terça-feira, 7 de julho de 2015

A Dança das Galáxias

A modernidade é um caso de polícia. Muitas vezes, no entanto, a turma da ordem trabalha tão bem que é impossível não lhe jogar um confete. É assim que os bandidos mais perigosos dessas bandas, que na frente da platéia bancam o Robin dos Bosques, mas não passam de coringas, estão com o caminho pavimentado rumo ao mais desumanos dos estabelecimentos. A desumanidade da prisão, no entanto, é a multidão de homens que se acumulam no mesmo metro quadrado. Um homem é um homem, mas vários homens juntos são violentos como uma alcatéia. No entanto, se os infelizes recebessem na prisão o tratamento que não receberam em casa, sairão de lá mais alegres como o Tiririca. E a máquina do mundo, tendo girado mais vez, entregaria à posteridade uma raça renovada.
A proganda oficial, no entanto, afirma que a máquina do mundo não erra nunca, que seu funcionamento é sempre garantido, e que, se há algum problema, a assistência técnica o resolveria da noite para o dia. Não há, todavia, nenhuma garantia de que, preso Robin Hood, não haja mais nenhum vilão. É perfeitamente possível, dentro da engranagem, que uma peça que andava para frente começasse a girar para trás e todos nós regredíssemos àquele paraíso, em que tudo era de todos, e não havia nenhuma divisão de classes. A diferença, no entanto, é que o mito moderno, em vez de ser uma memória, é um projeto que nega as divisões entre os homens porque antes lhes priva das suas diferenças. E uma das verdades dos mitos antigos está  na afirmação de que a única diferença intolerável era a de Polifemo, que tinha um olho só. É impossível ver a realidade em todas as suas dimensões quando se tem somente uma ideia, e todo fanatismo é baseado na opinião de que Polifemo enxerga melhor que Ulisses, o que não só um erro estético, mas sim um desvio de consequências cosmológicas.
Os astros estão todos alinhados numa ordem que se parecem muito com a de um engenheiro que planeja uma cidade, se por um momento desconsiderarmos que o universo é mil vezes mais complexo.  No entanto, há uma espécie de desvio que faz com que algumas galáxias próximas à Via Láctea estejam capriochosamente curvadas. A explicação mais aceita  é a de que a teia de matéria escura que constitui a geometria invísvel do universo não é retilínea por uma infinidade de razões. Um caubói australiano, no entanto, que atende pelo nome de Pavel Kroupa, resolveu por bem que toda essa disposição irregular foi causada por um acidente no percurso da Terra até o lugar onde hoje se encontra. As duas explicações não são mutuamente excludentes. O bom senso de uma aponta a causa do fenômeno que a matemática da outra descreve. O Polifemo moderno, no entanto, não admite que, além do fenômeno, haja uma sucessão bem definida de causas.
Ptolomeu Barroco
Há quem diga que Descartes é a causa dessa e de outras tragédias contemporâneas. Ele, no entanto, é uma vítima da tentativa frustrada de abandonar os universais em troca de uma certeza tão rasteira quanto falsa. O maior acidente de percurso da história da filosfia, porém, foi Ockham, que achava que, dentre duas explicações, a mais simples é superior à mais complexa, como se esta não fosse formada por várias daquelas. E quanto mais melhor! No entanto, a navalha de Ockam corta fora o supérfluo em nome da brevidade. E Pavel Kroupa, de fato, não teria conseguido levar a sua tese adiante se ela não fosse, além de certeira, simples, que é uma das virtudes da modernidade. E o que diz, trocando em miúdos, é que a matemática, se serve para alguma coisa, não é para traçar um folha quadriculada e obssessivamente tentar fazer com que o universo se encaixe nela. Ela serve, antes de mais nada, para descrever o mundo antes e depois de um movimento. Se este como hipótese não é científico, o problema é dos cartesianos, e não de Kroupa.
Descartes, no entanto, é o efeito colateral de uma sacada tão genial que quase poderia ser comparada com a de permitir um desvio na linha das galáxias. Um dos nós górdios da filosofia é explicar como a lógica que não existe no mundo foi parar nos computadores dos adversários de Kroupa.  E a resposta do Filósofo é que se essa lógica das causas é de fato incompatível com a da maioria, não é o universo quem está errado, mas sim quem acha que sua cabeça é maior do que Via Láctea. E que, todavia, é perfeitamente possível que a cabeça de Louis Pasteur seja maior do que a de todos os seus coleguinhas juntos. O novo Louis Pasteur, no entanto, é mesmo Kroupa, que viu nas estrelas brilhar o sempre novo aristotelismo das causas com uma evidência de que nem Descartes, fechado no seu quarto e contemplando o fogo transformar a cera, foi capaz.
O fogo é de fato o melhor exemplo de que nada nessa vida é eterno. Os bombeiros o conhecem pela prática. O problema, porém, aparece quando alguns cientistas, muito competentes em astronomia, afirmam que tudo o que eles fazem é no sentido de aumentar o domínio sobre a natureza e fazer mais telefones celulares e quejandos. O mundo moderno, porém, está cansado de novas tecnologias. Como uma máquina poderia explicar que, em meio à imensa ordem dos cosmos, há algumas galáxias fora de lugar? A astronomia, porém, não é uma ciência que começa de baixo e sobre numa escalada ascedente rumo ao infinito. Pelo contrário, há um infinito nas coisas aqui de baixo que permitem perceber como os astros lá em cima se movem. Kroupa não aprendeu que havia movimento olhando para o céu, mas sim percebendo que há uma força indomável na natureza que não só faz com que rosas brotem no asfalto, mas também que a trajetória dos astros sejam alteradas.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

