segunda-feira, 15 de agosto de 2016
O Retorno da Vaca
Há dois modos de entender o estágio da secularização contemporânea. Uma, de corte mais sociológico e jurídico, consiste no reconhecimento cada vez mais acentuado da autonomia dos entes temporais e numa diminuição da poder da Igreja nesses assuntos. A segunda, mais direta, é a transferência deliberada dos valores nascidos a partir do cristianismo para uma esfera filosófica imanente, que se pretende radicalmente alheia à qualquer religião. Não há nessa última ataque frontal contra a Igreja. Pelo contrário, há a admissão de que os valores cristãos são positivos mas, ao mesmo tempo, há o pressuposto de que o único possível é a diferença do que foi feito até agora. A diferenciação, no entanto, não é prescritiva, mas sim uma condição de significado. Só o novo realmente diria algo. E o novo não tem só uma definição negativa. A sua positividade é a justiça social.
Os anos 60 na França são um marco na história dessa linha de pensamento, e seu âmbito é muitas vezes o da linguagem. Numa aula magistral sobre a destruição da Biblioteca de Alexandria, o professor Christophe Roco menciona de passagem a fecundidade da reflexão dessa época como algo comparável às filosofias de Platão e Aristóteles na Antiguidade. Depois que Sartre havia dito que não acreditar em Deus seria um tanto incômodo para quem quisesse preservar a moral, mas que isso era um fato inafastável, aparece uma geração de pensadores que, atolados nesse deserto, imaginam um oásis. Algo parecido tinha de fato acontecido na Grécia na medida em que a religião oficial tinha sido desacreditada. A interpretação que Derrida, um dos humanistas daqueles anos, faz de Voltaire mostra, no entanto, que havia uma solução de continuidade no do movimento para fora do círculo de influência do sagrado. "Quando trata de tolerância, o Dicionário Filosófico de Voltaire reserva à religião cristã um privilégio duplo." As prerrogativas são os elogios devidos àqueles primeiros cristãos que tinham dado a vida pela tolerância e pelo respeito. Essas ideias e outras como essas são o sempre novo.
Entre este Voltaire e o próprio Derrida, no entanto, havia o abismo de um escândalo. Quando isso acontece, há uma volta à violência de que a religião até então havia poupado a sociedade. Trata-se de mais um impulso irracional contra algo inofensivo. No caso de Derrida, a sua vítima é o conceito. Como bem nota Habermas, "o trabalho rebelde da desconstrução [...] tem o interesse principal de inverter o primado da lógica sobre a retórica." Isso, no entanto, não acontece só pelo sádico prazer de destruir, mas sim em nome do único que sobrava no deserto: a metamorfose indefinida do ser humano, que teria vindo literalmente do nada e não iria a nenhum lugar em particular. Assim é coerente que, não reconhecendo nada de fixo no homem, essa filosofia afirme o primado da retórica sobre um discurso mais científico. Seria injusto, no entanto, dar a impressão de que Derrida se acha um messias. Ele mesmo defende uma "messianidade sem o Messias".
Isso, porém, não é perseguição, mas tão somente uma indiferença um tanto afetada. A vantagem de não ser lógico é que não há um inimigo definido. Derrida não é contra nada que não seja a injustiça presente, segundo ele, em qualquer ordem, como se ela não estivesse presente - em dose mais do que suficiente - mais perto do que imaginamos. E essa guerra é empreendida também em nome do que ele afirma ser uma loucura: o perdão. De fato, se não há pecado pessoal, não há nenhum interesse pessoal em perdoar, e esquecer uma ofensa contra si é tão gratuito quanto descobrir, um dia, que se sofre de Alzheimer. "Com a transformação do pecado em culpa, e da violação dos mandamentos divinos em transgressão de leis humanas, algo certamente se perdeu."* O que exatamente se perdeu pode ser entendido com um fato recente da política brasileira.
Sérgio Moro condenou pessoas que haviam transgredido as leis. Se, no entanto, ele fosse um discípulo ideal de Derrida e tivesse perdoado a todos os criminosos, ainda que esses dissessem que iriam fazer tudo de novo na primeira oportunidade, haveria aí um perdão dionisíaco, incondicional, ilógico, como nunca antes se viu. Quando a misericórdia é uma loucura, a civilização vira um hospício. Essas e outras messianidades, no entanto, são melhores do que qualquer nihilismo. A vaca voltou do brejo!
