui, a minha única atividade tem sido contar, quando acordo, os fios de cabelo que ficam no travesseiro. Eu não aceito isso!! E mais:  se estou entediado, a culpa é do hospital, que não me libera!
O médico, desconfiado de que o paciente tenta engabelá-lo, vai embora e não lhe dá alta. Bezerra-e-Bezerra é declarado doente porque ainda não descobriram a sua doença. Embora não seja perito na disciplina de Esculápio, ouso afirmar ser  fato que a perturbação do nosso amigo se deve à língua presa quando o assunto é a dor.  No entanto, o médico não compreende algo que os manuais da faculdade deixaram de ensinar.  Ele está doente porque há dias não conversa sobre nada que não seja a própria ruína, e ele precisa de outros temas como a malícia dos políticos.  Se ele saísse, ficaria melhor. Há, de fato,  algo simplório sobre a personalidade de Marcelo Bezerra e Bezerra que os doutores teimam em não aceitar. Ele não quer enganar ninguém, nem se nega a receber o tratamento. Ele só gostaria de exercitar  aquela arte que anda esquecida desde que a piada foi tornada oficial e, portanto, chata. Ele quer reclamar.

Sim, desde que os cabelos começaram a se despedir da cabeça de Bezerra e Bezerra, ele não está para ditos engraçadinhos. Ele gosta de posar de sério e não deixa de elaborar um discurso em consonância com a sua tragédia capilar. “A salvação do mundo depende de uma melhora do nível de moralidade, que está abaixo como estava a represa de Guarapiranga e não há chuva que dê jeito!”, ele repete para si mesmo e para quem é temerário o suficiente para cruzar o seu caminho. Ao mesmo tempo, porém, ele tem uma particular afeição pela injustiça dos outros, porque,  sem ela, ele não seria a vítima cósmica. Ele poderia até se vingar, mas diz para si mesmo que isso seria grosseiro.  Em última instância, porém, a visão predominante é a de que os deuses o invejam porque ele se mantém incólume no meio de um mar de iniquidade. E nada, de fato,  é tão belo quanto um homem pelagiano, sem culpa, que atrai sobre si a ira do mundo inteiro.  Bezerra e Bezerra é um trágico que, ah!!, chegou atrasado!

Ele, porém, ainda não assumiu a sua calvície, sem a qual a sua querida desgraça não teria começado. A Tuba – cuja função social é tornar feliz qualquer imprudente que resolva perder tempo com ela, seja ele quem for - fornece um remédio pagão para uma doença pagã. A arte da tragédia nada mais é do que saber esperar passar o triste canto das sereias.  A propaganda em questão é o blá-blá-blá segundo o qual as pessoas se importariam mais com a juba do que com quem Bezerra e Bezerra é. Nessa matéria, não há ninguém tão hábil quanto Ulisses. O herói homérico foi cantado não só pelos gregos, mas também por um surfista carioca muito tranquilo, que é um discípulo moderno de Alberto Caeiro. De posse de um manuscrito que lhe chegou numa das ondas, ele verteu livremente para sua língua a tristeza moderada de Ulisses, que o levou não à loucura de agir, mas, muito pelo contrário, a ficar parado por algum tempo na rota traçada antes que a fúria dos elementos despencasse sobre a embarcação indefesa.


Os Cabelos Que Ficaram Para Trás 
A linha entre o ser feio e ser gozado
É uma diferença bem pequena
Que eu descobri uma vez, já cansado,
Nas doces areias de Saquarema.

O grande esforço, já extenuado,
De pescadores sem nenhum problema
Que não se resolva pelo que é dado
Pelo mar, sem carência de esquema,

Encontrou um tesouro na areia
Como um prêmio-extra por seu trabalho:
Eram jóias… que o tempo tornou feias.

- Há algo belo que seja perdoado?-
Perguntei. E o vento, na minha orelha:
- Ítaca! Onde a calvície é passado.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A Frieza das Mulheres