João de Humelaga

Um rapaz que cursava odontologia foi obrigado – do contrário, ele não se formaria – a se inscrever numa disciplina de biologia. No primeiro dia de aula, ele sinceramente disse ao professor que as lições seriam tão úteis para ele quanto plantar batatas. O mestre, então, diante da ignorância, respirou fundo e permitiu resignadamente que ele não frequentasse as classes. No entanto, passou-lhe um trabalho. Ele deveria observar alguns peixes dentro de um aquário e fazer relatórios sobre o que acontecia. Nos primeiros meses, as observações se limitaram à nutrição dos bichos, e o professor se mostrou insatisfeito. No fim do semestre, porém, o aluno tomou as notas que lhe valeram a aprovação. Tendo ficado acordado até mais tarde estudando, ele cochilou e seu braço derrubou a luminária. De repente, todos os peixes, que estavam imóveis, correram para a luz. Os fótons atraíam os animais quando a sua fonte estava colada à parede de vidro, mas quando procediam da janela ou da lâmpada no teto, o mesmo não acontecia. Havia já um problema, uma pergunta teórica que poderia ser respondida teoricamente.

No imbróglio da pesquisa com células-tronco, a observação palmar, simples e acessível a qualquer um é a de que duma única célula surge o corpo inteiro do seu João de Humelaga. E o pseudo-fato é que as células-tronco adultas não seriviriam. Hoje, depois que o STF cedeu à chantagem emocial de alguns pseudo-cientistas, a opinião aceita é a de que servem. Não havia um problema teórico a ser resolvido, mas uma vontade louca de agir. Mas os pseudo-cientistas, com o rabo entre as pernas, admitem que haviam errado, que haviam se precipitado, que, antes de virem a público com a promessa de uma panacéia, deveriam ter feito mais observações. E aí teriam visto que as células-tronco adultas são viáveis para o experimento que pretendiam, que os embriões poderiam ter sido deixados em paz, que o senhor João de Humelaga poderia ter nascido e estar solto no mundo, vivo e alegre.Ciência é  observação

Esse, porém, não era o método do nunca assaz louvado Pasteur. Antes de propor a teoria do germe, ele tinha alguns fatos que qualquer um poderia ver com os próprios olhos. O primeiro era que a multiplicação de micro-organismos não dependia do oxigênio. O segundo era que essas pequenas vidas, como as grandes, não resistiam a uma temperatura elevada. O terceiro era que esses seres hipotéticos tinham um certa massa. A diferença entre estes e o fatídico fato dos pesquisadores que prometiam o que não podiam cumprir é esta: os acidentes dos mircróbios já haviam sido observados quando a explicação foi proposta, mas a tese do quanto mais jovem melhor não passa de uma expressão bonitinha, mas ordinária. Não era um fato contemplado, mas sim uma hipótese a ser refutada à custa de outras pessoas.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O Lugar da Escola