* Essas e outras citações são tiradas do artigo "La Secularización de la Cultura Contemporánea", de Massimo Borghesi.
domingo, 7 de agosto de 2016
Um Limite da Boa Educação
Há certos assuntos que, ainda que necessários, devem ser tratados com uma máscara anticontágio. Flávio Morgenstern, resistindo à tentação da indiferença, já disse quase tudo. O tratamento midiático do caso Biel é estranho porque, à primeira vista, parece ser algo bem intencionado. No entanto, é um delito em que, como diria Girard, a mão direita não sabe o que faz a esquerda. E o que a esquerda faz é relatar o assunto como se fosse um caso pertinente somente às leis promulgadas pelo Senado Federal, depois de um longo processo e infinitas discussões técnicas, e não algo bem mais simples.
Biel, depois de assediar uma jornalista, perdeu a fama. Saber qual foi a razão última pela qual o funkeiro não é mais uma celebridade é algo que ultrapassa em muito a capacidade de um blogue. No entanto, uma coisa é facilmente identificável em meio às notícias sobre o tema. Biel dividia as pessoas em duas categorias: as interessantes e as desinteressantes. Distinguir um cavalo de outro é algo que pode ser feito sem maiores problemas, mas mexer com seres humanos e sair impune não é tão fácil. E, ó ironia!, foi alguém tida por ele como interessante que lhe mostrou isso.
A indignação geral da nação, no entanto, é um pouco exagerada. Se a carreira de Biel tivesse sido sacrificada em troca do apreço pelo pudor, qualquer hipérbole estaria justificada. No entanto, não foi assim. Além disso, há uma atenuante silenciada. Quando disseram ao Biel que ele podia bancar o bom selvagem, ele acreditou por pura inocência. Quem, desde a década de setenta ousa dizer publicamente que sexo pode ser uma tragédia? Ninguém. A próxima vítima, obviamente, será a educação, como se essa pudesse resolver o problema. Podem dizer que, no final das contas, era o professor ou o pai de Biel que tinham o dever de lhe ensinar as regras de como se comportar com a elite intelectual do país, que, no momento, faz e desfaz a opinião pública segundo a agenda do gênero. A tática do discurso é claramente dar peso à vontade individual e tirar importância da ética. Assim, o professor de Biel deveria ter explicado que o consentimento é tudo. A educação, porém, não é o remédio.
A vítima principal do caso é uma jornalista, mulher e, se não fosse pela lei, indefesa. O que mais impressiona nas suas falas é que não foi a falta contra a virtude do pudor a razão pela qual ela se sentiu ofendida. À sem-vergonhice de Biel ela poderia, tranquilamente, ter oposto uma defesa do respeito mandando-o por exemplo voltar para o chiqueiro de onde escapou ou qualquer outra resposta nesse estilo. No entanto, ela é um vítima completamente ingênua, como mais um bom selvagem que ignora o pecado original. De fato, a senhorita admitiu que, antes do assédio, foi simpática com seu algoz. A julgar pelo desfecho, ou ela de fato não queria nada além de uma entrevista ou ela se arrependeu logo que viu de perto a fera. Portanto, o único motivo pelo qual ela foi simpática é justamente a boa educação. Ser civilizado às vezes facilita a invasão dos bárbaros.
quarta-feira, 29 de junho de 2016
A Companhia dos Cães Solitários
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| "Para que mímese se torne completamente antagonística, o objeto tem que desaparecer." Girard. |
O objeto nada mais é do que o foco da memória. Em casos extremos, ele nunca é completamente apreensível. No entanto, é possível conquistar uma acúmulo de indícios que redundem numa certeza. Do contrário, o inconsciente freudiano seria só uma mística de quinta categoria. Maquiavel não era consciente das consequências desastrosas de sua filosofia moral, e uma delas pode muito bem ter sido o idealismo alemão. Para efeitos da Tuba, esse pode ser definido como a identificação confusa entre a razão e o mundo. Hoje, por exemplo, vige a moda de que, fora da academia, é extremamente complicado dedicar-se aos livros. Essa ideia, no entanto, não é completamente certa. Conheço gente que lê bem, mas nunca foi adestrada nos rigores uspianos, que até têm a sua utilidade mas não são imprescindíveis. Tomá-los por pressuposto impossibilitaria a cultura fora do quadrado acadêmico.
