quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Companhia dos Cães Solitários

"Para que mímese se torne completamente antagonística, o objeto tem que desaparecer." Girard.

O objeto nada mais é do que o foco da memória. Em casos extremos, ele nunca é completamente apreensível. No entanto, é possível conquistar uma acúmulo de indícios que redundem numa certeza. Do contrário, o inconsciente freudiano seria só uma mística de quinta categoria. Maquiavel não era consciente das consequências desastrosas de sua filosofia moral, e uma delas pode muito bem ter sido o idealismo alemão. Para efeitos da Tuba, esse pode ser definido como a identificação confusa entre a razão e o mundo. Hoje, por exemplo, vige a moda de que, fora da academia, é extremamente complicado dedicar-se aos livros.  Essa ideia, no entanto, não é completamente certa. Conheço gente que lê bem, mas nunca foi adestrada nos rigores uspianos, que até têm a sua utilidade mas não são imprescindíveis. Tomá-los por pressuposto impossibilitaria a cultura fora do quadrado acadêmico.

Na medida em que os fins justificam os meios, e o fim nada mais é do que um projeto ambíguo, qualquer besteira está justificada. No marxismo, como bem lembra o Olavão, a redução racionalista é prospectiva e acaba no exato oposto do paraíso do proletariado. Na poesia, as consequências não são tão graves. No entanto, há uma certa indisposição que, transformada em versos, é tão incompreensível quanto o erro político. Reclamar das canções que expressam sentimentos líricos faz terra arrasada de metade desse labor excelso das palavras que é a poesia.

De fato, um dos correspondentes da Tuba no Recife descobriu, num espólio abandonado, um manuscrito inédito que tudo indica ser uma emulação de "A Casa Vazia." Como não se trata da caligrafia do autor desta maravilha, Alberto da Cunha Melo, mas sim de uma letra mais clara, que às vezes era deixada para trás sem ter sido completada, alguns dizem que deve ser de um amigo mais velho, médico  e viúvo convicto, que também fazia uns versos bissextos e era bastante competitivo. Para ele, o poema em questão era um convite a abandonar o individualismo. Senão, vejamos:

 Poema nenhum, nunca mais,
 será um acontecimento:
 escrevemos cada vez mais
 para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Depois que sua esposa faleceu, o doutor tinha resolvido dedicar-se completamente ao trabalho e não ia a festas de nenhum tipo, o que Alberto não achava bom porque impossibilitava que ele encontrasse uma nova companheira. Quando o esculápio leu a "A Casa Vazia", achou primeiro, como vimos, que seu tema era a própria escrita, o que costuma ser chato. No entanto, perdida a objetividade, viu que era possível interpretá-lo trocando o referido usual do vocábulo "poema" pela arte de devolver a saúde aos doentes. Assim o "deserto particular" se transformava no seu tão louvado hospital, que para ele tinha sempre sido uma poesia cheia de transcendência. Alberto seria bem capaz dessas zombarias sofisticadas. Muito lógico e fulo da vida por, dentro do texto, ocupar o lugar do cão, o médico respondeu latindo assim:

Iracema nenhuma, nunca,
Será para mim uma princesa,
Nem roçará em minha nuca
para consolar essa tristeza.

Às lágrimas que choro agora
Basta um lenço... e vão-se embora.

Ser um Batista solitário,
Os cães dizem que é muito estranho,
Pois é do amor ir pareado.

Mas, noite e dia, há companhia,
Mesmo numa casa vazia.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A Clandestinidade do Aborto: Uma Luz Que Ainda Brilha



O diálogo que segue é uma reprodução exclusiva de A Tuba. Ele não passa de uma conversa em busca da verdade. Juliano é um nome fictício de um rapaz escandalizado pelo boato de que a causa abortista ganharia força. Carlos, também um personagem real disfarçado, é um advogado de um escritório paulista e aluno uspiano do programa de doutorado em Direito Econômico.

Juliano: A escolha de Flávia Piovesan vai matar as criancinhas.

Carlos: Olha: eu não nutro simpatia por ela. Mas cadê a fonte dessa afirmação da Flávia Piovesan?

Juliano: Está aqui nessa entrevista. Ela é favor de eliminar o bebê que vai nascer. A Flavinha diz como se fosse algo pacífico: "É consenso que o aborto deve ser visto como caso de saúde pública e não como caso de polícia. É lamentável a morte de mulheres em razão da prática do aborto ilegal". Matar um feto é como matar um adulto doente, que também não tem autonomia. Se um ato é um homicídio, o outro também é.