Um dos fetiches mais saudáveis da humanidade é o apreço pelos antigos. O tempo de ouro de que falam os poetas é a expressão daquele sentimento sem o qual nenhuma família digna do nome se forma. O rapaz que tem orgulho dos seus antepassados está no caminho de superá-los porque não despreza as suas conquistas. Aquele, porém, que vê nos seus pais e avós múmias que o tempo enterrou não é capaz incrementar o patrimônio moral do seu sangue simplesmente porque ele sequer o possui. Isso fica claro naquela história de Michelangelo e o pedaço de mármore do qual sairia Davi. Os antepassados podem até ser uma pedra disforme, mas desprezá-los é como tentar fazer por si próprio não só a escultura, mas também fabricar o mármore de que ela será feita. Quando este fica pronto – se fica – já não há tempo para mais nada, e será a vez da próxima geração esquecer a antiga.

Boa da parte desse progressismo moderno, que é como um homem que perdeu a memória, vangloria-se de ser científico. E a ciência, de fato, é a pérola mais brilhante na herança daquela época feroz que foi a Idade Média. No entanto, há uma coisa que talvez ninguém entenda, mas que nem por isso deixarei de dizer: para o correto apreço da ciência, é necessário desprezá-la um pouco. O que gostaria de dizer é algo muito parecido com aquele princípio do bom senso segundo o qual somente as pessoas que não são obcecadas pela riqueza tem o ócio necessário para gozá-la. O avaro cujo ouro é a ciência é tão preocupado com revistas científicas que para ele o mundo sempre chega de segunda mão. Ele acaba deixando de lado a sua capacidade de investigar um fato para investigar exclusivamente a investigação dos outros. E o aprendiz de cientista perde assim a faculdade de elaborar a própria opinião transformando-se num papagaio que repete as teorias da moda.

Não estou aqui a quebrar o telhado de vidro do cientificismo, mesmo porque ele é uma laje de concreto bem fechada para tudo que está em cima. O que digo, mais precisamente, é que o homem está sobre esta casa que agora muitos pretendem construir isolada da civilização. E o problema começa quando este homem, que está acima, é colocado abaixo e se torna uma cobaia de teorias de duvidosa cientificidade como é o psicologismo behaviorista. Recentemente, um jornal que divulga sociologia alardeava que os seres humanos gostam de receber elogios como os animais gostam de receber comida, e que portanto o louvor pelo comportamento desejado pelo governo seria uma modo de fomentar esta ou aquela atitude assim como um cão aprende a sentar se lhe dão ração quando ouve o comando. O problema com isso tudo está em que, se não há uma filosofia sã do homem, as atitudes a serem fomentadas são, na pior dos cenários, uma passividade total ante as ingerências da política e, no melhor, o que alguns chamam de tolerância e é apenas falta de convicção.

Um dos maiores bens da leitura é exatamente ser um antídoto contra as essas ideias que aparecem na praça pública. Leitores, porém, são usualmente gente que não cultiva o desprezo pelos livros necessário à ação. O mundo, assim, fica nas mãos das pessoas práticas, em quem os intelectuais jogam a pedra da crítica sem contudo se levantar do sofá. Os líderes práticos, porém, também passam pela escola nesses tempo de educação universal. Se, todavia, os colégios forem somente uma organização que forma líderes para outras instituições, eles não servirão para tirar o homem da posição incômoda em que o behavioristas o colocaram. O único jeito é formar leitores capazes de ler não somente os livros mas também o mundo a sua volta. Se o lugar de toda criança é na escola, o lugar da educação é sobre a corda esticada do equilibrista, que não pende nem para o eruditismo inócuo nem para a práxis irrefletida.