A cordialidade brasileira não é sentimentalismo. Ela é antes de mais nada a capacidade de dialogar mesmo quando o navio está a ponto de naufragar, e um brasileiro de verdade não deixa de ceder o seu lugar no bote que salvaria a sua vida por conta do medo de que o resgaste não iria chegar. O verde da bandeira tupiniquim é a sua esperança, que só morre quando o dinheiro fala mais alto. É a triste história de Lula, que deixou de servir aos pobres quando o verde dos dólares da Odebrecht subornaram a sua consciência. O segundo fundamento da honestidade é não se achar o honesto, porque o primeiro é a razão, coisa que está em falta mesmo em figuras ilustres como os professores da Botucatóvisque, aquela faculdade que, entre nós, é dona do prestígio que foi de fato perdido na noite dos tempos. 
Um de seus professores um dia me confidenciou que o sentimentalismo o deixava apavorado. O medo, obviamente, é pior do que o próprio sentimentalismo. A melhor reação contra essa doce falha não é encolher-se, mas sim desbragadamente assumi-la. Sentimento é bom, e eu gosto. Isso é subjetivamente verdadeiro porque foi um fato que a consciência manifesta com a clareza que permitia a Narciso estranhar a sua face no lago. A diferença entre homens e mulheres é que os primeiros se apaixonam pela imagem, enquanto as segundas não se apaixonam por nada. A sociabilidade é algo comum entre os dois sexos, mas a proverbial fragilidade feminina é uma máscara que esconde o seu coração de gelo ou, na gíria filosófica, a sua diferença específica. 
Tomarei da vida um exemplo politicamente incorreto, mas sincero. Nem o mineiro, nem o carioca, nem o paulista, nem ninguém é tão macho quanto o cearense, esse bravo que suporta a seca com um estoicismo mais forte que o de Zenão. Isso é sinal de varonilidade porque é próprio do homem se empolgar com a própria força. Não há dúvida, porém, de que o melhor para o cearense é deixar de ser cearense e ir, como uma mulherzinha, a Brasília implorar que, em vez de planos mirabolantes como a transposição do São Francisco, recorram à simplicidade da água das cisternas. Ou seja, a dor da seca só é vencida se se faz uma gritaria em torno dela. Mas, para isso, é necessário uma paixão transparente e equilibrada como num soneto de Camões.  
Mulheres, pelo contrário, quase não escrevem poemas de amor. Essa frieza é ao mesmo tempo a sua glória e sua ruína. Se as amadas respondessem às cartas dos amantes, não só as epístolas deixariam de ser ridículas como o próprio sentimento desapareceria. O amor feminino não é a contrapartida do masculino porque as mulheres são mais racionais do que os homens. Se Helena fosse uma mulher de carne e osso, ela não seria capaz de ter atraído Menelau. Foi só quando ela se apaixonou pela própria imagem que Troia ruiu. Uma mulher de verdade é como um beija-flor que paira acima dos sentimentos vulgares não porque tenha medo deles, mas sim porque a sua razão lhe diz que a transformação da beleza ordinária na permanência do casamento só ocorre se os homens forem também suficientemente calculistas para reconhecerem que o frio na barriga do primeiro encontro não dura senão à força de comprar muitas flores e descobrir outros meios menos óbvios.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Pangaré Alado e Sua Audição do Estudo em Si Menor de Fernando Sor



Há várias maneiras de tocar violão. Uma delas é displicentemente pegar o instrumento nos dias de pagode para acompanhar algum cantor amador que quis desenferrujar o gogó. Outra é estudá-lo para dominar a técnica de tal maneira que, quando o artista dá a graça de uma canja, todos ficam embasbacados com o movimento rápido de seus dedos, e se esquecem da música. E tudo oscilaria entre o improviso do serviço e a vaidade do brilho se não houvesse quem colocasse o talento a serviço da harmonia até, depois de muitos ensaios, deixar que ela encha todo o ambiente de serenidade. Isso é o que faz com destreza o médico piauiense Marcos Leal, já radicado há quatro anos no Rio de Janeiro, com um simples e muito belo estudo em Si menor de Fernando Sor. Ele não é um profissional da música, mas a precisão cirúrgica aprendida na faculdade não foi em vão. Ela faz com que o instrumento planja de tal maneira que qualquer um que tenha sido mandado embora do emprego e ficado sem rumo, andando para lá e para cá por uns dias, sinta-se identificado com o vai-e-vem da melodia.

