sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um Pedaço da Memória de G. K. Chesterton








O desejo mimético mostra que ao tentar destruir o outro, o que queremos é impedir que ele conquiste o bem cuja beleza nos encantou. Não se trataria, portanto, de uma má ação, mas sim de um meio imprescindível para a eficácia. Há, porém, uma maneira de falar mal que é como música. E uma dessas canções oníricas, que termina bem depois de um início estranho, é a que canta Chesterton quando diz que os americanos são antiquados. Empunhando a espada da ironia, ele assim corta os seus leitores em dois: só aqueles que entendem que o próprio Chesterton defende causas tão veneráveis quanto o começo do mundo riem. Ser antigo é absolutamente necessário. É uma delícia olhar para trás e rememorar a época em que a atenção da mídia estava voltada para um só ponto. E aí estava justamente o próprio Chesterton, o que mostra não ter ele cedido à falsa humildade de não falar de si mesmo em público. Ao contrário do que alguns acham, Chesterton é tão extrovertido quanto Mr. Micawber.
 
Mas esse passado, como a origem girardiana, é violento. Nele o autor do relato se lembra de um empregado de um jornal americano cujo estilo era diferente do seu. Segundo Chesterton - o duplo que é ao mesmo tempo narrador - a América é a terra da propaganda, e isso influenciaria a redação dos periódicos. Alguns acham que isso deveria ter sido dito literalmente, mas a letra não importa. Sem nenhuma dúvida, ele identifica os americanos com os chineses, uma vítima antiga do Império Britânico. Surge, porém, uma saída para a crise mimética. Chesterton admira Nathaniel Hawthorne pela sua técnica e Walt Whitman pela sua força e sinceridade. Eles, porém, não são conhecidos pelo jornalista cogitado, cujo modelo é antes algum autor famoso de comerciais televisivos. Se a mediação externa não é comum, os duplos se aproximam... e o combate começa.

Contra as ideias contidas nos jornais, Chesterton afirma que o homem é livre e que toda a futurologia é uma inversão da prudência e uma selvageria. Isso é evidente, mas alguns se preocupam com a previsão do PIB, cuja cientificidade é atestada pela precisão numérica. Eu também me preocupo com isso, já que menos dinheiro pode significar menos lazer e menos cultura. E a precisão matemática, que é o prêmio da disputa, cresce até ocupar todo o campo da visão. A ciência não é infalível, mas algumas vezes ela posa como se fosse. E, para conseguir uma aparência de credibilidade, ela se adorna com o atributo da quantidade exata. Não importa qual é a diferença específica de um átomo de carbono, uma questão sobre a qual é impossível falar por mais de um minuto. O que importa é quantos elétrons ele pode ter, e isso qualquer pessoa prática entende. Essa precisão, no entanto, pode ser desviada para fins sinuosos, como quando se tira uma estatística da manga para provar que o número de ateus tem crescido. Isso, obviamente, não leva em conta a tendência indígena ao drama e a portuguesa ao fado. Que Deus tenha morrido é algo triste e belo, e confere uma aura de Fernando Henrique Cardoso a Jair Bolsonaro.

Toda essa batalha, no entanto, pode ser vazia e terminar numa festa. De fato, Chesterton não tem certeza sobre a verdade do relato do jornalista. O objeto da discórdia, porém, existe. Ele percebe e o diz com toda a clareza: não há identidade entre o que ele sabe que a ciência é desde há muito tempo e o que vai impresso com as letras do prestígio desde outro dia, quando Gutenberg inventou a imprensa. No entanto, é essa imagem falsa que se espalha, e a democracia pode ser enganada. Chesterton termina com elegância e faz com que o clima volte à tranquilidade. Ele já tinha feito algo parecido ao forjar um adversário hipotético como quem não deseja entrar em conflito com nada que seja mais que um pesadelo. Agora, o seu toque de mestre é se identificar com a sua vítima de tal maneira que ele se torna o seu modelo através da maioridade do desejo. Ele também prevê um futuro - não só, porém,  como quem faz ciência, mas sim com toda a intensidade de quem enuncia uma profecia terrível. Todavia, por trás da seriedade de uma maldição, lateja sempre um afeto.