sábado, 23 de maio de 2015

O Palácio da Mooca

O anti-herói tem mais de de vinte e sete séculos de existência, embora os pedantes achem que, ao escreverem sobre drogados, inventam a roda. Aquiles, por exemplo, ao quebrar a unidade do exército grego, comporta-se com uma vilania, que é o espelho perfeito da malandragem perpetrada por Ulisses no final da guerra. Enquanto o primeiro trai os gregos, dando-lhes de presente o Cavalo de Tróia da sua força física desgovernada, o príncipe de Ítaca faz o mesmo, mas contra o oponente até então imperecível. Odisseu é o homem cuja prudência deu a galardão aos gregos, e a Aquiles o vilão que, tendo matado Heitor, negar-lhe-ia até a sepultura se não Príamo não fosse lhe pedir o corpo. A virtude de Odisseu, no entanto, não se resumia à estratégia militar, mas se a sua terra natal, que ele governava com mão tão doce a ponto de permitir que sua esposa ficasse à frente de todos os seus negócios. A mulher, com efeito, é o melhor amigo do homem na defesa de seu patrimônio, desde que ela não seja a melhor amiga do cartão de crédito.
A maior riqueza de Odisseu, todavia, não eram as suas terras, onde as vinhas cresciam até derramarem abundantemente o vinho nos cálices servidos em dia de festa. Se Penélope tem uma incumbência importante, essa é a tarefa de educar Telêmaco em meio a príncipes que eram tão boa companhia de sua família quanto os parasitas o são de carvalho. A educação, dizem alguns cuja sobrancelha erguida demonstra que fazem mais força para pensar do que o Maguila para esbofetear, é imprescindível ao desenvolvimento do homem. Isso seria verdade se a educação pudesse ser destruída pelos amigos que um filho tem e seria melhor que não tivesse. Odisseu, no entanto, tem, ao lado das piores exemplos, a lição mais preciosa que alguém poderia conquistar nessa vida. Quando Odisseu retorna à ilha, ele não se preocupa com o rosto de Penélope, que as rugas enfeiavam, mas sim com manutenção de sua propriedade, que a desfaçatez dos príncipes havia tornado impossível. Foi isso que o motivou a abandonar a prudência que havia sido a vitória dos gregos para dar vazão a uma ira muito semelhante a que dá início ao entrevero de Aquiles. Ambos tem seus momentos de anti-heroísmo, mas no centro que une as duas estórias está a vitória de um povo e a conciliação do rei vencido com o assassino de seu filho.
A maior riqueza de Ulisses, materialmente, era o solo de Ítaca. Os mercados financeiros da época – que são velhos e gastos como todo o negócio o que faz da bufunfa o seu eixo exclusivo – somente teriam o que trocar se houvesse plantações e colheitas. No entanto, mais do que arremeter contra os príncipes porque eles não tinham cuidado de seus bens, a ira de Ulisses os destrói porque eles achavam que o seu maior seria tão venal quanto o produto do trabalho de seus escravos. O trabalho produz riqueza, mas ela vale tanto quanto valer o trabalhador, e este é o primeiro a reconhecer que as riquezas conseguidas sem esforço são as mais saborosas. Como o ladrão, ele sabe que o fruto é tanto melhor quanto mais proibido for. A diferença é que, enquanto o trabalhador se ocupa disso durante oito horas por dia, o ladrão usa as oito horas da noite.
Essa é a razão por que multiplicar as leis contra corrupção não levaria o Brasil a lugar nenhum. O melhor é deixá-la correr solta, aplaudindo os jornalistas se refestelam a cada descoberta nova de um ovo podre. O fato é que, embora eu admire muito aqueles que não leem jornais porque lá só há os cadáveres da moralidade pública, não consigo deixar de admirar o trabalho do coveiro. Há malandragem por trás do que vem fazendo o Janot, e é das heroicas: se o único indício contra o Eduardo Cunha é o cumprimento de seu dever de parlamentar de investigar os que contratam com o Planalto, então ele só foi acusado porque o contrário seria a dar à propaganda petista o argumento de perseguição política. A denúncia sem fundamento de um opositor do PT é a garantia de imparcialidade da investigação.
Toda malandragem complicada, no entanto, é uma perda de tempo. A única coisa que um malandro ao fim e ao cabo consegue é se livrar de ter a sua reputação manchada. Reputações, no entanto, são vendidas nas bancas de jornais por dois mirréis, e muito gente honesta é incluída no saco da corrupção somente porque estava na hora e no lugar errados. Vários empregados das construtoras, como os soldados do exército grego, sofrem com a traição de Aquiles. No entanto, se um empregado teve relações escusas com o mundo da política, é bem possível que tenha sido somente para garantir à sua Penélope e ao seu Telêmaco um palácio na Mooca.