Carlos: Ela não é a favor de "eliminar o bebê que vai nascer". Só disse que o aborto é uma questão de saúde pública, não de polícia. Meu amigo, você é capaz de mais do que um silogismo barato.

Juliano: As mulheres têm direito sobre o próprio corpo. O feto, porém, não é o corpo dela. Imagina que você tem um apêndice estragado. Você o extirpa porque é desnecessário. Mas o feto, à medida em que os anos passam, mostra que era mais do que um órgão supérfluo. Se você tivesse sido um apêndice arrancado, eu não poderia conversar com você. Esse tipo de perspectiva temporal falta aos defensores do aborto. Eles acham que um feto não cresce.
 

Há um sério risco de a legitimidade da interrupção voluntária da gravidez ser baseada numa concepção da racionalidade atual. Ou seja, se o feto não pensa em ato, ele não é tão merecedor de ser amparado pelo Código Penal quanto um adulto. Trocando em miúdos, ele morre por ser quem é, o que é mesmo que matar alguém por ter nascido pobre ou preto. Certamente, alguém dirá que a analogia não se aplica porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. De fato, uma coisa é uma coisa, mas o feto talvez não seja.

Não há dúvida de que o bebê na barriga da mãe pode ser algo completamente distinto de uma pessoa. No entanto, a possibilidade de o feto não ser uma coisa é um fato. Em suma, o abortista é alguém que assume o risco de matar alguém, o que caracteriza um assassinato.

Para apoiar o Michel Temer é necessário um mínimo de convergência, o que depois disso se tornou impossível. A outra oportunidade era Eduardo Cunha. Todavia, ele, cuja esposa de fato gasta um pouco acima da média, é mais uma vítima da ditadura do judiciário, que se mete onde ele não é chamado. O núcleo democrático é a Câmara, que supera em representatividade inclusive o Senado. Se alguém troca o deputado escolhido pelo povo pela retórica constitucional, está aberto o caminho para a guerra de todos contra todos. A lei, de fato, nunca foi capaz de condenar os crimes perfeitos.

Os advogados tendem a dizer que a solução para a crise familiar que desemboca no aborto é o respeito às normas regularmente promulgadas. A técnica legislativa é assim adotada como Deus ex machina. No entanto, ainda que fosse legal, se um crime não deixa de ser injusto porque é aprovado pelo parlamento, muito menos se a única justificativa é a chancela do poderes executivo ou judiciário. O único remédio possível é acabar com a família antes que ela acabe com o bebê. Uma maneira de fazer isso sem destruí-la por completo é permitir que os pais decidam para onde enviar o filho.

A legalização do aborto causaria mais problemas na medida em que, ao contrário do propagandeado, aumentaria ainda mais a clandestinidade ou nível de inconsciência do injusto. Se as clínicas que cometem o crime hoje não o fazem com transparência é porque ainda resta na sociedade uma luz. A melhor maneira de entender isso é enxergar que, por mais hábil que seja um orador ou um governante, há certos mecanismos que tem uma objetividade própria. Matar em série é algo que prejudica não só as vítimas, mas também os fatos, que então são varridos para debaixo do tapete como se nada tivesse acontecido. Foi assim com os eugenistas, que esqueceram mais uma vez o que é a igualdade e que, em 1974 num congresso em Nova Iorque, cogitavam de novo a sério o determinismo gênico como razão de estado. Olhar para trás e ver que um discurso justificava a iniquidade aumenta as trevas.

Os gregos já tinham previsto tudo. E isso fica patente não só no mito de Ícaro, mas também em outro menos célebre. Contam que Dédalo havia ensinado a Talos, um rapaz mais novo, as artes que conhecera. No entanto, Talos, depois de ter recebido a educação, pagou por ela um preço caro. Ele foi assassinado por Dédalo. A técnica legislativa é um ótimo instrumento contra a tirania. No entanto, ela é impotente contra a sociedade que a criou.  Logicamente, para esconder seu crime, Dédalo inventou que tudo havia sido um acidente. Na esfera laicista, essa é a saída para os que cometeram um delito: dizer que não sabiam, e que foi tudo um erro não intencional. Mas, depois, pedir uma nova chance ao povo seria abusar da sua paciência.

domingo, 19 de junho de 2016

Uma Espera Iugoslava



            O surfista de Saquarema, tendo ouvido que há novos Homeros na Iugoslávia, deixou a praia e foi passar um pouco de frio naquelas plagas. Não conseguiu achar ninguém que cantasse exatamente como o primeiro entre os bardos, mas trouxe consigo uma amostra de que a rapidez da civilização ainda não fez seus estragos por lá. É uma canção sobre a espera, e a sua tradução inédita é cortesia da Tuba, algo que ela espera continuar fazendo com a ajuda dos leitores:

           
            Por entre os campos de inverno

            Em tudo brilha a luz clara,

            No azul do céu e da água,

            No invisível inseto.