"Eu acredito que a terra gira em torno do sol; mas eu não mais acreditarei se Thomas Edison afirmar que aço e concreto girarão em torno da terra. Se você nega o que os homens sabem à luz do que eles não sabem, eles simplesmente resistirão à ciência de uma vez por todas; e a grande obra do século XIX será perdida por séculos."

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

As Duas Democracias



Os matemáticos são pessoas tão focadas que perdem a capacidade de ir de um conceito para o vizinho. Nas ciências humanas, porém, dançar entre a etimologia e o significado é uma habilidade sempre a ser conquistada. O termo democracia, por si só, não diz mais que o governo da maioria. A maior parte do movimento democrático atual, porém, sonha como uma espécie de técnica social que substituiria o significado de poder do povo pela garantia de que os grupos diversos não se aniquilem uns aos outros, mas acabem com qualquer maioria.

De fato, ninguém apela para o critério quantitativo, que ganha vida nas assembleias dos cidadãos, onde a posição que contava com mais votos, fosse ela qual fosse, seria a aceita. E o Olavo de Carvalho também não o faz porque ele não é bobo. E também, imagino, porque a verdade é que há muitas razões para abandonar a ditadura da superioridade numérica. Talvez as melhores são para que as diferenças, que não são más em si mesmas, sejam respeitadas e para que a sociedade seja preservada como um espaço de convivência que não se reduza à mera concordância. Alguém precisa escrever ou me indicar um estudo liberal sobre esses fatores. Uma opinião, no entanto, é impossível. Se a conclusão mostrar que de fato a maioria é uma opção superior à tecnocracia, quase ninguém das humanidades o levará a sério.  E a razão da turminha eu já dou aqui, porque é tão fácil quanto qualquer tautologia: um governo não científico, gente, não é científico.

domingo, 2 de outubro de 2016

O Enigma dos Anões




“Os talentos desse ‘caleidoscópio da vida’ 
devem se adaptar à evolução do mercado e do mundo.”
Biólogo Evolucionista
(Disfarçado de Administrador de Empresas)

Onde o talento é um anão,
A autoestima é um gigante.
Seu Lunga
(depois de aprender na FFLCH como dar indiretas)


Na prática, a comunidade nem sempre deixa o trabalho intelectual ser possível. Mas o principal defeito do pragmatismo é, diante da primeira aporia, jogar a toalha, como se toda a história da ciência fosse uma sucessão de contradições, e a única solução fosse descobrir o consenso da galera. Uma ideia sempre tem algo a ensinar, ainda que não seja uma explicação perfeita. A discriminação, por exemplo, que teria sido refutada pelos estoicos, ainda contém uma lição indiscutível. É, portanto, inaceitável a afirmação de que a situação da Colômbia é complexa demais para ser entendida. Alguns bandidos querem o direito de ser cidadãos e, no entanto, eles merecem no máximo a tolerância de não serem presos. Se a maioria da população quiser sacrificar a sua tranquilidade em troca de inclusão, trata-se de um ato heroico de liberalidade, próprio de um rei.

E qualquer um que teve um pai sabe quem é o rei da floresta.  Há, no entanto, várias maneiras de entender o significado disso. É possível, a partir daí, afirmar que o leão tem o domínio sobre os demais animais de dois modos. Ou - o que seria falso - ele impera pelo medo, ou, como aconteceu com as formiguinhas lá de casa, ele tem o reconhecimento dos demais. Da mesma maneira, quando alguém, adulterando a séria tradição das fábulas, diz que não é a juba o ápice a criação, há também algo vago que precisa ser definido. Se não é ele, é a turba. Ninguém, no entanto, sabe quem ela é, e o máximo que eu posso fazer aqui é identificá-la como a tal da opinião pública.

No entanto, nem todos são como Thomas Bastos e buscam convencer com as palavras. Há outros que, como Marcola, ameaçam arrasar com as armas. A hierarquia é clara entre esses dois modos de ir pela vida, já que a violência é inferior mesmo à mais baixa das retóricas. De qualquer maneira, entre essas duas maneiras de ser há algo em comum. Ambos, de certo modo, tentam fazer com que a interesse de um certo grupo prevaleça. Existe, no entanto, um âmbito que é mais conturbado do que o do causídico e o do seu cliente: o da medicina. Aí pode haver uma conflito interessante entre o doce paciente e o seu doutor.