quinta-feira, 21 de maio de 2015

Édipo e a Mulher de César


Em toda a guerra, a primeira coisa a se descobrir é o inimigo. Se a batalha é sobre Palácio do Planalto, o inimigo ou é pobre ou é rico, e está claro que, no momento, o inimigo são aqueles que detêm o que dinheiro nenhum no mundo pode comprar. É possível comprar casas em Parati, carros de luxo e postos de gasolina, mas ninguém é capaz de comprar o que nem todos os bens podem garantir. Uma consequência da riqueza é, sem dúvida, uma aura de prestígio. No entanto, essa aura de prestígio, se parece vir do nada, é muito mais prestigiosa. E é exatamente este o inimigo. A arma que os políticos empunham contra toda a população brasileira é o domínio da retórica cujo fundamento é o mais vazio dos nadas.
A malandragem em questão consiste basicamente em dizer que, como todas as pessoas são livres, os que cometeram crimes durante os governos do PT agiram por iniciativa própria sem contar necessariamente com o aval do partido. Esse argumento, porém, é como a culpa de Édipo. Ele afirma basicamente que o petistas teriam aparecido na política sem terem passado pelas reuniões que cada diretório municipal, estadual e federal faz para decidir quais serão e como serão custeadas as candidaturas. Ou, se passaram, enganaram a todos tão bem que os dirigentes simplesmente não farejariam a picaretagem. De qualquer modo, o partido, como herói tebano, não teria culpa alguma, e a ele só caberiam os méritos das políticas sociais.
 
Sobre essas, teriam o domínio do fato Lula e Dilma ou quem quer seja o candidato nas próximas eleições. Quando, portanto, o assunto são os alimentos distribuídos no Nordeste, não haveria dúvida de que eles saberiam e controlariam toda a engrenagem da máquina pública. No entanto, quando o assunto são os churrascos que Dirceu e companhia faziam com o dinheiro do povo, ninguém teria domínio sobre nada. A coisa não é coerente, mas um erro como esse nunca é percebido no meio da rua, onde os eleitores se afanam para ganhar o pão de cada dia.
A única solução, portanto, seria entrar com um processo judicial contra Dilma. Isso, porém, levaria o país a uma crise institucional, que os melhores veem como desnecessária e os críticos de plantão, cujo principal ocupação é torcer para o circo pegar fogo, veem como um fulgurante espetáculo de democracia. Que o Brasil é um circo, disso não há dúvida. Mas o melhor seria revelar quem são os incendiários pela única via possível: a denúncia calma e tranquila dos crimes cometidos pela propaganda petista, que vão muito além da corrupção pecuniária, e que são nada menos do que os discursos baseados sobre a lei. Segundos estes, as doações feitas por empresários ao Partido dos Trabalhadores seriam lícitas e, portanto, não haveria injustiça alguma. No entanto, é muito possível que por detrás de uma ato legal como uma compra e venda haja uma extorsão, sem a qual o preço não teria sido tão baixo ou alto. O PT vendeu o Brasil de maneira legal, mas isso não torna cada de um de seus membros menos responsável.
O contrário seria como afirmar que o massacre do Carandiru foi culpa do Estado e não dos presos e dos policiais, ou que a causa da queda recente do avião alemão na França é somente o deslize do seu empregador. Em todos esses casos concretos, o que há uma complexidade de erros que terminam numa tragédia. O erro, porém, não é algo inofensivo. Se Clinton não sabia que o complexo químico por ele bombardeado não era uma fábrica terrorista de armas, isso não o exime de ter dado a ordem um tanto desleixadamente. Muito mais grave, porém, é o erro que se transforma em ignorância voluntária, que é a patologia presente não só na queda do avião alemão como também no argumento - que é repetido como a insistência de um vinil arranhado – de que ninguém sabia de nada. Se realmente não sabiam, não haveria problema algum. No entanto, como não desconfiar que mesmo os mais sonhadores dos petistas não seriam feitos do mesmo barro que Fernando Collor de Mello? E, aliás, de um barro um tanto mais sujo, pois vai nele misturado, além da sede de dinheiro, um palavreado estranhíssimo sobre um partido mais imaculado que a mulher de César.
Todavia, Édipo e a digníssima esposa de César são cobaias de um experimento científico que começou no Renascimento. A partir de então, a política deixou de ser objeto de estudo acadêmico e passou a fazer parte do currículo técnico, que se ocupava em fornecer os meios para que qualquer um chegasse ao poder. O tubo de ensaio onde a experiência acontece é a imprensa, que vibra enquanto os ingredientes borbulham. O resultado é conhecido de todos: o que é mais leve boia. No caso, não há dúvidas de que, dentre as diversas propagandas da praça pública, não há nenhuma tão sem peso quanto as explicações petistas sobre os seus desmandos.