            São lugares bem alegres!

            E não lhe falta o trabalho

            De homens agasalhados

            De certo manto perene.

           

A borboleta em larva

Promete uma primavera

de colorida algazarra.



Mas vem vindo de outras eras,

Sem ser nada dado à farra,

O tempo que tudo encerra.

sábado, 11 de junho de 2016

Mais Uma Transversalidade



A única bandeira é a verdade, e o resto que se exploda. É frequente, no decorrer do tempo, que os gênios sofram algum tipo de incompreensão. Mommsen, quando escreveu a sua História de Roma, colocou, em meio a indagações que poderiam ser provadas, uma hipótese de difícil evidência. A classe sacerdotal da capital italiana teria influenciado secretamente a política. Quando um assassinato ocorre e o crime é perfeito, não há testemunhas. Se os senadores que tramaram a morte de Júlio César pediram conselho a alguém que, com uma veste talar cinza, resolveu, numa taberna podre, ir além dos augúrios em troca de algumas moedas, ninguém jamais saberá. Do mesmo modo, a única fonte dos feitiços da Idade Média são os historiadores que, pobres coitados, por um estranho dever de ofício, são obrigados a considerá-los palavras sem nenhum efeito, como se não houvesse outro ser estranho disposto a emprestar-lhes a eficácia do mal, que algumas vezes é só a confusão. 

Outra hipótese difícil, sem a qual o debate atual sobre ideologia de gênero não aconteceria, é o de que não há diferenças entre homem e mulher. Aqui, porém, há provas diretas contra essa opinião. A virilidade e a feminilidade seria uma só coisa mutável. Rafael, outro gênio com quem conversei ao vivo hoje – há muitos outros por aí e diversíssimos – foi a uma audiência pública para tratar do tema. Ele não tinha preparado discurso algum, mas, como via que os marxistas falariam, resolveu imitá-los e também se inscreveu para deixar seu recado. Não há nada que seja tão perigoso quanto tomar um inimigo por modelo, mas foi exatamente o que esse cidadão corajoso fez. Depois de argumentar como um jurista competente, embora seja só um estudante de medicina, ele teve que escapar de mais um jumento alado. Uma senhora, depois de ouvir argumentos a favor da família, que lhe soaram à velharia, exortou-o ironicamente a respeitar os anciãos que, como ela, eram a favor da transversalidade. Há um mistério nessa palavra, pronunciada bruscamente, cortando a linha reta que ligaria a terra ao céu.

Uma transversalidade chama a outra e quanto mais, melhor. A outra em questão, que complementa a igualdade horizontal, é a laicidade vertical. Não é simplesmente arrancar o crucifixo e substituí-lo por qualquer outro sinal mais vago e menos histórico. A transversalidade não vale nada se ela significa uma confusão sentimental em que não há hierarquia alguma. Ou seja, ou os mais fracos são identificados e cuidados contra toda tentativa de esquecê-los numa busca idiota do prazer, ou o qualquer tentativa de inclusão social é papo furado.

A identificação preventiva da vítima se dá através de um processo de objetivação. Não se trata somente da criança solitária e indefesa, mas sim de um prejuízo para o bem público, que, no jardim da modernidade, é a flor mais mimosa de todas. Trata-se, evidentemente, da democracia, cujo fundamento é uma retórica filosófica e, portanto, antissofística. Fere o princípio da não-contradição que alguém use, num debate dentro de uma casa pública, um discurso ambíguo, valendo-se das suas verdadeiramente veneráveis cãs a favor de um pseudoprogresso contra a virtude. Se a transversalidade da jovenzinha com cabelo branco tivesse cruzado o caminho de uma espada, o caos teria se instaurado.

sábado, 28 de maio de 2016

O Preço do Gosto



A Arcádia era uma terra muito longínqua, onde os pastores, que nunca precisaram da civilização, moravam. Nela, não havia espadas, nem arado, nem a experiência de qualquer conflito. Todos cuidavam de suas ovelhas. Como, porém, a monotonia delas cansasse algum racionalista de antanho, foi necessário que se inventasse a flauta como distração. Este foi o começo de uma tragédia, porque se antes as relações eram simples -  os frutos eram colhidos das árvores e a carne era fornecida pelos animais -, agora o doce instrumento precisava ter um preço. A partir daí surgiu a cidade, em que não há só pessoas, mas também a compensação do comércio. Quem tocou a flauta quis receber um um salário, que, todavia, não é sempre necessário.