Na medida em que os fins justificam os meios, e o fim nada mais é do que um projeto ambíguo, qualquer besteira está justificada. No marxismo, como bem lembra o Olavão, a redução racionalista é prospectiva e acaba no exato oposto do paraíso do proletariado. Na poesia, as consequências não são tão graves. No entanto, há uma certa indisposição que, transformada em versos, é tão incompreensível quanto o erro político. Reclamar das canções que expressam sentimentos líricos faz terra arrasada de metade desse labor excelso das palavras que é a poesia.
De fato, um dos correspondentes da Tuba no Recife descobriu, num espólio abandonado, um manuscrito inédito que tudo indica ser uma emulação de "A Casa Vazia." Como não se trata da caligrafia do autor desta maravilha, Alberto da Cunha Melo, mas sim de uma letra mais clara, que às vezes era deixada para trás sem ter sido completada, alguns dizem que deve ser de um amigo mais velho, médico e viúvo convicto, que também fazia uns versos bissextos e era bastante competitivo. Para ele, o poema em questão era um convite a abandonar o individualismo. Senão, vejamos:
Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,
para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,
uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,
ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.
Depois que sua esposa faleceu, o doutor tinha resolvido dedicar-se completamente ao trabalho e não ia a festas de nenhum tipo, o que Alberto não achava bom porque impossibilitava que ele encontrasse uma nova companheira. Quando o esculápio leu a "A Casa Vazia", achou primeiro, como vimos, que seu tema era a própria escrita, o que costuma ser chato. No entanto, perdida a objetividade, viu que era possível interpretá-lo trocando o referido usual do vocábulo "poema" pela arte de devolver a saúde aos doentes. Assim o "deserto particular" se transformava no seu tão louvado hospital, que para ele tinha sempre sido uma poesia cheia de transcendência. Alberto seria bem capaz dessas zombarias sofisticadas. Muito lógico e fulo da vida por, dentro do texto, ocupar o lugar do cão, o médico respondeu latindo assim:
Iracema nenhuma, nunca,
Será para mim uma princesa,
Nem roçará em minha nuca
para consolar essa tristeza.
Às lágrimas que choro agora
Basta um lenço... e vão-se embora.
Ser um Batista solitário,
Os cães dizem que é muito estranho,
Pois é do amor ir pareado.
Mas, noite e dia, há companhia,
Mesmo numa casa vazia.
quarta-feira, 22 de junho de 2016
A Clandestinidade do Aborto: Uma Luz Que Ainda Brilha
O diálogo que segue é uma reprodução exclusiva de A Tuba. Ele não passa de uma conversa em busca da verdade. Juliano é um nome fictício de um rapaz escandalizado pelo boato de que a causa abortista ganharia força. Carlos, também um personagem real disfarçado, é um advogado de um escritório paulista e aluno uspiano do programa de doutorado em Direito Econômico.
Juliano: A escolha de Flávia Piovesan vai matar as criancinhas.
Carlos: Olha: eu não nutro simpatia por ela. Mas cadê a fonte dessa afirmação da Flávia Piovesan?
Juliano: Está aqui nessa entrevista. Ela é favor de eliminar o bebê que vai nascer. A Flavinha diz como se fosse algo pacífico: "É consenso que o aborto deve ser visto como caso de saúde pública e não como caso de polícia. É lamentável a morte de mulheres em razão da prática do aborto ilegal". Matar um feto é como matar um adulto doente, que também não tem autonomia. Se um ato é um homicídio, o outro também é.
Carlos: Ela não é a favor de "eliminar o bebê que vai nascer". Só disse que o aborto é uma questão de saúde pública, não de polícia. Meu amigo, você é capaz de mais do que um silogismo barato.
Juliano: As mulheres têm direito sobre o próprio corpo. O feto, porém, não é o corpo dela. Imagina que você tem um apêndice estragado. Você o extirpa porque é desnecessário. Mas o feto, à medida em que os anos passam, mostra que era mais do que um órgão supérfluo. Se você tivesse sido um apêndice arrancado, eu não poderia conversar com você. Esse tipo de perspectiva temporal falta aos defensores do aborto. Eles acham que um feto não cresce.