E é precisamente aí também que reside o argumento da diferença, uma realidade que, silenciada pela ideologia do gênero, tem causado algum estrago. De fato, poucas vítimas têm sofrido tanto na mão da opinião pública quanto a discriminação, esse hábito terrível de perceber que um picareta é um picareta e que nem todo trabalho marretado é acochambrado. No entanto, seja-me permitido um anacronismo para explicar a coisa. Se, quando o Brasil sequer existia, um índio defendesse que a melhor dieta para um colega de tribo era uma erva de gosto amargo, ele estaria em maus lençóis. Se, por acaso, ele ousasse  dizer que era necessário torturar o paladar de alguém que já estava doente, a turba talvez ficasse escandalizada com tamanha desfaçatez em propagandear o mal. No entanto, se a erva amarga fosse um remédio, a discriminação salvaria uma vida. Essa fábula, no entanto, eu temo não ser só um anacronismo, mas também uma falsidade atual.

Tratar todos como iguais, assim,  é viver no tempo dos aborígenes. Outra discriminação imperiosa se dá quando o tema é a saudade, um dos sentimentos mais caros aos fãs do fado.  Quando um marinheiro deixava o Tejo para se divertir na América, ele deixava nos olhos lacrimejantes das mães a marca de uma ausência. Nunca existiram, porém, duas nostalgias idênticas, porque as presenças tinham sido distintas. E isso é óbvio porque, embora o mesmo fado seja cantado por duas senhoritas, as verdades por detrás de qualquer poesia não são as mesmas. De fato, não existem duas pessoas iguais, alegres ou tristes. Assim, da próxima vez em que alguém citar Tolstoi para dizer que cada família é triste à sua maneira, o melhor a fazer é lembrá-lo que qualquer ser pessoal, sorridente ou choroso, só é se for do seu jeito.

No entanto, a discriminação não está presente só na distinção que separa a saúde da doença e a lembrança da vaga ideia de que algo foi perdido. Há empresas e universidades que se acham no direito de julgar a disciplina dos outros. E o parâmetro do juízo algumas vezes não é - sinto informar aos ingênuos - a moral universal. Pelo contrário, o critério para saber se um funcionário é bom ou não é o interesse da própria coletividade, que tem a força de um imperativo categórico. Assim, aplica-se a esse tipo de situação o que Nietzsche dizia acerca da fonte da ética. Para ele, a moral sempre diz de si mesma que ser a única origem do certo e do errado. A moral, portanto, louva-se a si mesma como causa incausada, o que seria estranho.

Isso, no entanto, não chega a ser uma aporia, porque só é possível saber que a moral deveria ser condenada porque ela mesmo nos deu, antes, o argumento a favor da humildade, uma amostra clara de falta de amor próprio.  Além disso, muitas vezes as pessoas aceitam que avaliem o seu desempenho. A autocrítica não é possível na situação atual da humanidade, quando o interesse na própria imagem é forte demais. E a solução é, portanto, que o chefe exija algumas melhoras antes de mandar o emprego passear, porque, enfim, assim talvez o que não nunca deverá ter acontecido não aconteça. No entanto, convém que esses milhares de pequenos empreendimentos não se destruam a si mesmos confundindo a dificuldade de conhecimento próprio com o atrativo de ser besta.

Ser besta é bom porque se o próprio funcionário fala mal de si mesmo, não é necessário mais nada  para negar um aumento salarial. No entanto, o obstáculo da autoavaliação é duplo: ele não só impede o reconhecimento dos próprios defeitos, mas também torna mais complicada a apreciação dos próprios méritos. E, se nem o chefe percebe isso, um funcionário que seria ótimo em outro lugar vai embora. Quando Maquiavel afirma ser a república superior à monarquia, este é o seu assunto. A flexibilidade do primeiro tipo de estado permite que o problema não seja resolvido somente de uma maneira, mas sim de várias. O príncipe, porém, é incapaz de aceitar que outro toque no leme da embarcação.
Uma vez devidamente morto o déspota, é um erro achar que, no regime que o sucede, todos querem governar. Ter um cargo de governo é viver de correria em correria, algo bárbaro. Quando a Pandora - protótipo do Spotify, e ninguém se lembra dela - cresceu, alguns dos fundadores debandaram. Eles não aceitavam ditar a vida de outras pessoas. A vontade de permanecer pequeno e não escalar na pirâmide social é algo mais radical do que ser besta. Enquanto esta acha que é só desagradável dizer não às pessoas quando elas já não são interessantes, o desejo dos anões simplesmente não admite sequer estar na posição de ter que fazer isso. A aporia dessa questão, no entanto, é tão grande que ela se transforma num enigma. É impossível saber se os pequenos desprezam o ato de governar os outros porque eles temem ser descobertos como príncipes ou porque eles simplesmente teriam uma tarefa diferente para realizar. Portanto, da próxima vez em que você quiser ter um bom sentimento e sentir pena de um marquês em traje de plebeu, é bom estar alerta: há certos erros que foram planejados.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Uma Vitória Passageira dos Bárbaros