No governo, de fato, o princípio da compensação é aplicado de maneira diferente. Se um carpinteiro não produz nada, ele não tem o que compensar. Um presidente, por outro lado, se é prudente, ainda que não faça nada de concreto, merece alguma contrapartida. Além disso, o princípio opera não só na remuneração dos vereadores e quejandos, mas também na sucessão do governo. Ter o poder é algo que, por imitação, todos desejam, mas ele se torna ineficaz se não há quem obedeça. Portanto, o melhor é que todos, em algum momento, ditem os rumos da sociedade.  O pré-requisito é que estejam dispostos a sacrificar os seus interesses. Do contrário, a cidade se transformaria numa oligarquia ou mesmo numa tirania.

Nosso poder, no nível animal, manifestava-se na posse de um território dividido entre todos e não mudou muito. O interessante, porém, é que a coisa comum nem sempre é útil. Os macacos, por exemplo, dividem não só a área onde vivem, mas também a árvore onde tacam as pedras, o que talvez seja um hábito hereditário de algum sacrifício pacificador. Esse bode expiatório, que seria simbólico se houvesse referencialidade múltipla, também é uma espécie de compensação, porque vítima igual ao agressor desaparece do plano fático, uma ausência particularmente louvável. 

O princípio da compensação, portanto, pode ser definido como a origem do processo de diferenciação do trabalho em várias guildas. Se há um registro público, também é necessário que haja quem o leia e informe algum herói capaz de agir e que haja quem obedeça. Há, no entanto, um ponto em que a analogia, passando pela  memória, a vontade e a decisão, não pode ir adiante. O bombeamento do sangue, que distribui oxigênio, não pode ser realizado somente por quem detém o poder. Do contrário, se o espírito soprado desde o Ministério da Educação for um veneno, a unidade pode até existir, mas ela não vale nada. É necessário que haja financiamento privado de fundações para que o totalitarismo não tenha chance e para que a cultura geral, requisito básico para qualquer tarefa que não seja esfregar o chão, seja difundida sem muito viés ideológico.

Até aqui, não há a menor necessidade de dinheiro, já que para fazer um intelectual trabalhar basta uma cerveja. O salário só é indispensável na medida em que a liberdade é possível. Se todos os produtos são iguais, não há por quê ficar perplexo entre um sabonete Dove e um Monange, cujas diferenças reais ninguém sabe. O salário, no entanto, é um meio de evitar a semelhança de desejos que, se muito intensa, gera um certo desconforto. A coisa fica clara ao considerarmos a variação das arquiteturas. Um bem espalhado por toda a sociedade deixa de ser atraente. Surge, então, a necessidade de compensar a sua falta por um algo diferente, o que só é possível se houver a liberdade subcriativa e o correspondente financiamento. O capitalismo é o preço insubstituível do gosto.  