segunda-feira, 18 de maio de 2015

O Pênalti


Há muitos fatos inquestionáveis nesta vida. Ninguém por exemplo duvida de que Osama bin Laden era um terrorista científico, que fazia da razão um instrumento para o poder político. E, nesse sentido, ele faz melhor do que os intelectuais que acham que pensar é uma atividade em si e sem nenhuma finalidade. O problema, no entanto, é que seu projeto de poder não foi pensado. Se fosse, ele veria que é impossível vencer os Estados Unidos, cujo liberalismo é uma lição de democracia prática. Se o dinheiro é um voto, e o voto é onipotente, então, sendo um dos votos da população americana terminar com o terrorismo a todo custo, isso acontecerá assim que orçamento do Tio Sam o permitir. Há, no entanto, uma miríade de questões cuja resposta é aberta, e uma delas versa sobre a causalidade do mundo. Se, por exemplo, um jogador como o Roberto Silva perde um pênalti, isso significa que esse momento mágico do futebol é um títere nas mãos do acaso. Não haveria nada de certo no mundo, que seria nada mais que um jogo de azar. Ou ainda, se uma furacão se anuncia, no horizonte, e os pássaros, elefantes e leões saem correndo rumo às montanhas para buscar abrigo, isso tampouco seria um ato livre, mas somente a engrenagem do mundo funcionando sobre os seus seres irracionais.
Esse acaso, todavia, não seria meramente um fato, mas também uma lição para o homem, cuja vida decorreria assim de capricho em capricho, cujas decisões seria tão arbitrárias quanto a de um jogador vendido que, na hora crítica da partida, resolve chutar para fora, cuja liberdade, enfim, não teria outro propósito que o de afirmar a si mesma. A tolerância é a resposta que os pedantes dão a esse problema como se essa palavra fosse uma varinha de condão contra toda a corrupção. A solução, é claro, está em descobrir quem é o real culpado pela perda do pênalti, e se o que está em jogo é uma causa espúria como o suborno do juiz ou do jogador, o melhor a se fazer é puni-lo no intuito de que aprenda a se comportar melhor da próxima vez. A tragédia, no entanto, é que muitas vezes essas causas são indecifráveis, e os crimes acabam ficando sem punição. Afirmar, no entanto, que um assassinato é suicídio é negar que o crime teve qualquer causa extrínseca, o que é manifestamente falso. E foi isso, por exemplo, que o maior partidário da Tolerância disse acerca de um crime cujo culpado a razão humana não se atreve a perscrutar: a morte de Jean Calas.
Uma explicação, possível, no entanto, é que Calas se matou porque o mundo era intolerante. Isso, porém, além de ser calúnia de dimensões cosmológicas, não explica, todavia, que muitas outras pessoas vivam nele e não se matem. É muito mais plausível admitir que o crime aconteceu porque alguém permitiu que ele acontecesse, de descuido em descuido, como um jogador que, passando o ano sem praticar, perde o pênalti na final do campeonato. E afirmar que esse jogador merece uma punição, ainda que, na sua ingenuidade, ele ache que não fez nada errado, não é intolerância: é pedagogia. Assim, todos os outros aprenderão a lição de que, sem treino, não há talento algum que sirva.
Este é, aliás, outro erro do supinamente louvado e incompreendido Voltaire. Ele achava que havia uma razão que governava o mundo, a qual, todavia, era distribuída de maneira irregular entre as criaturas. Assim, os que recebiam um pouco mais, seriam seres racionais, e fugiriam dos furacões conscientemente, e àqueles que na partilha coubesse menos seriam os macacos que fogem das catástrofes simplesmente porque veem os outros animais correndo e não conseguem resistir ao impulso de imitá-los. A razão, no entanto, não é algo posto no homem como se uma causa extrínseca fosse a responsável pelo maior ou menor QI das pessoas. Ela é conquistada mediante o pensamento livre, que, aliás, não tem nada a ver com a tolerância segundo a qual os maus jogadores perderiam os pênaltis somente por descuido.
A pomba foi programada para, mesmo diante da mais terrível tempestade, preservar a sua vida, que, no entanto, pode ser tirada pelo caçador que não sabe se divertir de outro modo