Nós começamos com os bárbaros e vamos acabar com eles. No entanto, ainda não foi dessa vez. André Baco, um dos colaboradores da Tuba, achando-se douto o suficiente para se tornar um, digamos, mestre quando o assunto é a originalidade em Plauto, como ninguém lhe havia dito nada em sentido contrário, foi em frente e desafiou a Maior Autoridade para um debate de alto nível. Ele, de fato, havia dito na banca de qualificação que havia dois elementos da comédia plautina. O primeiro é grego, e o outro é romano. Como, no entanto, é impossível ter certeza física sobre de onde saiu cada um dos versos, o jeito era analisar o estilo e, principalmente, as referências. Se, por exemplo, há uma menção à justiça, é bastante razoável que a coisa seja romana, já que os gregos tanto não tinham preocupação com a equidade que não produziram nada parecido com o direito romano. O mesmo acontece se há uma menção às saturnálias, uma festa religiosa do Lácio. Que essas e outras romanices destoavam do ideal da arte grega não é algo a ser desprezado.

No entanto, isso, além de ser a opinião de Fraenkel - uma Maior Autoridade Internacional já falecida - é o que não poderia ser: senso comum. Durante a banca de qualificação, de fato, o professor Alexandre Hasegawa - que, embora não tenha nada de sagrado, tampouco tem algo de vaca - avisou ao nosso amigo que a Academia não tinha nada a ver com senso comum, e que, portanto,  a referência dos conceitos deveria ser expressa. Isso faria, por exemplo, com que se soubesse se a imitação era platônica ou aristotélica. Como, todavia, não há diferença entre Aristóteles e Platão dentro do senso comum, o contribuinte da Tuba não seguiu essa recomendação, concentrando-se na análise da discurso. O professor Alexandre havia dito que as figuras de linguagem são importantes, ainda que sejam mera retórica. Portanto, foi necessário mostrar que a peça não é muito diferente de um argumento jurídico criativo, algo que o pessoal do filme Getúlio tentou em vão fazer. A diferença entre o fórum e o teatro é que, diante da plateia, não há a necessidade de base legal, e diante do juiz há um dever de clareza que não está presente na ficção. Uma alegoria, por exemplo, não cai bem no discurso de um advogado que quer se fazer entender, mas é a única saída para um dramaturgo que não podia se manifestar de outra maneira.

A Maior Autoridade, cujo nome não somos dignos de enunciar, não tinha nenhuma objeção contra o senso comum. Pelo contrário, tendo, desde o começo de sua carreira, evitado qualquer atrito com os seus colegas de Academia à força de acompanhar as modas metodológicas, ela sempre seguiu a platitude de que ficção é ficção, e qualquer relação com a realidade seria mera coincidência. Porque, uai, ninguém pode saber com certeza que Plauto entendia o que era verossimilhança. Assim, não haveria lugar para um estudo sobre um autor que, pasmem!, ousasse misturar história de Roma à arte dramática romana. No entanto, talvez a Maior Autoridade tolerantemente aceitasse essa interdisciplinariedade se não fossem algumas outras ousadias.

André, no entanto, não deseja a misericórdia da tolerância, mas sim a reciprocidade da justiça. Se ele, quando concordou com o que a Maior Autoridade dizia, não deixou de louvá-la por escrito, por que ela também não faz o mesmo? Pelo contrário, ela teima em se fazer de desentendida mesmo diante das maiores obviedades. O contribuinte da Tuba diz também que uma tradução deveria ser completamente fiel ao original quanto ao gênero e deveria diferir dele sempre que fosse necessário para tornar o que era claro ontem claro hoje. Se a Maior Autoridade tivesse falado contra isso e não contra algumas notas de rodapé ou a falta de ordem alfabética na bibliografia, André estaria satisfeito. Mas a tempestade fatal, que deixou o barco do André navegando sem rumo nesse mar sem margens da sabedoria, foi a objeção da cientificidade. Seria impossível conjecturar um possível erro na edição da Harvard. Emitir as próprias impressões, enfim, seria um crime segundo a concepção moderna de um mestrado bem feito.