domingo, 22 de maio de 2016

Uma Pérola no Chiqueiro



Eu nunca tinha visto Edmundo, o justo. No entanto, uma pessoa muito brincalhona contou uma vez que ele, estando no Rio de Janeiro, começou a explicar a arquitetura das igrejas da Praça Quinze. Edmundo era o guia de uma excursão em que só havia adolescentes. Depois de fazer doutas distinções em alta voz olhando fixamente para uma imagem e terminar com uma piada, ele percebeu que ninguém havia rido. Ah, pobre justo! Aconteceu de nenhuma gargalhada soar porque nenhum ouvido escutou. A garotada havia ficada parada contemplando, embasbacada, um carro tunado que, todo vermelho, rebaixado e moderno, destoava no meio da tradição do lugar.
Consolar um justo não é tarefa para qualquer um. No entanto, é possível que ele, enquanto voava para o passado, tivesse se esquecido que muitos outros doutos expositores das belezas atemporais também tinham ficado sem público. Ele certamente afirmaria que com ele é diferente porque a sua audiência era selecionada. No entanto, ninguém era tão selecionado quanto a corte do Rio de Janeiro, que, a não muitos passos dali, assistiu ao imperador que declarava ficar nessas terras. E alguém duvida, porém, que, naquele momento histórico, um pedestre estivesse com a cabeça nas nuvens, pensando em algum parente longínquo que o iria visitar ou em algum time esplêndido que foi roubado pelo juiz?
As lembranças, de fato, têm vida própria. Um fantasma que, desmistificado há muitos séculos, teima em voltar é o duende. Mas seu nome mudou, e o nome é tudo. Seu novo apelativo é agora energia, que pode ser atraída por um prisma ou repelida pelo pessimismo que muitas vezes é a realidade sem o eufemismo da retórica.  O imaginário moderno, assim, já não comporta um ser que, no jardim da minha tia, aparecia com a forma de um anão. Os duendes de hoje são algo tão abstrato quanto o ser, mas não tão fidedigno. A última moda é a Ideia.

Alguém que se apresentasse como o salvador da pátria faria uma paródia sem graça. Uma declaração de boas intenções pode muito bem ser uma das daquelas cartas ridículas sem as quais a humanidade não continuaria existindo. No entanto, quando um presidenciável como José Serra aparece na televisão para tranquilizar o povo brasileiro dizendo que, a partir de agora, o princípio pelo qual se pauta a política é a Nação, há algo de errado. Esse discurso soa como uma música solene que envolve em mistério uma coisa muito simples: o governo. Traduzindo em miúdos, José Serra promete deixar-se levar pelo que os técnicos lhe digam que é mais eficaz para a economia do país, sem deixar que seus interesses partidários prejudiquem os investimentos.

O problema com o livre mercado, no entanto, é que ele é de fato uma feira pública, onde jovens incautos deixam-se levar por qualquer produto barato. Se houvesse algo de novo no país, José Serra teria mencionado em que consiste precisamente o rumo a ser tomado. A posição do novo governo sobre os temas fundamentais não foi divulgada, porque ainda esperam por um consenso que nunca existirá. Eu gostaria de estar errado, mas é isso mesmo. No entanto, Edmundo, o justo, insiste em que o ministro merece um voto de confiança, porque, na sua fala, brilha como uma pérola escondida a palavra valor. E que a galera, quando ouve isso, não pensa só no preço de um automóvel.

domingo, 10 de abril de 2016

O Chá de Napoleão Democrata




Há muito papo-furado quando o assunto é o exército. Não há dúvida de que a força, por si só, não é um argumento, mas a estratégia militar se desenvolve nesse nível. Um dos pontos básicos dessa coisa é o de que, quando o soldado inimigo é capturado, não há mais nada a fazer. Napoleão, se não tivesse bem delimitado o que era a guerra, poderia ter destruído todos os camponeses. No entanto, se ele não o fez, é porque entendia que há uma diferença entre o ódio teórico, que é recomendável, e o prático, que convém sempre adiar. Não se deve tocar nem nas crianças nem nas mulheres a não ser para protegê-las. Quando invadidos, os russos, por sua vez, colocaram em prática a opinião metafísica de que a entrega é melhor maneira de se vencer. Se o intelectual põe fogo em tudo o que na sua vida é incompatível com o bem, não há dúvida de que, cedo ou tarde, a vitória será sua. O feminismo é um campo onde essa tática é particularmente eficaz, o que fica claro na história do chá.

Antes do século XVI, o chá era desconhecido na Inglaterra. Ele era cultivado na China, onde os homens o provaram e acharam que era leve o suficiente para ser uma bebida nobre. De fato, assim como o fumo, ele é algo que pode ser consumido antes e depois de qualquer refeição sem prejudicar o apetite, o que é conveniente para aqueles cujo ofício é gerenciar o trabalho alheio em reuniões longas. Aqueles que, mais embaixo na pirâmide, passavam a vida ao ar livre não se dignavam a distrair-se com beberagens de pouco valor nutritivo. Uma das primeiras cortes europeias que recebeu o produto oriental foi Portugal, onde, porém, ele foi somente uma moda passageira.