Há um sério risco de a legitimidade da interrupção voluntária da gravidez ser baseada numa concepção da racionalidade atual. Ou seja, se o feto não pensa em ato, ele não é tão merecedor de ser amparado pelo Código Penal quanto um adulto. Trocando em miúdos, ele morre por ser quem é, o que é mesmo que matar alguém por ter nascido pobre ou preto. Certamente, alguém dirá que a analogia não se aplica porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. De fato, uma coisa é uma coisa, mas o feto talvez não seja.
Não há dúvida de que o bebê na barriga da mãe pode ser algo completamente distinto de uma pessoa. No entanto, a possibilidade de o feto não ser uma coisa é um fato. Em suma, o abortista é alguém que assume o risco de matar alguém, o que caracteriza um assassinato.
Para apoiar o Michel Temer é necessário um mínimo de convergência, o que depois disso se tornou impossível. A outra oportunidade era Eduardo Cunha. Todavia, ele, cuja esposa de fato gasta um pouco acima da média, é mais uma vítima da ditadura do judiciário, que se mete onde ele não é chamado. O núcleo democrático é a Câmara, que supera em representatividade inclusive o Senado. Se alguém troca o deputado escolhido pelo povo pela retórica constitucional, está aberto o caminho para a guerra de todos contra todos. A lei, de fato, nunca foi capaz de condenar os crimes perfeitos.
Os advogados tendem a dizer que a solução para a crise familiar que desemboca no aborto é o respeito às normas regularmente promulgadas. A técnica legislativa é assim adotada como Deus ex machina. No entanto, ainda que fosse legal, se um crime não deixa de ser injusto porque é aprovado pelo parlamento, muito menos se a única justificativa é a chancela do poderes executivo ou judiciário. O único remédio possível é acabar com a família antes que ela acabe com o bebê. Uma maneira de fazer isso sem destruí-la por completo é permitir que os pais decidam para onde enviar o filho.
A legalização do aborto causaria mais problemas na medida em que, ao contrário do propagandeado, aumentaria ainda mais a clandestinidade ou nível de inconsciência do injusto. Se as clínicas que cometem o crime hoje não o fazem com transparência é porque ainda resta na sociedade uma luz. A melhor maneira de entender isso é enxergar que, por mais hábil que seja um orador ou um governante, há certos mecanismos que tem uma objetividade própria. Matar em série é algo que prejudica não só as vítimas, mas também os fatos, que então são varridos para debaixo do tapete como se nada tivesse acontecido. Foi assim com os eugenistas, que esqueceram mais uma vez o que é a igualdade e que, em 1974 num congresso em Nova Iorque, cogitavam de novo a sério o determinismo gênico como razão de estado. Olhar para trás e ver que um discurso justificava a iniquidade aumenta as trevas.
Os gregos já tinham previsto tudo. E isso fica patente não só no mito de Ícaro, mas também em outro menos célebre. Contam que Dédalo havia ensinado a Talos, um rapaz mais novo, as artes que conhecera. No entanto, Talos, depois de ter recebido a educação, pagou por ela um preço caro. Ele foi assassinado por Dédalo. A técnica legislativa é um ótimo instrumento contra a tirania. No entanto, ela é impotente contra a sociedade que a criou. Logicamente, para esconder seu crime, Dédalo inventou que tudo havia sido um acidente. Na esfera laicista, essa é a saída para os que cometeram um delito: dizer que não sabiam, e que foi tudo um erro não intencional. Mas, depois, pedir uma nova chance ao povo seria abusar da sua paciência.
domingo, 19 de junho de 2016
Uma Espera Iugoslava
O surfista de Saquarema, tendo ouvido que há novos Homeros
na Iugoslávia, deixou a praia e foi passar um pouco de frio naquelas plagas.
Não conseguiu achar ninguém que cantasse exatamente como o primeiro entre os
bardos, mas trouxe consigo uma amostra de que a rapidez da civilização ainda
não fez seus estragos por lá. É uma canção sobre a espera, e a sua tradução
inédita é cortesia da Tuba, algo que ela espera continuar fazendo com a
ajuda dos leitores:
Por entre
os campos de inverno
Em tudo
brilha a luz clara,
No azul do
céu e da água,
No invisível
inseto.