E uma das impressões que não foi reconhecida como verdadeira era de que a Maior Autoridade está errada ao não aceitar como científico algo que, embora fora de moda, não foi refutado: a ideia simples, enunciada pelos próprios latinos contra seu interesse, de que os gregos, vencidos, venceram os romanos. O relativismo não permite aceitar ingenuamente a superioridade objetiva de outra civilização. É necessário ser crítico, desde que não seja contra o estado atual das humanidades. A Maior Autoridade reúne, pois, os atributos da vaca sagrada: a lentidão para entender um argumento novo e a consideração de sua pessoa como algo intocável. Ninguém, de fato, pode encostar um dedo em nenhum bem do ser humano, mas André, salvo engano, tem um bom cúmplice nesse delito contra a fama: o Cristo  que, quando mencionaram outro rei, chamou-o impetuosamente de uma raposa. De fato, não há nada tão desagradável quanto ver o seu povo à mercê dos sofistas. André quase chega a dar razão aos versos dionisíacos de Camões:

"Este povo que é meu, por quem derramo
 As lágrimas que em vão caídas vejo,
 Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
 Sendo tu* tanto contra meu desejo!
 Por ele a ti rogando choro e bramo,
 E contra minha dita enfim pelejo.
 Ora pois, porque o amo é mal tratado,
 Quero-lhe querer mal... será guardado."

* O "tu", no texto original, refere-se a Júpiter. Podemos sem dúvida entendê-lo como uma mediação externa que se tornou interna.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O Retorno da Vaca


Há dois modos de entender o estágio da secularização contemporânea. Uma, de corte mais sociológico e jurídico, consiste no reconhecimento cada vez mais acentuado da autonomia dos entes temporais e numa diminuição da poder da Igreja nesses assuntos. A segunda, mais direta, é a transferência deliberada dos valores nascidos a partir do cristianismo para uma esfera filosófica imanente, que se pretende radicalmente alheia à qualquer religião. Não há nessa última ataque frontal contra a Igreja. Pelo contrário, há a admissão de que os valores cristãos são positivos mas, ao mesmo tempo, há o pressuposto de que o único possível é a diferença do que foi feito até agora. A diferenciação, no entanto, não é prescritiva, mas sim uma condição de significado. Só o novo realmente diria algo. E o novo não tem só uma definição negativa. A sua positividade é a justiça social.

Os anos 60 na França são um marco na história dessa linha de pensamento, e seu âmbito é muitas vezes o da linguagem. Numa aula magistral sobre a destruição da Biblioteca de Alexandria, o professor Christophe Roco menciona de passagem a fecundidade da reflexão dessa época como algo comparável às filosofias de Platão e Aristóteles na Antiguidade. Depois que Sartre havia dito que não acreditar em Deus seria um tanto incômodo para quem quisesse preservar a moral, mas que isso era um fato inafastável, aparece uma geração de pensadores que, atolados nesse deserto, imaginam um oásis. Algo parecido tinha de fato acontecido na Grécia na medida em que a religião oficial tinha sido desacreditada. A interpretação que Derrida, um dos humanistas daqueles anos, faz de Voltaire mostra, no entanto, que havia uma solução de continuidade no do movimento para fora do círculo de influência do sagrado. "Quando trata de tolerância, o Dicionário Filosófico de Voltaire reserva à religião cristã um privilégio duplo." As prerrogativas são os elogios devidos àqueles primeiros cristãos que tinham dado a vida pela tolerância e pelo respeito. Essas ideias e outras como essas são o sempre novo.