Alguns dizem que alguma resistência foi oposta. Antes mesmo de ser provado, ele chocaria as sensibilidades no seu novo ambiente, por conta de uma associação imaginativa ao ópio, um produto alucinógeno. No entanto, o boato de que ele prejudicaria a consciência só poderia ser aceito por aqueles que nunca ficaram levemente embriagados. Qualquer um que já sentiu a alegria do vinho sabe que é perfeitamente possível identificar uma alteração das percepções. Se, portanto, ao factoide da lombra do chá fosse acrescentado o juízo de que ninguém poderia saber se sonhava ou estava acordado, prová-lo seria uma temeridade. No entanto, não consta que o pessoal fosse ao mesmo tempo tão inimigo do álcool e tão crente no platonismo de quinta categoria segundo o qual o mundo é representação total.  Talvez fosse assim, mas seria preciso averiguar com mais cuidado antes de se divulgar uma opinião tão problemática. Platão ensinava que o mundo inteiro é uma representação somente enquanto dormimos.

O mais provável é que a demora para que o costume pegasse se devesse à novidade. No entanto, como foi adotado pela dieta dos grandes, o exemplo fez com que o chá se espalhasse. Catarina II de Portugal havia se casado com Carlos II da Inglaterra e levara consigo o hábito de bebericar o líquido para os palácios frequentados por seu marido. Uma questão interessante é por que a acolhida no país de Nelson foi maior do que na terra de Cabral. Talvez tenha sido que, no segundo, não havia uma bebida que fosse tão típica quanto o vinho no primeiro. Na Inglaterra, o chá preencheu um vácuo gastronômico que não existia em outras regiões.

No século XVIII, várias famílias bretãs alcançavam um melhor nível de vida com casas onde se vendia o requisito essencial para o chá das cinco. Entre os homens, porém, o costume de se reunir ao redor de um bule não era tão forte quanto entre as mulheres. De fato, quem já tinha a cerveja não precisava do néctar do oriente. As senhoritas, por outro lado, além do gosto, tinham uma razão ideológica para se reunir. As sufragistas, buscando que o direito de voto também se estendesse às saias, maquinavam as suas ações afirmativas entre um gole e outro. O chá era um símbolo da emancipação feminina. No entanto, ele não se resumia a isso, mas também era a ocasião de descanso em meio ao trabalho. No século XIX, de fato, reza a lenda que os empregadores da Inglaterra eram obrigados a conceder a todos os seus subordinados uma pausa diária para a conversa em meio aos aromas que um dia haviam sido estranhos e agora perfumavam os escritórios e as fábricas. 

Nesses intervalos e em outros, é muito possível que questão da finalidade do estado tenha surgido. Este ente imaginário, no entanto, não tem função alguma, mas serve somente para esconder quem detém o poder. O trabalho sujo de se meter nesses assuntos partidários tinha sempre cabido ao homem. No entanto, se as mulheres queriam dividir com eles ambos os fardos, não havia problema teórico algum. E mais: se, com esses novos deveres femininos, o cuidado da casa não ficava tão bem atendido quanto antes, o governo ganhava uma voz doce sobre um problema que a própria entrada das mulheres na vida pública havia criado: a educação dos filhos teria que ser terceirizada a particulares ou ao creches públicas. A hierarquia, no entanto, é ao contrário.
Vamos supor que exista uma república do chá. A aristocracia dessa cidade hipotética cuida para que não haja nenhum praga ou invasão inimiga que destrua as plantações e tenta melhorar a qualidade dos grãos. Abaixo deles estão os donos das terras onde o principal produto econômico é produzido. Eles, no entanto, não são em número suficiente para arar a terra, plantar as sementes e colhê-las. É imprescindível, então, que haja também empregados que façam esse e outros trabalhos. Todas essas funções são específicas e desempenhadas por homens. No entanto, nada impede que as mulheres sejam fortes o bastante. O que, porém, a modernidade fluida decreta do alto de suas cátedras é que não existe especialização dos papéis sociais, o que acabaria com qualquer feminismo. 

Como se não bastasse esse despropósito, a ideologia do gênero elimina a única coisa concreta digna do apreço geral: o bom senso aprendido através da mãe. Está aberta a porta para a tecnocracia, onde, embora se produzam muitas bebidas aguadas, ninguém mais trama revolução alguma contra os crimes legalizados. Seria, de fato, uma experiência interessante - e não só para o Sr. Fachin do STF– se cada município tivesse a liberdade para ser radical a favor da vida e da família. Isso, na longa fila das infinitas e justas reclamações femininas, é anterior ao direito ao voto. O estado é o lugar onde Napoleão se sente em casa, mas a mulher dele, com certeza, teria preferido passar a vida toda em Santa Helena.