São lugares
bem alegres!
E não lhe falta
o trabalho
De homens agasalhados
De certo
manto perene.
A borboleta em larva
Promete uma primavera
de colorida algazarra.
Mas vem vindo de outras eras,
Sem ser nada dado à farra,
O tempo que tudo encerra.
sábado, 11 de junho de 2016
Mais Uma Transversalidade
A única bandeira é a verdade, e o resto que se exploda. É frequente, no decorrer do tempo, que os gênios sofram algum tipo de incompreensão. Mommsen, quando escreveu a sua História de Roma, colocou, em meio a indagações que poderiam ser provadas, uma hipótese de difícil evidência. A classe sacerdotal da capital italiana teria influenciado secretamente a política. Quando um assassinato ocorre e o crime é perfeito, não há testemunhas. Se os senadores que tramaram a morte de Júlio César pediram conselho a alguém que, com uma veste talar cinza, resolveu, numa taberna podre, ir além dos augúrios em troca de algumas moedas, ninguém jamais saberá. Do mesmo modo, a única fonte dos feitiços da Idade Média são os historiadores que, pobres coitados, por um estranho dever de ofício, são obrigados a considerá-los palavras sem nenhum efeito, como se não houvesse outro ser estranho disposto a emprestar-lhes a eficácia do mal, que algumas vezes é só a confusão.
Outra hipótese difícil, sem a qual o debate atual sobre ideologia de gênero não aconteceria, é o de que não há diferenças entre homem e mulher. Aqui, porém, há provas diretas contra essa opinião. A virilidade e a feminilidade seria uma só coisa mutável. Rafael, outro gênio com quem conversei ao vivo hoje – há muitos outros por aí e diversíssimos – foi a uma audiência pública para tratar do tema. Ele não tinha preparado discurso algum, mas, como via que os marxistas falariam, resolveu imitá-los e também se inscreveu para deixar seu recado. Não há nada que seja tão perigoso quanto tomar um inimigo por modelo, mas foi exatamente o que esse cidadão corajoso fez. Depois de argumentar como um jurista competente, embora seja só um estudante de medicina, ele teve que escapar de mais um jumento alado. Uma senhora, depois de ouvir argumentos a favor da família, que lhe soaram à velharia, exortou-o ironicamente a respeitar os anciãos que, como ela, eram a favor da transversalidade. Há um mistério nessa palavra, pronunciada bruscamente, cortando a linha reta que ligaria a terra ao céu.
Uma transversalidade chama a outra e quanto mais, melhor. A outra em questão, que complementa a igualdade horizontal, é a laicidade vertical. Não é simplesmente arrancar o crucifixo e substituí-lo por qualquer outro sinal mais vago e menos histórico. A transversalidade não vale nada se ela significa uma confusão sentimental em que não há hierarquia alguma. Ou seja, ou os mais fracos são identificados e cuidados contra toda tentativa de esquecê-los numa busca idiota do prazer, ou o qualquer tentativa de inclusão social é papo furado.
A identificação preventiva da vítima se dá através de um processo de objetivação. Não se trata somente da criança solitária e indefesa, mas sim de um prejuízo para o bem público, que, no jardim da modernidade, é a flor mais mimosa de todas. Trata-se, evidentemente, da democracia, cujo fundamento é uma retórica filosófica e, portanto, antissofística. Fere o princípio da não-contradição que alguém use, num debate dentro de uma casa pública, um discurso ambíguo, valendo-se das suas verdadeiramente veneráveis cãs a favor de um pseudoprogresso contra a virtude. Se a transversalidade da jovenzinha com cabelo branco tivesse cruzado o caminho de uma espada, o caos teria se instaurado.
Uma transversalidade chama a outra e quanto mais, melhor. A outra em questão, que complementa a igualdade horizontal, é a laicidade vertical. Não é simplesmente arrancar o crucifixo e substituí-lo por qualquer outro sinal mais vago e menos histórico. A transversalidade não vale nada se ela significa uma confusão sentimental em que não há hierarquia alguma. Ou seja, ou os mais fracos são identificados e cuidados contra toda tentativa de esquecê-los numa busca idiota do prazer, ou o qualquer tentativa de inclusão social é papo furado.