Entre este Voltaire e o próprio Derrida, no entanto, havia o abismo de um escândalo. Quando isso acontece, há uma volta à violência de que a religião até então havia poupado a sociedade. Trata-se de mais um impulso irracional contra algo inofensivo. No caso de Derrida, a sua vítima é o conceito. Como bem nota Habermas, "o trabalho rebelde da desconstrução [...] tem o interesse principal de inverter o primado da lógica sobre a retórica." Isso, no entanto, não acontece só pelo sádico prazer de destruir, mas sim em nome do único que sobrava no deserto: a metamorfose indefinida do ser humano, que teria vindo literalmente do nada e não iria a nenhum lugar em particular. Assim é coerente que, não reconhecendo nada de fixo no homem, essa filosofia afirme o primado da retórica sobre um discurso mais científico. Seria injusto, no entanto, dar a impressão de que Derrida se acha um messias. Ele mesmo defende uma "messianidade sem o Messias".

Isso, porém, não é perseguição, mas tão somente uma indiferença um tanto afetada. A vantagem de não ser lógico é que não há um inimigo definido. Derrida não é contra nada que não seja a injustiça presente, segundo ele, em qualquer ordem, como se ela não estivesse presente - em dose mais do que suficiente - mais perto do que imaginamos.  E essa guerra é empreendida também em nome do que ele afirma ser uma loucura: o perdão. De fato, se não há pecado pessoal, não há nenhum interesse pessoal em perdoar, e esquecer uma ofensa contra si é tão gratuito quanto descobrir, um dia, que se sofre de Alzheimer. "Com a transformação do pecado em culpa, e da violação dos mandamentos divinos em transgressão de leis humanas, algo certamente se perdeu."*  O que exatamente se perdeu pode ser entendido com um fato recente da política brasileira.

Sérgio Moro condenou pessoas que haviam transgredido as leis. Se, no entanto, ele fosse um discípulo ideal de Derrida e tivesse perdoado a todos os criminosos, ainda que esses dissessem que iriam fazer tudo de novo na primeira oportunidade, haveria aí um perdão dionisíaco, incondicional, ilógico, como nunca antes se viu. Quando a misericórdia é uma loucura, a civilização vira um hospício. Essas e outras messianidades, no entanto, são melhores do que qualquer nihilismo. A vaca voltou do brejo!

* Essas e outras citações são tiradas do artigo "La Secularización de la Cultura Contemporánea", de Massimo Borghesi.

domingo, 7 de agosto de 2016

Um Limite da Boa Educação



Há certos assuntos que, ainda que necessários, devem ser tratados com uma máscara anticontágio. Flávio Morgenstern, resistindo à tentação da indiferença, já disse quase tudo. O tratamento midiático do caso Biel é estranho porque, à primeira vista, parece ser algo bem intencionado. No entanto, é um delito em que, como diria Girard, a mão direita não sabe o que faz a esquerda. E o que a esquerda faz é relatar o assunto como se fosse um caso pertinente somente às leis promulgadas pelo Senado Federal, depois de um longo processo e infinitas discussões técnicas, e não algo bem mais simples.

Biel, depois de assediar uma jornalista, perdeu a fama. Saber qual foi a razão última pela qual o funkeiro não é mais uma celebridade é algo que ultrapassa em muito a capacidade de um blogue. No entanto, uma coisa é facilmente identificável em meio às notícias sobre o tema. Biel dividia as pessoas em duas categorias: as interessantes e as desinteressantes. Distinguir um cavalo de outro é algo que pode ser feito sem maiores problemas, mas mexer com seres humanos e sair impune não é tão fácil. E, ó ironia!, foi alguém tida por ele como interessante que lhe mostrou isso.

A indignação geral da nação, no entanto, é um pouco exagerada. Se a carreira de Biel tivesse sido sacrificada em troca do apreço pelo pudor, qualquer hipérbole estaria justificada. No entanto, não foi assim. Além disso, há uma atenuante silenciada. Quando disseram ao Biel  que ele podia bancar o bom selvagem, ele acreditou por pura inocência. Quem, desde a década de setenta ousa dizer publicamente que sexo pode ser uma tragédia? Ninguém. A próxima vítima, obviamente, será a educação, como se essa pudesse resolver o problema. Podem dizer que, no final das contas, era o professor ou o pai de Biel que tinham o dever de lhe ensinar as regras de como se comportar com a elite intelectual do país, que, no momento, faz e desfaz a opinião pública segundo a agenda do gênero. A tática do discurso é claramente dar peso à vontade individual e tirar importância da ética. Assim, o professor de Biel deveria ter explicado que o consentimento é tudo. A educação, porém, não é o remédio.