Serenidade de fato é só o fim. O que esse conjunto de sons provoca é a leveza instável de andar de barco no meio do mar, com o vento forte levantando as ondas, rumo a uma ilha paradisíaca e inexplorada. Quando então o barco chega, não há ancoradouro, e ele tem que rodear a costa em busca de um local seguro. Eis aí a síntese de movimento e repetição que a música traz consigo. O trajeto do barco se aproxima e se distancia da orla, perscrutando suas paisagens desiguais para em vão completar o círculo. Mas sobe e desce sempre no mesmo ritmo. Depois de dar uma volta inteira e não encontrar nada, o destino parece ser, quando a melodia é mais terna, o fracasso de retornar à praia de origem. No entanto, eis que de repente tudo é calma, e a paciência conquista seu prêmio. O barco lançou âncora, os tripulantes desceram, e seus pés tocaram a terra firme sob o azul diáfano de um céu sem limites.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Peleguismo e Outras Maravilhas

Chuva, Vapor e Velocidade - Turner
Viver no Brasil é constantemente ser lembrado do que julgo ser um uma opinião plausível: o poder é como a barba. Assim como esses pelos que teimam em crescer ainda que sejam sempre raspados mostram que a natureza humana é caprichosa e tenaz, assim também algum governo nunca deixa de ser exercido, ainda que contra todos os jornais. Como a barba, o poder é um privilégio que nem todos têm mas todos respeitam. Há gente, no entanto, que se acha capaz de dizer ao povo quem é a autoridade, como se ele fosse um dândi que precisasse de um espelho. Nessas últimas manifestações, algumas mídias virtuais afirmavam que sicrano, legitimamente posto no seu cargo, não manda nada. A natureza, no entanto, não tem a obsessão pela unidade. É possível que haja, ao mesmo tempo, vários caciques para o mesmo assunto, e improvisar um tribunal para decidir quem manda e quem tem juízo é mera retórica.  Ockam diria que não convém complicar o que pode ser simples. A democracia, porém, é necessariamente múltipla e diversa.

Uma forma mais sutil de minar o poder é alardear que o seu discurso é desconexo. Se dom João era realmente a figura que pintam, ele devia frequentemente não falar coisa com coisa. A maior parte dos desentendimentos, no entanto, acontecem mais por deficiência do ouvinte do que por loucura do falante. É verdade que a arte moderna tem se esforçado para contradizer isso, mas o máximo que ela consegue provar é que uma representação da própria singularidade requer uma apreciação um tanto singular. Outro fator de incompreensões, mais grave, é o desprezo por um dos axiomas do bom senso: o de que tudo tem a ver com tudo.

A capacidade de autocrítica, por exemplo, está relacionada com a política. Bill Clinton, um nome que foi democraticamente enterrado e sepultado, era uma espécie de gênio da reputação. A fama, de fato, é algo muito volátil, mas gente como ele tem a malandragem necessária para se sair bem mesmo quando comete um erro. Quando alguns de seus subordinados errou o alvo e, em vez de uma fábrica de armamentos químicos, acertou uma indústria farmacêutica, não houve nisso nada mais do que uma cochilada profissional que a técnica se incumbiu de agigantar.  Alguém deveria estar atento, mas o corre-corre do quotidiano traz consigo essa possibilidade terrível. A rigor, portanto, Bill Clinton não cometeu nenhum crime, mas mesmo assim, descobrindo no fracasso uma oportunidade eleitoral, mostrou-se profundamente humilde e pediu desculpas.

O sobe-e-desce da democracia, por sua vez, está ligado com a imitação. Os adoráveis ingênuos diriam que Bill Clinton assumiu seu erro porque tinha a intenção de tomar sobre si a culpa dos outros e ser um bode expiatório voluntário.  Eles provavelmente estão certos, mas a fria prudência recomenda considerar a hipótese de Bill Clinton ser tão vaidoso quanto esses atores de cinema que compensam a falta de sentimento com um penteado bacana. E a única maravilha que esses obcecados pelo holofote aceitam é o próprio umbigo. Consta, porém, que isso estará de moda por algum tempo ainda, porque não é difícil extinguir o assaz decalcado discurso politicamente correto, algo tão próprio da humanidade, essa raça de macacos com um sentido mais refinado de imitação.  Embora a língua não tenha sido feita para a retórica, isso infelizmente não traz consigo que os que abusam dela sejam linchados. Mas até nisso há algo de bom. É tão natural quanto o poder e a barba que o atual governo brasileiro às vezes acerte sem saber por quê. É o caso, por exemplo, das verbas que ele destina aos cientistas políticos e comentaristas pelegos. O profissionalismo com que eles defendem o indefensável, jogando a culpa de alguns num inexistente sistema neoliberal, não deixa de ser verdadeiro. As faltas não deixam de ser coletivas porque alguém, solitário como qualquer minoria, resolveu, num dia cheio de raios e tormentas, dar ouvidos a uma serpente.