A identificação preventiva da vítima se dá através de um processo de objetivação. Não se trata somente da criança solitária e indefesa, mas sim de um prejuízo para o bem público, que, no jardim da modernidade, é a flor mais mimosa de todas. Trata-se, evidentemente, da democracia, cujo fundamento é uma retórica filosófica e, portanto, antissofística. Fere o princípio da não-contradição que alguém use, num debate dentro de uma casa pública, um discurso ambíguo, valendo-se das suas verdadeiramente veneráveis cãs a favor de um pseudoprogresso contra a virtude. Se a transversalidade da jovenzinha com cabelo branco tivesse cruzado o caminho de uma espada, o caos teria se instaurado.
sábado, 28 de maio de 2016
O Preço do Gosto
A Arcádia era uma terra muito longínqua, onde os pastores, que nunca precisaram da civilização, moravam. Nela, não havia espadas, nem arado, nem a experiência de qualquer conflito. Todos cuidavam de suas ovelhas. Como, porém, a monotonia delas cansasse algum racionalista de antanho, foi necessário que se inventasse a flauta como distração. Este foi o começo de uma tragédia, porque se antes as relações eram simples - os frutos eram colhidos das árvores e a carne era fornecida pelos animais -, agora o doce instrumento precisava ter um preço. A partir daí surgiu a cidade, em que não há só pessoas, mas também a compensação do comércio. Quem tocou a flauta quis receber um um salário, que, todavia, não é sempre necessário.
No governo, de fato, o princípio da compensação é aplicado de maneira diferente. Se um carpinteiro não produz nada, ele não tem o que compensar. Um presidente, por outro lado, se é prudente, ainda que não faça nada de concreto, merece alguma contrapartida. Além disso, o princípio opera não só na remuneração dos vereadores e quejandos, mas também na sucessão do governo. Ter o poder é algo que, por imitação, todos desejam, mas ele se torna ineficaz se não há quem obedeça. Portanto, o melhor é que todos, em algum momento, ditem os rumos da sociedade. O pré-requisito é que estejam dispostos a sacrificar os seus interesses. Do contrário, a cidade se transformaria numa oligarquia ou mesmo numa tirania.
Nosso poder, no nível animal, manifestava-se na posse de um território dividido entre todos e não mudou muito. O interessante, porém, é que a coisa comum nem sempre é útil. Os macacos, por exemplo, dividem não só a área onde vivem, mas também a árvore onde tacam as pedras, o que talvez seja um hábito hereditário de algum sacrifício pacificador. Esse bode expiatório, que seria simbólico se houvesse referencialidade múltipla, também é uma espécie de compensação, porque vítima igual ao agressor desaparece do plano fático, uma ausência particularmente louvável.
O princípio da compensação, portanto, pode ser definido como a origem do processo de diferenciação do trabalho em várias guildas. Se há um registro público, também é necessário que haja quem o leia e informe algum herói capaz de agir e que haja quem obedeça. Há, no entanto, um ponto em que a analogia, passando pela memória, a vontade e a decisão, não pode ir adiante. O bombeamento do sangue, que distribui oxigênio, não pode ser realizado somente por quem detém o poder. Do contrário, se o espírito soprado desde o Ministério da Educação for um veneno, a unidade pode até existir, mas ela não vale nada. É necessário que haja financiamento privado de fundações para que o totalitarismo não tenha chance e para que a cultura geral, requisito básico para qualquer tarefa que não seja esfregar o chão, seja difundida sem muito viés ideológico.
Até aqui, não há a menor necessidade de dinheiro, já que para fazer um intelectual trabalhar basta uma cerveja. O salário só é indispensável na medida em que a liberdade é possível. Se todos os produtos são iguais, não há por quê ficar perplexo entre um sabonete Dove e um Monange, cujas diferenças reais ninguém sabe. O salário, no entanto, é um meio de evitar a semelhança de desejos que, se muito intensa, gera um certo desconforto. A coisa fica clara ao considerarmos a variação das arquiteturas. Um bem espalhado por toda a sociedade deixa de ser atraente. Surge, então, a necessidade de compensar a sua falta por um algo diferente, o que só é possível se houver a liberdade subcriativa e o correspondente financiamento. O capitalismo é o preço insubstituível do gosto.
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