Um dos fetiches mais saudáveis da humanidade é o apreço pelos antigos. O tempo de ouro de que falam os poetas é a expressão daquele sentimento sem o qual nenhuma família digna do nome se forma. O rapaz que tem orgulho dos seus antepassados está no caminho de superá-los porque não despreza as suas conquistas. Aquele, porém, que vê nos seus pais e avós múmias que o tempo enterrou não é capaz incrementar o patrimônio moral do seu sangue simplesmente porque ele sequer o possui. Isso fica claro naquela história de Michelangelo e o pedaço de mármore do qual sairia Davi. Os antepassados podem até ser uma pedra disforme, mas desprezá-los é como tentar fazer por si próprio não só a escultura, mas também fabricar o mármore de que ela será feita. Quando este fica pronto – se fica – já não há tempo para mais nada, e será a vez da próxima geração esquecer a antiga.
Boa da parte desse progressismo moderno, que é como um homem que perdeu a memória, vangloria-se de ser científico. E a ciência, de fato, é a pérola mais brilhante na herança daquela época feroz que foi a Idade Média. No entanto, há uma coisa que talvez ninguém entenda, mas que nem por isso deixarei de dizer: para o correto apreço da ciência, é necessário desprezá-la um pouco. O que gostaria de dizer é algo muito parecido com aquele princípio do bom senso segundo o qual somente as pessoas que não são obcecadas pela riqueza tem o ócio necessário para gozá-la. O avaro cujo ouro é a ciência é tão preocupado com revistas científicas que para ele o mundo sempre chega de segunda mão. Ele acaba deixando de lado a sua capacidade de investigar um fato para investigar exclusivamente a investigação dos outros. E o aprendiz de cientista perde assim a faculdade de elaborar a própria opinião transformando-se num papagaio que repete as teorias da moda.
Não estou aqui a quebrar o telhado de vidro do cientificismo, mesmo porque ele é uma laje de concreto bem fechada para tudo que está em cima. O que digo, mais precisamente, é que o homem está sobre esta casa que agora muitos pretendem construir isolada da civilização. E o problema começa quando este homem, que está acima, é colocado abaixo e se torna uma cobaia de teorias de duvidosa cientificidade como é o psicologismo behaviorista. Recentemente, um jornal que divulga sociologia alardeava que os seres humanos gostam de receber elogios como os animais gostam de receber comida, e que portanto o louvor pelo comportamento desejado pelo governo seria uma modo de fomentar esta ou aquela atitude assim como um cão aprende a sentar se lhe dão ração quando ouve o comando. O problema com isso tudo está em que, se não há uma filosofia sã do homem, as atitudes a serem fomentadas são, na pior dos cenários, uma passividade total ante as ingerências da política e, no melhor, o que alguns chamam de tolerância e é apenas falta de convicção.
Um dos maiores bens da leitura é exatamente ser um antídoto contra as essas ideias que aparecem na praça pública. Leitores, porém, são usualmente gente que não cultiva o desprezo pelos livros necessário à ação. O mundo, assim, fica nas mãos das pessoas práticas, em quem os intelectuais jogam a pedra da crítica sem contudo se levantar do sofá. Os
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