A questão, portanto, é essa: ou um artilheiro perde o pênalti porque quis ou porque porque foi movido por forças misteriosas que o levam a precipitar o seu time na sarjeta da opinião pública como a depressão daquele piloto alemão fez os seus passageiros se precipitarem contra um rocha. Essa força misteriosa seria a mesma presente naquilo que os biólogos chamam de mutações aleatórias. É, porém, muito mais difícil acreditar nisso do que numa causa, seja ela física como o churrasco que artilheiro vendido compraria com o dinheiro da propina, seja metafísica como o propósito que o jogador fiel faz de, ao acertar o ângulo, dar à torcida uma alegria que o mundo não conhece.




domingo, 19 de abril de 2015

Loucura Científica

Quando um autor resolve tratar de um tema de maneira científica, a primeira pergunta que alguém em sã consciência se faz é se ele tem o instrumental filosófico adequado. Quando Pasteur decidiu, por exemplo, estudar os micróbios, ele não tinha um fato. Mas ele tinha uma hipótese filosoficamente apropriada, cujo postulado básico era: um rato não pode derivar de um lixo porque ele é muito mais complexo do que restos de comida. Isso não quer dizer que a ciência não trata de fatos. No entanto, fatos por si só não passam de obviedades, e se a ciência fosse só isso, ela não seria muita coisa.

Há mistérios no mundo, que compete a ciência desvendar. Um mistério é sempre uma coisa religiosa, embora nem sempre a explicação seja uma questão de fé. Não é necessário ter fé para refutar a teoria da abiogênese. Basta um pouco de bom senso. Em todo bom senso todavia há a constatação, comum a todas as pessoas saudáveis, de que existem fatos óbvios, espaços de claridade, intermitências de luz, mesmo no problema mais espinhoso. E que a percepção destes fatos não é patrimônio exclusivo da geração atual, como se nossos antepassados fossem o lixo do qual nós, ratos modernos, derivamos. Quando, portanto, um cientista do gabarito do Prof. Gerardo Furtado afirma que um conceito da teoria da evolução tão central como é o da hierarquia natural não tem fundamento, há aí um grave erro filosófico. Falta-lhe o mais simples bom senso de reconhecer que os homens são o topo de cadeia alimentar.

O argumento principal é: as ações humanas são movidas por instintos; o que é movido por instinto é um animal; logo, as ações humanas são animalescas. Se, no entanto, o professor Gerardo dobra uma rua e vê que donzela está sendo assaltada por um meliante, há, nesse instante, um fato que derruba a premissa de seu raciocínio. Porque, neste momento, ele é livre para seguir o seu instinto de preservação da própria pele e fingir que não viu, ou ele pode se aventurar num ato heroico. Um animal, porém, está programado para fazer sempre a mesma coisa, e se é difícil ensiná-lo a ser altruísta para com os da sua própria espécie, é praticamente impossível fazê-lo acudir as necessidades de uma outra espécie, como fazem alguns homens. Isso, porém, é óbvio. É, portanto, mais um mistério da existência que o Prof. Gerardo Furtado não o compreenda e saia por aí afirmando que à ciência falta este tipo de bom senso.

Talvez, porém, seja porque ele, afinal de contas, é um defensor da humildade contra uma certa tendência moderna de colocar o homem no centro de tudo. Nesta sua batalha, ele estaria certo. Mas, ah!, não é por aí que se começa o conserto deste mundo. Não é rebaixando o homem e elevando a ciência que as coisas vão se reequilibrar, porque a ciência é algo humano. É antes buscando o que de verdade há nos conceitos que as academias propõe hoje e propuseram ontem. E um desses, que frequentemente merece ser alvo da fúria refutativa do Prof. Gerardo, é o da hierarquia natural. Uma das interpretações da ideia é que o homem, sendo o topo da cadeia alimentar, é o mais forte de todos os animais. Isso, porém, seria falso. O homem não é o mais forte, mas sim o mais fraco dos animais. Um urso não precisa fazer lã para se aquecer no inverno. Um peixe não precisa de um tubo de ar para nadar no oceano. Um pássaro não precisa entrar dentro de um avião para voar. O homem, todavia, já encontrou remédio para todas essas carências. E isso aconteceria se ele fosse somente capaz de seguir cegamente o seu instinto?