A vítima principal do caso é uma jornalista, mulher e, se não fosse pela lei, indefesa. O que mais impressiona nas suas falas é que não foi a falta contra a virtude do pudor a razão pela qual ela se sentiu ofendida. À sem-vergonhice de Biel ela poderia, tranquilamente, ter oposto uma defesa do respeito mandando-o por exemplo voltar para o chiqueiro de onde escapou ou qualquer outra resposta nesse estilo. No entanto, ela é um vítima completamente ingênua, como mais um bom selvagem que ignora o pecado original. De fato, a senhorita admitiu que, antes do assédio, foi simpática com seu algoz. A julgar pelo desfecho, ou ela de fato não queria nada além de uma entrevista ou ela se arrependeu logo que viu de perto a fera. Portanto, o único motivo pelo qual ela foi simpática é justamente a boa educação. Ser civilizado às vezes facilita a invasão dos bárbaros.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Companhia dos Cães Solitários

"Para que mímese se torne completamente antagonística, o objeto tem que desaparecer." Girard.

O objeto nada mais é do que o foco da memória. Em casos extremos, ele nunca é completamente apreensível. No entanto, é possível conquistar uma acúmulo de indícios que redundem numa certeza. Do contrário, o inconsciente freudiano seria só uma mística de quinta categoria. Maquiavel não era consciente das consequências desastrosas de sua filosofia moral, e uma delas pode muito bem ter sido o idealismo alemão. Para efeitos da Tuba, esse pode ser definido como a identificação confusa entre a razão e o mundo. Hoje, por exemplo, vige a moda de que, fora da academia, é extremamente complicado dedicar-se aos livros.  Essa ideia, no entanto, não é completamente certa. Conheço gente que lê bem, mas nunca foi adestrada nos rigores uspianos, que até têm a sua utilidade mas não são imprescindíveis. Tomá-los por pressuposto impossibilitaria a cultura fora do quadrado acadêmico.

Na medida em que os fins justificam os meios, e o fim nada mais é do que um projeto ambíguo, qualquer besteira está justificada. No marxismo, como bem lembra o Olavão, a redução racionalista é prospectiva e acaba no exato oposto do paraíso do proletariado. Na poesia, as consequências não são tão graves. No entanto, há uma certa indisposição que, transformada em versos, é tão incompreensível quanto o erro político. Reclamar das canções que expressam sentimentos líricos faz terra arrasada de metade desse labor excelso das palavras que é a poesia.

De fato, um dos correspondentes da Tuba no Recife descobriu, num espólio abandonado, um manuscrito inédito que tudo indica ser uma emulação de "A Casa Vazia." Como não se trata da caligrafia do autor desta maravilha, Alberto da Cunha Melo, mas sim de uma letra mais clara, que às vezes era deixada para trás sem ter sido completada, alguns dizem que deve ser de um amigo mais velho, médico  e viúvo convicto, que também fazia uns versos bissextos e era bastante competitivo. Para ele, o poema em questão era um convite a abandonar o individualismo. Senão, vejamos:

 Poema nenhum, nunca mais,
 será um acontecimento:
 escrevemos cada vez mais
 para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Depois que sua esposa faleceu, o doutor tinha resolvido dedicar-se completamente ao trabalho e não ia a festas de nenhum tipo, o que Alberto não achava bom porque impossibilitava que ele encontrasse uma nova companheira. Quando o esculápio leu a "A Casa Vazia", achou primeiro, como vimos, que seu tema era a própria escrita, o que costuma ser chato. No entanto, perdida a objetividade, viu que era possível interpretá-lo trocando o referido usual do vocábulo "poema" pela arte de devolver a saúde aos doentes. Assim o "deserto particular" se transformava no seu tão louvado hospital, que para ele tinha sempre sido uma poesia cheia de transcendência. Alberto seria bem capaz dessas zombarias sofisticadas. Muito lógico e fulo da vida por, dentro do texto, ocupar o lugar do cão, o médico respondeu latindo assim:

Iracema nenhuma, nunca,
Será para mim uma princesa,
Nem roçará em minha nuca
para consolar essa tristeza.

Às lágrimas que choro agora
Basta um lenço... e vão-se embora.

Ser um Batista solitário,
Os cães dizem que é muito estranho,
Pois é do amor ir pareado.

Mas, noite e dia, há companhia,
Mesmo numa casa vazia.